Revista Trip

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A arte do palhaço

Fazer rir é uma das artes mais complexas, e poucos a dominam tão bem quanto Cesar Polvilho
17.11.2010 | Texto: Arthur Veríssimo | Fotos: >André Klotz
Pessoas sérias e carrancudas deveriam frequentar espetáculos em que a comédia, o improviso e o humor manifestam-se. Basta acionar nossa memória atávica e resgatar lembranças: o Capitão Gay interpretado pelo Jô Soares, o Pantaleão e o Coalhada pelo mestre Chico Anysio, as impagáveis manobras do Bussunda, os delírios do Ronald Golias, as sacadas do Costinha, as ressacas da Catifunda, as brilhantes histórias do Monty Python, as confusões psicodélicas dos Três Patetas, de Oscarito, de Jim Carrey e tudo aquilo que Chaplin, o Gordo e o Magro e Buster Keaton realizaram.

Sou do tempo do Epaminondas e adepto da gargalhada. Outro dia, num domingão sapeando a TV, fui hipnotizado pelo programa Pânico na TV por um personagem surpreendente: o Ursinho Gente Fina, que seduziu o Brasil. Fui incumbido pela Trip de decifrar Eduardo Sterblitch, “aka” César Polvilho, Freddie Mercury Prateado, Serginho ex-BBB e, ufa, o Ursinho Gente Fina. Nosso encontro aconteceu primeiro em sua casa em Moema, São Paulo, e depois na Rede TV. Carioca, 23 anos, nosso Freddie Mercury Prateado possui um currículo turbinadíssimo: nove anos de aulas particulares de clown, oito anos de curso livre no Teatro Tablado e atividades multifacetadas em peças de teatro infantil e musicais femininos. Desde pequenino ele dublava Daniela Mercury e Mara Maravilha no prédio onde morava. Sempre interpretou personagens femininos. “Gostava de imitar mulheres, até com a minha bisavó de bengalinha eu tirava onda”, conta.

Nossa conversa foi embalada por momentos de muita gargalhada e histórias psicodélicas. Edu jura que parte da sua família veio da Rússia, mais precisamente de Chernobyl, onde ocorreu o maior acidente nuclear da história em 1986. Segundo ele, aquelas terras inclusive pertenceram à sua família. Por causa disso, ganhou o apelido de Chernobyl no colégio onde estudou no Rio. Leitor compulsivo de Beckett, Ionesco, James Joyce e outros clássicos da literatura, Edu mergulhou no humor e hoje faz parte do elenco do Pânico. Basta escutar os mantras e bordões que criou para seus inúmeros personagens: “Emiiiliooo, estou grávido”, “Meus braços doooem”, “Papai fugiu”, “Venha, baiano”, “ALOKA” e “Uh! Lady Gaga”.

Sterblitch está em cartaz toda segunda-feira no teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, com a peça Minhas sinceras desculpas. “Queria terminar nosso papo implorando para todos assistirem”. Recado dado.

Você escutava Queen?
Não, minha mãe ouvia no carro. Mas nunca procurei saber do Freddie Mercury, nem para compor o personagem. Foi meio por acaso. Quem deu o nome foi o Bola, do Pânico. Eu coloquei o bigode, ele riu e disse: “Olha o Freddie Mercury prateado”.

Esperava tanto sucesso?
Não espero nada da minha vida, nunca.

Você se considera um mau ator?
Me considero. Me considero não: sou um péssimo ator! É fato. Péssimo comediante e humorista.

Quais são as suas referências?
São meus mestres Beckett, Ionesco, Joyce, Duchamp... A dramaturgia pós-guerra é a minha preferida. Isso me ferra completamente, eu preferia ler outras coisas. Sou uma mistura de tudo que vi, não sou nem um pouco original.

Você é uma pessoa triste?
Muito triste. E sou feliz por ser triste, a tristeza me dá a concentração.

Mas você fica em estado depressivo?
Muito. Durmo muito pouco.

Uma metamorfose ambulante?
Eu mudo de um dia pro outro. Dou entrevista e depois me arrependo do que eu disse. Mas o ser humano que não muda de opinião é burro. Mudo de opinião toda hora.

Seus personagens têm a ver com essa metamorfose?
Talvez. Na televisão é tudo muito descartável, é cruel. Quando você manda bem num domingo, vai embora e acabou. Vai ter que se virar e fazer outra coisa na semana seguinte. É como fazer a barba. Vai ter que fazer de novo.

