Um dia, numa festa, um sujeito se vira para Daniel Filho e diz com despeito:
“Mas você faz sucesso, hein? Como você gosta de sucesso!”
Daniel, sem jeito, só consegue responder com um velho bordão:
“Você vê as cachaças que eu bebo, mas não os tombos que eu levo.”
A história está em Antes que me esqueçam, livro de memórias que Daniel lançou em 1988. O capítulo termina assim: “Levei vários tombos, na medida em que fui sempre arriscando, porque não existe um jeito de andar para a frente, ou mexer com a criatividade, sem o risco de errar, ou de se sair mais ou menos, o que já configura um fracasso.”
É estranho ouvir a apologia do erro vinda de um homem sempre associado a palavras como poder, sucesso, recorde, perfeccionismo. De alguém que era chamado de “Deus”, com ironia ou inveja, nos corredores da Rede Globo nas décadas de 70 e 80. E que ficaria conhecido como o rei da bilheteria do cinema nacional, alcunha não muito mais modesta, nos anos 2000.
Mas é dele mesmo que vem essa ode à imperfeição: “É o erro que mais te ensina”, reafirma Daniel. Ele pode até se gabar dos 6 milhões de espectadores que conseguiu com Se eu fosse você 2, maior público da retomada do cinema brasileiro. Mas gasta mais tempo lamentando que seu filme anterior, Tempos de paz, não tenha conseguido 60 mil espectadores a mais.
Ele fala com orgulho dos êxitos que emplacou na Globo, como Irmãos coragem, Dancin’ days e Malu Mulher. Mas dedica um afeto especial a fracassos de público como O Casarão, Espelho mágico, O bofe. “Na TV meu lema era: melhor errar rápido do que acertar devagar.”
Daniel fez graduação completa na escola do equívoco, do improviso. Nascido no Méier carioca em 1937, filho de um cantor catalão e de uma bailarina acrobática, João Carlos Daniel estreou como ator aos 7 anos no circo da família; depois foi para o teatro de revista; e daí para a TV Tupi, no tempo da televisão ao vivo.
Nos anos 70, enquanto o regime militar endurecia, Daniel Filho foi parar na Globo e ajudou a transformar a emissora carioca no maior império televisivo do hemisfério sul, ao lado de nomes como Boni, Walter Clark e Joe Wallach. A ele, coube um papel essencial: tornar a telenovela um fenômeno de audiência, um formato hegemônico e um produto de exportação.
"Quando decidi fazer um filme sobre Chico Xavier, comecei a chorar sem ter a sensação de choro"
Missão cumprida, Daniel escalou a hierarquia global: de diretor a produtor de novela, a diretor da central de criação, a diretor-geral da rede. No caminho, transou, namorou ou casou com algumas das mulheres mais desejadas do país – Dorinha Duval, Betty Faria, Regina Duarte e muitas outras –, usou os mais variados tipos de drogas, colecionou desafetos.
Imagem: Arquivo pessoal
Em Nova York com a então namorada Regina Duarte, na época do Malu mulher
Em 1990, no auge de seu poder, tomou uma decisão que raras pessoas têm coragem de tomar na TV brasileira: pedir demissão de um cargo de chefia na Globo. “Havia um restaurante do lado da emissora. Eu disse várias várias vezes para alguns colegas: preferia ser sócio desse restaurante do que estar nessa posição. Aquilo eu poderia chamar de meu. Na Globo eu não tinha 1% de nada”.
Depois de alguns anos de baixa, quando a maioria já o considerava carta fora do mercado, Daniel se reinventou como homem de cinema e conseguiu outro feito em sua carreira. Das dez maiores bilheterias do cinema brasileiro dos últimos anos, seis foram dirigidas, produzidas e/ou supervisionadas por ele: Se eu fosse você 1 e 2, 2 Filhos de Francisco, Carandiru, Cidade de Deus e Cazuza. Na parede da Lereby, sua produtora instalada em um condomínio da Barra da Tijuca, onde ele recebeu a Trip, Daniel aponta para uma parede onde ficam os cartazes de seus filmes. Não há nada de sua época na TV. A razão? “Os filmes são meus.”
