Revista Trip

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Marjorie Estiano

Depois de Malhação e da novela das 8, a atriz tira a roupa e encarna uma prostituta
15.12.2010 | Texto: Bruno Barreto | Fotos: >Autumn Sonnichsen
Marjorie Estiano foi vilã em Malhação, protagonista de novela das oito na Globo e cantora premiada. Mas nunca tinha deixado de lado o ar de garota tímida de Curitiba – até agora. Aos 28 anos, ela encarna uma prostituta para as lentes da Trip em seu primeiro ensaio sensual e ganha texto do cineasta Bruno Barreto em sua homenagem.

"Eu juro que nunca tinha ouvido falar da Marjorie. Certamente porque morei nos Estados Unidos muitos anos – só voltei ao Brasil quatro anos atrás – e porque não tenho o hábito de ver televisão. Por isso, tive aquela sensação tão gostosa, não só para um diretor, mas para o público em geral, de descobrir um grande talento quando fui assistir a Inverno da luz vermelha, a excelente montagem do texto de Adam Rapp dirigida por Monique Gardenberg e Michele Matalon.

No início do espetáculo, achei que ela devia ser uma atriz francesa que estava morando no Brasil, por causa da perfeição com que falava português com sotaque francês; e, ainda por cima, ela cantava em francês.

A Marjorie faz uma prostituta femme fatale que é de Paris, mas está passando um tempo em Amsterdã. Depois, é revelado que a personagem é brasileira – ela engrena um português sem sotaque – e estava apenas fingindo ser francesa, uma virada na trama e na minha cabeça, que seguia a história e ao mesmo tempo tentava desvendar a origem daquela mulher – personagem e atriz – tão fascinante.

No início do segundo ato, uma menina, brejeira e desamparada, toca a campainha de um apartamento. Eu achei que era um novo personagem, uma nova atriz – eu não leio programas de teatro, que, em geral, têm a sinopse da peça. Para minha surpresa, logo em seguida, descubro que a menina também era a Marjorie.

Corta para o saguão da entrada do Teatro Faap, em São Paulo, eu conversando com a Monique sobre a peça, esperando a Marjorie sair, para cumprimentá-la. A Monique me interrompe, acenando com a cabeça em direção a Marjorie, que estava ao meu lado conversando com amigos já fazia algum tempo.

Duas semanas depois, assisti ao filme Malu de bicicleta, de Flavio Tambellini, sabendo que a Marjorie estava no elenco e de novo fiquei na dúvida se a amiga da protagonista era realmente ela.

O Marcello Mastroianni, com quem eu trabalhei em Gabriela, me disse que não entendia por que a maioria dos atores e atrizes estavam sempre tentando se descobrir, encontrar sua identidade; enfim, de alguma maneira resolver a fragmentação de suas existências, já que eles ganham a vida sendo outras pessoas. O Marcello achava que, se o ator/atriz se encontra, a capacidade de atuar fica prejudicada. Que o grande prazer de atuar é exatamente ser um camaleão.

Eu contei essa conversa para minha analista na época, e ela, que tinha duas atrizes como pacientes, teve um estalo: o trabalho na análise de um ator não deve ser de integração, mas de viver em paz com a fragmentação.

Não conheço a Marjorie. Só a encontrei no teatro, depois de ver a peça, e uma outra vez na sede de uma produtora em São Paulo, onde ela ensaiava um episódio da minissérie O amor em quatro atos. Ela não poderia ter sido mais tímida; aliás, como todos os grandes atores e atrizes que eu conheço.

De bicho eu não entendo nada, muito menos de répteis, mas sempre fui fascinado por aqueles pequenos lagartos que vivem em superfícies pedregosas. Eles me dão a impressão de serem extremamente envergonhados, quase pedindo desculpas por existirem. Ao mesmo tempo, tenho a certeza de que eles se divertem muito."

“Rapte-me, camaleoa
Adapte-me ao seu
Ne me quitte pas...”

*Bruno Barreto é diretor de filmes como Dona Flor e seus dois maridos, O que é isso, companheiro? e Última parada 174

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Coordenação geral Adriana Verani e Carla Arakaki Produção Flavia Fraccaroli Estilo Aline Prado e Paulo Troya (Image S.H.E.E.) Assistente de foto Jozzu