Imagem: Nelson Mello
Você já deveria imaginar. O camelo aí da foto é arisco, antipático, avesso a muito papo. De uns tempos pra cá, vive longe dos companheiros de grupo. Tem uma barba respeitável, adora cenoura, batata-doce e fica incomodado quando atrapalham suas refeições. Guga, o camelo. O outro Camelo, Marcelo, fala pelos cotovelos, de forma gentil e sotaque carregado. Aparou a barba, tem 1,90 m de altura, calça 44, adora suco de melão com fruta-do-conde (sem açúcar), do BB Lanches no Rio, e PF de R$ 7 da vizinhança às quatro da manhã. Tem miopia e astigmatismo, e mora com Soninho e Albano, seus gatos vira-latas. Rói as unhas. Fica perturbado com barulhos, se sente perseguido por reformas, anúncios de voz em aeroporto e pessoas que falam alto em aviões. Por isso uma de suas melhores compras foi um fone de isolamento acústico usado para treinamento de tiro.
Durante dois dias, primeiro em seu apartamento em São Paulo e depois durante uma tarde no zoológico de Brasília, Trip esteve ao lado do compositor gravado por gente como Maria Rita e Ivete Sangalo, o criador de um dos maiores hits dos últimos anos, a música “Anna Julia”, e que virou alvo da legião de fãs do Los Hermanos, talvez os mais fervorosos exemplares deles no país desde o Legião Urbana de Renato Russo. Mais que fãs, eles são seguidores fiéis, que, de quatro anos pra cá, têm de se contentar com os velhos discos, vídeos no YouTube ou reencontros esporádicos como o último, que aconteceu em 2009 por ocasião de um convite para abrir o show da banda Radiohead. Ou mais dois deles que, revela em primeira mão, acontecerão no segundo semestre deste ano.
Afastado por tempo indeterminado da banda com a qual fez fama, Marcelo Camelo se prepara para lançar seu segundo disco solo, ainda sem nome até o fechamento destas Páginas Negras. Páginas, aliás, para as quais ele arriscou a vida ao lado do colega de sobrenome, o Guga, de quem levou uma mordiscada no braço durante a sessão de fotos da capa. Sem grandes danos. Não foi desta vez que acabamos com a maior esperança da música brasileira atual.
Cores e amores
Marcelo Camelo mudou de habitat. Por amor a uma paulistana, largou o Rio de Janeiro, onde nasceu em 4 de fevereiro de 1978, e está de cidade nova. O apartamento na zona oeste de São Paulo não lembra seu último refúgio, um apê no Alto Leblon, onde se isolou para compor o disco Sou. É mais barulhento. A rua tampouco lembra a vizinhança onde cresceu, no bairro de Jacarepaguá.
Filho de um dono de botequim e de uma artista plástica naïf, ele cresceu em um lar amoroso. “Lá em casa é todo mundo bom de abraço.” Talvez venha daí a pitada de romantismo que contaminou o repertório do então adolescente cabeludo, que adorava as bandas Weezer, Pearl Jam e Bon Jovi e os grupos de rock do underground carioca nos anos 90, para então criar um estilo com traços menos raivosos e texturas suaves de bambas do samba.
As paredes da casa da cidade nova são coloridas por desenhos, inúmeros. Quem chega ganha tinta e giz pra deixar tudo mais pulsante, como o álbum que está no forno. Nem a repórter escapou. O lugar tem ainda luzinhas coloridas, como as de árvore de Natal, e enfeites simples, como em um cenário de Michel Gondry.
Imagem: Arquivo pessoal
O banho do pequeno Camelo
O rabisco mais frequente é o rosto da namorada, Mallu Magalhães. Ela está na sala, atrás da porta da cozinha, sobre o móvel. Está também nas próprias marcas que deixou na cozinha, no batente das portas, no quarto. Está em porta-retratos (Marcelo é bom fotógrafo) e no fundo de tela do iPhone. No início do namoro, Mallu tinha 16 anos, metade da idade dele. Desse romance cheio de diferenças e completudes os fãs lucraram duetos e declarações de amor musicais como a da música “Janta”, composta por ele para o álbum Sou. No momento, é ele quem participa da turnê do segundo álbum da moça.