Você acompanhou a Sabrina numa experiência no Santo Daime com ayahuasca?
Sabia que você ia perguntar isso... Você tem cara do Santo Daime! Foi a Sabrina que tomou a iniciativa. Eu nem sabia o que era. Cheguei lá com muito medo. Fiquei muito mal, ficou tudo escuro.

Você seguiu os preceitos? Fazer abstinência sexual, não comer carne durante três dias...
Segui. Não fui lá fazer uma piada, mas achei muito ruim. Tudo que me tira a sobriedade me deixa muito mal.

Você tá mais pra careta ou psicodélico?
Meu adjetivo maior é careta. Eu não gosto de viajar muito, eu já viajo muito.

Qual dos seus personagens te agrada mais?
Nenhum. Não acho nenhum personagem meu do caramba.

“Eu beijo homem na boca. Ali eu sou gay.
Eu e o Carioca”

Mas, no caso do Serginho, você superou o personagem original.
É porque eu não sou o cara. Eu peguei um tipo. Foi do acaso.

Tem preconceito com o seu personagem?
Não, nenhum. Eu beijo homem na boca. Ali eu sou gay. Eu e o Carioca.

Mas, às vezes, o Carioca fala: “Nossa, tô ficando de pau duro aqui”...
É uma forma de ele fazer graça, dar uma quebradinha. Pra você também se autoafirmar um pouco, senão você acaba virando veado.

Você aprende muito com o Carioca? Ele é um mestre?
Muito. Com o Carioca, o Bola, o Emílio. Com todo mundo do Pânico.

Dentro da estrutura do Pânico, o Emílio é o maestro?
O Emílio é um conselheiro, mas acima de tudo um grande manipulador. É o amigo e o inimigo, está sempre um passo à frente. Quando ele percebe que o seu personagem está funcionando, logo fala que não vai durar muito.

Da onde veio o Ursinho?
O Emílio viu um vídeo de um programa de televisão inglês que tinha um ursinho, e me mostrou. Um domingo eu cheguei e a poltroninha estava pronta. A primeira vez que eu fiz a voz foi ao vivo, nem o Emílio tinha ouvido ainda.

E quais são os mantras do Ursinho Gente Fina?
O importante no humor é você estar um passo à frente do seu público. Ser previsível demais ou muito imprevisível. Eu desenvolvo o Ursinho ali. Só falo frases e expressões pequenas, porque não tem mais o que ser dito. E falo “Comam Danone”, ou “Hoje eu comprei um pote”. Um pote de quê? “Não sei, um pote.” Coisas que as pessoas não estão acostumadas a ouvir. Não tem uma linha de raciocínio lógico. É sem lógica, sem querer fazer uma piada. Você opta pelo mais simples...

Você já levou patada?
A gente tinha uma brincadeira ridícula de pedir autógrafo para as celebridades com uma caneta que dava choque. Um dia uma atriz tomou o choque e ficou muito chateada. E eu não soube o que fazer. Fiquei no cantinho, olhando tristinho. E foi pro ar assim. Três matérias depois encontramos ela de novo. Eu peguei uma violeta que tinha num canteiro perto e dei pra ela, pedindo perdão. E a gente fez as pazes. E foi tudo pro ar. É importante cair. Eu acho que o público não gosta de quem é fodão.

“Eu juro por Deus. A terra onde é Chernobyl era da minha família”

CQC é fodão?
CQC
é fodão. Todo mundo ali é fodão. E o mais engraçado do CQC é quando algum deles se fode. O público quer ver você se ferrar. Chaplin é isso. Keaton é isso.

Mudando de assunto, quais são suas origens?
A minha bisavó era russa e judia. Ela tem uma história... O pai dela era dono de Chernobyl Eu vou fazer um filme lá sobre a minha bisavó. E vou ganhar um Oscar.

O Pânico sabe disso?
Não. Uma vez eu contei na minha aula de história, e a professora riu de mim, falou que eu era mentiroso. Fiquei com fama de Chernobyl no colégio.

Tô acreditando agora.
O governo russo não aceitava que um burguês tivesse mais dinheiro que o Estado. E a terra dele valia muito dinheiro. Então prenderam ele e tomaram suas terras. Minha bisavó me contava isso. Ela tinha 18 anos, fez um fundo falso num trem e viajou embaixo dele, na Segunda Guerra Mundial, da Rússia até longe pra caralho. E foi a pé da Suécia até a França. Ela foi ainda a primeira mulher que vendeu cinta-liga no Brasil.

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