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Bastardos Gloriosos

Documentário resgata e discute o legado da cena de hardcore dos anos 90 em São Paulo
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12.11.2009 | Texto por Márcio Cruz Fotos Francesco I. Coppola

Imagem: Francesco I. Coppola

Cash for Caos

Cash for Caos

Fim da década de 80. O Brasil vivia a ressaca das primeiras eleições diretas para presidente após 20 anos de ditadura, seguidas do Plano Collor, que quebrou muita gente. Diferente dos dias de hoje, em que o encontro de amantes de hardcore, emocore, sambistas e metaleiros na rua Augusta, centro de São Paulo, é algo banal, naqueles anos as coisas estavam mais inflamada, e embates de gangues de estilos musicais diferentes podiam causar a morte. É o que conta o documentário Hardcore 90 – Uma história oral, do historiador paulista Marcelo Fonseca, 36 anos, que recria a evolução do hardcore e seus subgêneros na Grande São Paulo, a partir dos entrevistados.

O filme deve ser finalizado em 2011 e, na busca do que aconteceu na época, ouve pessoas que atuaram na cena, como músicos, fãs ou ativistas, em uma narrativa documental. Enquanto o filme não fica pronto, o diretor e o cinegrafista Fernando Alves disponibilizam trechos das 37 entrevistas já realizadas (são 100 previstas) no blog http://hardcore-memoria.blogspot.com. Ali estão depoimentos tão distintos como o de Cesar Lost, ex-skatista profissional e ex-baixista do Againe, banda de hardcore melódico famosa na época; de Janaína Veneziani, ativista straight edge (vertente pacifista do hardcore) que ajudou a divulgar o vegetarianismo; e de fãs que trilharam por outros estilos musicais, como o sambista Kiko Dinucci e o músico Guilherme Granado. “O hardcore vem envolto na fala de alguns de uma maneira muito romântica e com saudosismo.”, diz o diretor, na época vocalista da banda Constrito.

Imagem: Francesco I. Coppola

Kangaroos in Tilt

Kangaroos in Tilt

O punk dos anos 80, na Grande São Paulo, ficou marcado, em parte, por gangues de carecas, skinheads e outros, que tomaram emprestada a estética original do movimento para cometer crimes de intolerância. No entanto, a partir dos anos 90, o hardcore se reorganizava em um novo ambiente, em shows menores e longe dos confrontos. Grupos como os anarcopunks e a Juventude Libertária passaram a promover eventos de caráter pacifista, unindo a filosofia anarquista do russo Mikhail Bakunin, o vegetarianismo e o repúdio à intolerância de inspiração neonazista. “Era briga direto. [Então] eu comecei a curtir um pico que antes se chamava Hëllish e depois virou o Der Temple. Eram uns caras que não tinham nada a ver com briga”, relembra Alexandre Kalota, um dos entrevistados. Mais tarde, o próprio Kalota, como muitos outros adolescentes fãs de bandas do gênero, se tornaria adepto do vegetarianismo e da filosofia straight edge.

Skate e anarcopunk
Ao mesmo tempo, o hardcore melódico acompanhava o desenvolvimento do skate nas ruas. Era no intervalo entre “ollies” e “180s” que muitos tinham acesso a gravações caseiras em fitas cassete. Em uma época pré-internet, os fãs sabiam das novidades por fanzines feitos à mão e distribuídos nos shows. Em meados da década de 90, enquanto bandas como No Violence e Self Conviction eram fortalecidas pelo straight edge, outras como Execradores, Metropolixo e Abuso Sonoro lideravam movimentos de vocação política anarcopunk.

Ao conciliar diferentes pontos de vista, o projeto realça o êxito do punk e do hardcore em São Paulo, estilos que, ainda hoje, reverberam na cena musical da cidade com lastro na cultura do “faça você mesmo”.