De uma hora para outra, ele transitou de jovem compositor mais disputado da MPB a alvo de concorridas imagens para revistas de celebridade, atraídas pelo chamariz fácil da diferença de idade. Sobre o assunto, ele se diz magoado: “Quando você se apaixona, se apaixona. O radical da palavra paixão é o mesmo de passividade. Quando acontece, tu fica meio passivo. Nosso encontro foi algo muito especial”.
No banheiro, um retrato de sua musicista preferida, Guiomar Novaes, ao lado do espelho, onde agora ele apara a barba. “Os cientistas todos têm barba. É uma parada que avisa que você não está nesta vida de brincadeira.”O olhar de Marcelo é quase como o de um cientista. O tipo que, ao observar o céu, aprende mais sobre o telescópio do que sobre a área observada. Duvida de tudo, é guiado pela teoria da Maybe Logic, de Robert Anton Wilson, e pelo amor que tem pra dar.
Além de assuntos cabeçudos como astrofísica, números primos ou os Crop Circles, Marcelo é viciado em Big Brother Brasil e adora Claudinho & Buchecha. Tentando distrair-se de si mesmo, ele diminuiu a barba e está diferente. Então, cuidado, se você acha que sabe tudo sobre o cara ali da foto, duvide, isso pode não ser um Camelo.
“O Los Hermanos só devería voltar para um disco novo, não ficar nessa de coisas velhas”
Está gostando de São Paulo? Imagem: Arquivo pessoal Brinca com os irmãos Imagem: Arquivo pessoal Estuda violão na sala de casa
Estou. Me surpreendi com a calma do paulistano, a “boa-pracice”. É como se o Rio tivesse um subtexto da malandragem. Quando chego lá agora, tenho que chavear a cabeça pra um modo meio marrento, senão você é maltratado o tempo inteiro. No táxi, você tem que chegar pro cara e falar: “Vou pra Copa, mermão” [risos]. Tem que ter uma afirmação. Aqui a gente acaba um ensaio, termina a conversa e os meninos da banda ficam lá sentados, na maior calma [risos]. Acho superestranho. Eu sou de Jacarepaguá, que tá no coração do Rio. É a malandragem.
De que você sente mais falta do Rio?
Do Rio [risos]. Sinto falta da praia, do sol, da umidade, dos amigos, e do BB Lanches. Em Copacabana dá pra ir ao boteco às três e meia da manhã. “Fala aí, João, beleza? Como é que tá o PF?” “Pô, hoje tá meio ruim, cara. Mas o feijão tá legal.” Copacabana é um bairro da tolerância. Um dia estava botando unha de porcelana no salão, todo barbudão, aí entra uma menina assim com um garotão francês...
Espera aí! Você disse que estava colocando unha de porcelana?
É que eu roo muito a unha e precisava deixar ela crescer. É melhor que tomar Opinol. Já tentei pimenta, mas dá uma viciadinha.
Na turnê do Sou eu não podia roer a unha porque tocava muito violão. Quando acabou, eu roí de propósito pra evitar o violão porque queria um disco de guitarra, que é esse novo.
Ele é mais pesado?
A ideia é que seja mais pulsante.
Você parece muito feliz, radiante.
Eu sempre fui.
Na época do Sou, seu primeiro CD pós-Los Hermanos, você também estava?
É, na época do Sou eu tava um pouco mais introspectivo, isolado em um apartamento silencioso no Alto Leblon para compor.
Com qual frequência você fala com o pessoal do Los Hermanos?
De vez em quando. Vamos fazer dois shows no segundo semestre, dois shows fechados. Um em Recife e um em Salvador. E eu tô adorando. Pô, sinto mó saudade deles, outro dia fiquei vendo uns vídeos nossos em casa.
Sente falta dos amigos ou da banda?
Dos amigos, das músicas que a gente fez, de fazer música junto, do nosso repertório, da nossa relação pessoal, da nossa viagem, da equipe que a gente formou. Eu tenho saudade de quem eu sou quando estou com eles.