Aos 72 anos, ainda hiperativo e sem planos de aposentadoria, de namoro novo com a cantora Olivia Byington, Daniel prepara um novo projeto para chamar de seu – e mais outro e mais outro. No dia 2 de abril, estreia Chico Xavier, sobre a vida do líder espírita que completaria 100 anos nessa data e que tem potencial para se tornar mais um campeão de bilheteria. Enquanto finaliza o filme, ele coordena o roteiro de Roque Santeiro, adaptação para o cinema da novela de Dias Gomes, e planeja sua volta à TV Globo após um hiato de dez anos com a série As Cariocas – desta vez, produzida por sua Lereby em esquema terceirizado. Por fora, negocia com duas editoras a realização de sua biografia, a ser escrita por Marcel Souto Maior, biógrafo de Chico Xavier.
Perguntado sobre a razão de seu sucesso na TV e no cinema, ele tem uma frase pronta: “Eu corro atrás do sucesso como quem corre atrás de um prato de comida. Eu persigo sempre o sucesso. Minha natureza é essa”. Mas, questionado se gostaria de voltar atrás em algum fracasso, ele admite novamente sua estranha queda pelo erro: “Não, nunca. Eu estava aprendendo a ser o que sou. E o que sou também é resultado das minhas escorregadas”.
Você diz ser ateu. Por que decidiu fazer um filme sobre um líder espírita?
É uma história que não pode ser rejeitada. O Chico Xavier não era só um líder espiritual. Ele é um dos brasileiros mais famosos de todos os tempos e tem uma vida realmente inatacável. Mas as pessoas não conhecem bem sua história. Muitas ainda confundem espiritualidade com curandeirismo. O Chico nunca operou ninguém nem curou ninguém. Ele psicografava livros e cartas de espíritos para pessoas vivas e elas reconheciam aquelas cartas. Ele passou por vários testes que tentavam desmascarar o charlatanismo e nunca ninguém conseguiu. Eu acho que as pessoas precisam discutir isso que se chama espiritualidade. Eu tenho a curiosidade de procurar respostas para coisas que não têm explicação e que eu não consigo atribuir a uma santidade. Não que o filme vá explicar as coisas, eu apenas conto a história do Chico. Eu queria ser só o produtor, mas eu não consegui encontrar nenhum diretor. Um dos que convidei tinha medo. Não da história, mas dos espíritos mesmo.
Ao longo do processo do filme, você passou por alguma situação que te fez rever seu ateísmo?
Eu continuo ateu. Mas houve uma coisa estranha... No dia que decidi dirigir o filme e contei para minha esposa na época, comecei a chorar sem ter a sensação de choro... As lágrimas rolaram dos meus olhos sem eu saber que estavam rolando. Eu não sentia aquela emoção que normalmente a gente sente quando chora. No cinema, eu choro muito. Eu prendo, tento segurar, mas quando a coisa sai é aquele vexame, aquela catarse. Só que, daquela vez, eu continuava falando da mesma forma que estou falando com você. E a minha mulher: “Daniel, está acontecendo alguma coisa?”. E eu: “Não, nada”. Tem outra coisa que aconteceu na filmagem. É uma coisa da vibração de qualquer ser humano, que altera o ambiente. Todo mundo que lida com a história do Chico acaba entrando numa sintonia de paz, falando baixinho. Eu senti isso na filmagem e tentei passar isso no filme. O que eu gostaria, quando acabasse o filme, é que as pessoas dissessem para elas mesmas: “Eu posso ser menos intransigente, ser mais carinhoso, eu posso ver o mundo de uma outra maneira...”. Depois de ter atravessado a vida de Chico Xavier, acho que estou tentando ser uma pessoa melhor.
Na prática o que isso significa?
Eu procuro ficar mais calmo, procuro me aporrinhar menos por coisas que antes me aporrinhavam muito.
"Eu traguei muito, fumei muito, cheirei o que era necessário na época"
Você tinha fama de esquentado... Com Herval Rossano (à esq.), Daniel Filho dirige cena de Carinhoso, que Lauro Cesar Muniz escreveu especialmente para Regina Duarte, em 1973
Não é uma questão de ficar mais ou menos agressivo. Não é uma mudança total, é uma sintonia fina. Nas coisas do dia a dia às vezes eu me chateio mais do que deveria. Por exemplo, outro dia fiquei perdido na ponte aérea... aquela em que o voo das quatro e meia sai às sete e você fica uma hora esperando no avião. Apesar de estar possesso, eu pensei: “Calma, poderia ser pior. Olha quanta gente está aqui dentro com você, você não é o único a estar neste avião”. Se eu estou com o Chico na cabeça, isso altera a minha maneira de falar, fico mais tranquilo. Mas isso não quer dizer que deixei de ser mais ou menos exigente, principalmente com o meu trabalho. Eu continuo perfeccionista.