O músico e produtor Daniel Ganjaman, 31, é outro remanescente. Na época, Ganjaman formava suas primeiras bandas ao lado de seus irmãos, Maurício Takara (Hurtmold) e Fernando Sanchez (CPM 22). “Foi um momento de formação muito importante”, reflete o músico, hoje no coletivo Instituto. Mas é no discurso dos personagens mais obscuros, até agora maioria dos entrevistados do documentário, que Fonseca acha inspiração para continuar as filmagens, mesmo sem patrocínio. “Faço para mim mesmo, por minha satisfação e por essas pessoas.”

Quebrou o pau

Convidamos a maior conhecedora de hardcore da Trip Editora para falar um pouco de suas memórias

Imagem: Francesco I. Coppola

Fúria nos anos 1990: White Frogs em São Paulo

Fúria nos anos 1990: White Frogs em São Paulo

Por Carol Meirelles*

O pau fechava na Galeria do Rock, no centro de São Paulo. Era um tal de um botar o dedo na cara do outro que vou te contar. Quando os carecas esperavam na porta do show, então, aí a coisa ficava feia mesmo. No meio disso, comecei a frequentar shows, adolescente. Era o começo dos anos 90. Straight edgers faziam festivais numa casa no Jabaquara, enchendo a cabeça da molecada com palestras entre os shows. A ideia era bacana, e muita gente parou de comer carne, mas o discurso era meio chato, eu queria ver os shows não ouvir lição de moral. Mas dessa galera saiu muito som bom, como o do Self Conviction ou o do Constrito. Enfim, hardcore, straight edge, carecas... uma guerra de egos.

Fim de semana corrido
No começo dos anos 90, Tube Screamers e Againe saíram na frente na preferência da rapaziada, mas também estavam estourando o Kangaroos in Tilt e o More Beer, no caminho aberto pelos pioneiros Ratos de Porão.

Imagem: Arquivo Pessoal / Questions

flyers que, junto com os fanzines, circulavam pelo correio ou de mão em mão

Flyers que, junto com os fanzines, circulavam pelo correio ou de mão em mão

Os lançamentos eram limitados, coisa de 500 CDs, e os shows ferviam em casas como a Der Temple ou a Black Jack, que começou só com metal, mas nas matinês de domingo abriu espaço para o hardcore. Na esteira dessas, outras casas apareceram como Dama Shock, Aeroanta e a Casa de Cultura do Butantã. Confesso que os fins de semana eram corridos, pequenos com tanto lugar pra ir.

E a cena não era só em São Paulo, não. Havia boas bandas em outros picos, como Safari Hamburguers (Santos), Pinheads (Curitiba), Dead Fish (Vitória), Dread Full (BH) e os cariocas do Barneys e do Rivets. Era toda uma turma que não tinha van, que às vezes botava o pé na estrada de ônibus mesmo. São quilos de histórias, como a dos meninos da banda Dance of Days, que alugaram uma Kombi pra tocar em Goiânia e na volta o motor quebrou no meio do nada. O que salvou foi uma gambiarra feita com um cordão de tênis. Improviso bem ao estilo hardcore.

Vinil 7 polegadas
Outro tentáculo eram as gravadoras, responsáveis por alguns marcos. Lembro quando em 1993 a Cogumelo lançou um compacto vinil de 7 polegadas do Safari, que bombou. Ou então a famosa Roadrunner, que apostou no Garage Fuzz (Santos) e no Killing Chainsaw (Piracicaba). Tinha ainda a independente F Records, que soltou a coletânea Girls just wanna have punk. Falando em girls, até o meio dos 90, hardcore era coisa de menino. Aí apareceram as meninas do Dominatrix, mostrando que eram mais do que só as namoradas dos caras. O som era bom e hoje as casa estão cheias de “mosheiras” na pista.

*Carol Meirelles é produtora-executiva do núcleo de revistas customizadas da Trip Editora e frequentadora da cena hardcore e metal há mais de 15 anos

Veja no site da Tpm vídeo das “mosheiras”: http://revistatpm.uol.com.br/tv-tpm/ao-vivo-do-mosh.html

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