Quão perto vocês estão de uma volta?
Sinto que só deveríamos voltar pra fazer um disco novo, com repertório novo, pra não ficar nessa coisa de só tocar coisas velhas. Mas por enquanto cada um está com seu trabalho solo, criando coisas novas. O Rodrigo tem uma frase interessante que é: “Tempo a gente tem o quanto a gente dá”. Estamos dando um tempo para outras coisas.
Vocês se falam sobre os trabalhos individuais?
Eu toquei com o Barba no Canastra, mas ainda não vi o Bruno na Adriana Calcanhoto. Mas acompanho o blog dele. Com o ruivo [Rodrigo Amarante] falo mais, sou o maior fanzão do Little Joy. Fui ao show no Circo Voador e tudo.
O que você sentiu quando o viu tocar fora do Brasil, outra língua, um público virgem?
Todo sentimento é ambíguo. Eu poderia ter inveja, mas troco essa parada pela admiração. Vontade de tocar com gringo eu não tenho, porque tenho uma coisa com o português da qual não consigo me livrar. Mas o público virgem seria legal pra caramba. O Rodrigo foi lá, se misturou e se estabeleceu como parte da cultura americana que reverbera na cultura mundial. Para isso é preciso talento, coragem, coração grande que nem o dele.
Como você entende o fanatismo dos fãs do Los Hermanos?
Acho que a banda é boa [risos]. Eu acho que a banda é realmente muito boa.
Mas você acha que tem alguma relação com o cenário musical brasileiro, com a falta de ídolos?
Não, fizemos parte de um movimento de transformação da música. Cresci nos anos 90 ouvindo Raimundos. Fazia fanzine, acompanhava essa cena das bandas de fitas demo, principalmente as bandas do Rio, Poindexter, Cabeçudos. Aí veio o Acabou La Tequila, que foi uma transformação na minha cabeça. Ouvi uma música do Kassin, “É o fim”, “é o fim, tudo que havia se acabou...” [cantarola]. Uma música romântica. Fui ao show e vi que eles tocavam carimbó, do Pinduca. O Kassin tocando guitarra era absurdo. Nesse show tive essa sensação de ampliar.
Até uns 19 anos, eu gostava só de rock. Aí passei a acompanhar a cena alternativa e a ouvir samba. E isso tomou conta da minha vida dos 20 até hoje. Quase só ouço isso aí.
Isso aí o quê? Coisas antigas?
Eu não tenho essa relação com o tempo. Ouço de Dilermando Reis a Guiomar Novaes, pra mim ela é de hoje, de amanhã, de ontem. Eu gosto de música eterna. O que é muito contemporâneo fica atrasado rápido. Meu disco preferido é o último gravado em vida pela Guiomar, que é uma pianista brasileira de música clássica. Ela gravou só com repertório brasileiro, talvez por isso seja o meu preferido, com melodias brasileiras, sinuosas.
Antes você disse que acompanhava tudo, que fazia fanzine. Como você consome música hoje?
Eu não vou mais a shows como antes. Eu acompanho pela internet, ouço quase tudo que tem por aí. Entro em fórum de pessoas que comentam música americana contemporânea, vou em blog como o dos irmãos Mesquita, o blog do Guaciara.
Você é internauta?
Bastante. Vou lá no site do TED do YouTube e fico vendo palestras, documentários.
De música?
A música é 1% do meu campo de interesse.
O que ocupa uma parte grande do seu campo de interesse?
Astrofísica, por exemplo.
Eu estudei um pouco de astrofísica...
Não acredito, cara. Tá acompanhando o Grande Colisor de Hádrons? Espera aí, para a entrevista, vamos falar um pouco sobre isso, porque esse assunto é mais importante [interrompe, comenta sobre cientistas, pesquisas, mostra referências e imagens no iPhone].
Você se considera um nerd?
Não, mas acho que me interesso por assuntos que pega mal me interessar. Eu começo a falar sobre os sumérios ou o Grande Colisor de Hádrons com meus amigos e eles falam: “Não me vem com porra de sumérios a essa hora”.





