No Chico Xavier, você recriou um programa chamado Pinga Fogo, da TV Tupi, que foi onde você começou na televisão. O que você aprendeu dessa época da TV ao vivo?
Ah, se você voltar para a TV ao vivo, ou mesmo antes para o circo e o teatro de revista, isso é a base de tudo. A gente põe no sangue uma serragem que não dá para aprender na escola. Eu estava lá no momento da criação da TV, fazendo um veículo do zero. Para o bem e para o mal, eu participei da criação dessa máquina de fazer doido. Nasci em 1937, então sou uma pessoa da época do rádio. Quando as pessoas começaram a ver televisão no Brasil, lá por volta de 1955, eu já tinha 18 anos. Então eu não sou criado pela televisão. Eu faço parte da turma que criou a televisão. Quando a gente se encontra, eu, Laura Cardoso, Hebe Camargo, Maurício Sherman, é sempre um papo de velho. Eu fiz uns 400 programas ao vivo, decorando 150, 200 páginas por semana, por cinco ou seis anos. Mas não era só uma questão de ser ao vivo ou não. O problema é que não existia linguagem de TV. Ainda não sabia se era rádio, se era teatro, era cinema. A gente estava inventando enquanto fazia.
Eu estava lendo seu livro de memórias ontem e você fala do entra e sai de mulheres no seu apartamento na Avenida Bartolomeu Mitre, no Leblon, que você dividia com o Hugo Carvana e o Miéle, nos anos 60. No caminho pra cá, eu passei por acaso por essa rua e o predinho continua lá. Era mesmo aquela loucura que você descreve?
Ah, sim. Quando surgiu a pílula, a gente juntou a fome com a vontade de comer. As coisas só acalmaram com a Aids. A gente viveu um período em que todos estávamos muito felizes. As meninas também... Quem estava dentro do armário começou a sair de dentro. Havia algo no ar. Eu falo para os meus filhos: o mundo era muito bom. Foi uma época de grande prazer para quem soube aproveitar e não ficou preso às convenções religiosas. Não tinha compromisso, era uma abertura geral. Foi uma revolução sexual em todos os sentidos. Ainda mais para nós do teatro, que já convivíamos com isso de uma forma muito mais agradável e natural do que a sociedade toda.
Era boa, era boa. Mas era geográfica. Tem um filme do (ator italiano Alberto) Sordi, Contos de Verão, em que o personagem fica atrás de uma mulher o tempo todo. Uma hora vira um amigo dele e pergunta: “Você acha que essa mulher fantástica vai dar pra você?” E ele responde: “Toda mulher tem um minuto na vida em que ela diz ‘Eu dou pra qualquer um’. O jeito é você estar lá na hora” [risos]. Então, eu tive essa facilidade geográfica. Era estar presente, estar por perto. Isso não me torna melhor do que ninguém, né?
Mas ajuda na fama...
É verdade. As mulheres eram famosas. Eram mais bonitas porque viviam disso. Mas não eram mulheres melhores por causa disso. Na verdade, eu posso ter perdido mulheres muito interessantes porque eu era muito apressado, muito afobado, quando era jovem. É o que acontece nessa coisa afoita da vida.
Na correria do trabalho?
Não. Na competição sexual. E o que pode ter acontecido, e tenho a certeza de que aconteceu, é que pessoas ótimas passaram perto de mim, junto de mim, e eu não as vi. Então, a gente estava falando da época da revolução sexual. Eu acho que muitas pessoas se perderam nessa época. Agora as coisas estão mais comedidas. Não é problema da idade. Mas todo mundo quer viver com mais tranquilidade, as pessoas têm se olhado um pouco mais do que nos olhávamos nos anos 60, 70. Antes a gente conhecia e opa! Valeu! Eu poderia ter namorado mais, conversado um pouco mais, ter tomado um copo de vinho.
Seus relacionamentos hoje são melhores do que naquela época?
São diferentes, são totalmente diferentes. Hoje eu sou um homem de 72 anos. Eu era um garoto de 20 anos.
Mais passional?
Fui passional, erótico, várias coisas... Logicamente, eu era uma pessoa muito mais ativa, mais ligada. Os hormônios estourando. Tem uma história que papai me contava quando eu era menino. Que o caçador jovem sai cheio de munição, dando tiro para tudo que é lado, bang, bang, bang! É uma loucura! Mais velho, você dá só um tiro. E, mesmo assim, tem que chegar bem perto. Estou nessa fase.





















