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Emicida

O bom moço do rap detona o preconceito dos colegas e o machismo no hip hop
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05.04.2011 | Texto por Pedro Alexandre Sanches Fotos Jordi Burch

O rapaz abaixo é Leandro Roque de Oliveira, filho de dona Jacira. Ele jura ser um bom menino: não bebe, não fuma, sofreu bullying na infância por ser negro e pobre. Mas você o conhece por seu nome de guerra: Emicida, o matador de MCs. Apontado pela crítica como o mais importante nome do novo rap nacional, embarca este mês para rimar no prestigiado festival Coachella, na Califórnia. Mas parece que, quanto mais sucesso faz, menos é tolerado por seus colegas do rap

Jordi Burch

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O rapper Emicida

O rap brasileiro não é mais o mesmo desde que um rapaz paulistano, autoapelidado Emicida, apareceu afrontando um punhado de dogmas que seus colegas mais velhos acalentaram ao longo das últimas duas décadas. Nascido há 25 anos no Jardim Fontales, na zona norte sul paulistana, Leandro Roque de Oliveira é ambicioso, gosta de fazer sucesso e afirma pensar estrategicamente cada novo passo de sua carreira.

Revelado como improvisador em batalhas de freestyle, pela rapidez de raciocínio e de rima que lhe valeu o codinome de “matador de MCs”, ele costuma aceitar de bom grado convites de impacto midiático, os mesmos que Mano Brown e os Racionais MCs se notabilizaram por recusar. Emicida atiça a intolerância de seus pares a cada vez que desobedece as normas do rap local, topando visitar o programa global de Jô Soares ou gravar rock adolescente com a banda NX Zero. “Traidor do rap” e “rapper de playboy” são acusações que ele já ouviu incontáveis vezes – seria Leandro não apenas “Emicida”, mas também um “rapcida” entranhado no hip hop paulistana?

Entre suas façanhas mais recentes estão ter sido escalado para tocar no festival californiano de rock Coachella (em 15 de abril) e o lançamento de Rua Augusta. A música aborda o cotidiano das prostitutas de calçada, sob um ponto de vista mais próximo delas que de seus potenciais fregueses. O vídeo segue o dia a dia de Rosana, uma prostituta real da Vila Mimosa, no centro do Rio de Janeiro.

“Eu vejo minha mãe e minhas irmãs nessas minas”, afirma Leandro, marido de Carolina e pai de Estela, 1 ano, divergindo da misoginia explícita do gangsta rap e de grupos brasileiros influenciados por aquela vertente. O exemplo, diz, vem de dentro de casa. A avó paterna foi assassinada pelo marido, seu avô, que comprara a futura esposa numa fazenda, quando ela tinha 12 anos. Alcoólatra, o pai de Leandro morreu cedo, como a maioria dos homens da família.

Tolerância e intolerância vivem em constante embate no mundo de Emicida

Evandro, seu irmão caçula, trabalha ao seu lado desde que Leandro virou Emicida e se destacou com as mixtapes Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe (2009) e Emicídio (2010), lançadas por sua produtora/gravadora/fábrica de CDs independentes, Laboratório Fantasma, localizada no bairro de Santana. Cada uma já vendeu cerca de 10 mil exemplares, produzidos e comercializados na base do faça-você-mesmo.

Traumas do passado e circunstâncias do presente fazem de Leandro um rapper que dribla o excesso em sexo, drogas & rock’n’roll, como a Trip verificou ao acompanhá-lo numa noite de show ao lado da banda mato-grossense de rock Macaco Bong, no Studio SP, casa de shows de bandas independentes na rua Augusta. “Não falo de crime, trato mulher com respeito, eu sou evangélico”, ele brinca. “Se não falasse tanto palavrão, ia ser gospel fácil.”

PATRULHA DOS PURISTAS

Na manhã seguinte ao show da madrugada na rua Augusta, Leandro e sua mãe, Jacira, levam a reportagem da Trip para conhecer a casa dela no bairro de Vila Cachoeira, na serra da Cantareira. Com Jacira, acostumou-se a ouvir MPB. Seu pai biológico era DJ de bailes black. E o padrasto, vindo do campo, o ensinou a gostar de moda de viola. Jacira levava os filhos pequenos a cultos evangélicos, menos para rezar e mais para filar refeições em tempos mais duros. Hoje Emicida afirma que absorveu dos sermões dos pastores o poder de persuasão que usaria mais tarde no freestyle. Para desespero dos puristas, Emicida é um rapper que valoriza música sertaneja, MPB, funk carioca e pagode.

Tolerância e intolerância vivem em constante embate no mundo de Emicida. Ora ele é patrulhado pelos puristas do rap, ora processa por discriminação racial um taxista que o chamou de “macaco”. Movimenta-se entre gêneros musicais e religiões. Ora ensaia discurso de respeito às mulheres, ora hesita em topar uma das propostas da Trip para a foto da capa, de vesti-lo numa camiseta com os dizeres: “Algumas pessoas são gays. Acostume-se”. Homossexualidade e homofobia são tabus ainda inexplorados pelo rap, e Leandro não peita a ousadia. “Todo mundo vai ver a foto, mas nem todo mundo vai ler a entrevista”, argumenta. Ainda assim, pede a camiseta de presente no fim do encontro, para, quem sabe, usá-la qualquer dia desses.

(A conversa começa dentro do carro, perto da meia-noite, no caminho entre o Laboratório Fantasma e o Studio SP.)

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