No canto esquerdo, Rodrigo Pimentel, apontado como o verdadeiro Capitão Nascimento de Tropa de Elite, 12 anos de polícia, sete no Bope. No canto direito, Luiz Alberto Mendes, mais de 31 anos de cadeia, dois homicídios e dezenas de roubos. Juntos pela primeira vez, falam de polícia e ladrão, honestidade e corrupção, tortura e covardia, ódio e família, droga e política
Rodrigo Pimentel é o outro lado de Luiz Alberto Mendes, Luiz Alberto Mendes é o outro lado de Rodrigo Pimentel.
Pimentel, 38 anos, cresceu na zona sul carioca.
Mendes, 57 anos, é da Vila Maria, periferia de São Paulo.
Filho de militar e dona de casa, o único da sua turma de garotos da Urca que queria ser policial.
Apanhava do pai alcoólatra, enquanto a mãe fazia bicos para colocar algum dinheiro em casa.
“Desde os 10 anos falava nisso”, lembra. Dito e feito. Não apenas entrou para a polícia militar, como virou capitão do Bope, o controverso Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro.
Vários moleques da sua área viraram bandidos, mas ele foi um dos poucos a sobreviver. Fugiu de casa aos 11 anos. Passou por reformatórios, até ter idade suficiente para prisão de gente grande.
Isso, aquela unidade de elite em que, durante os treinamentos, os soldados cantam coisas como “Homem de preto/ qual é sua missão?/ É invadir favela/ e deixar corpo no chão”.
Aos 19, foi condenado por homicídio e roubo. Só saiu da cadeia 31 anos e dez meses depois – fora o intervalo de duas fugas que, somadas, não chegam a quatro meses longe das grades.
Nada como um dia após o outro dia. Essas duas trajetórias, opostas e complementares, sofreram reviravoltas recentes. Em 2001, Pimentel pediu para sair: desistiu da polícia e fez pós-graduação em sociologia, na Uerj. Três anos depois, Mendes terminou de cumprir sua pena e foi solto. Um e outro, coincidência, escreveram livros sobre o que viram e viveram. Situações, pessoas e acontecimentos que não ficam para trás. Você sai da polícia ou da cadeia, mas a polícia e a cadeia não saem de você.
Mendes publicou Memórias de um sobrevivente, Às cegas e Tesão e prazer. Ao todo, mais de mil páginas com as histórias de um homem que, em suas palavras, viu o tempo passar “dando trombadas nos muros da vida”.
Pimentel escreveu Elite da tropa, ao lado de Luiz Eduardo Soares e André Batista, a partir das anotações que fez entre uma invasão à favela e outra.
Os livros renderam convites para dar palestras, ministrar oficinas literárias em presídios (“Quem me vê trabalhar na cadeia não sabe o sacrifício que é para mim voltar lá”) e escrever uma coluna aqui na Trip.
O livro virou filme, Tropa de elite. E ele, corroteirista da adaptação, desde então é confundido com o Capitão Nascimento – personagem de ficção criado a partir de vários personagens reais, inclusive o próprio autor.
Mais do que isso, deram a chance de “ter minhas coisas trabalhando” e de ser “valorizado pela primeira vez”. Hoje, separado e pai de dois filhos, tenta colocar de pé a montagem de sua primeira peça de teatro.
Antes, havia coproduzido Ônibus 174, documentário sobre o sequestro que foi transmitido ao vivo pela TV, em 2000. Hoje, casado e com dois filhos, tem uma empresa de consultoria em segurança – e também trabalha no argumento de Tropa de elite 2, que começa a ser filmado no início do ano que vem.
Polícia e ladrão, certo e errado, bem e mal. As coisas são mais complicadas que isso. Em um quarto de hotel na orla carioca, com vista para a praia de Ipanema e para a favela do Vidigal, Pimentel e Mendes destrincham o lado A e o lado B da violência no Brasil.
Arquivo Pessoal Mendes na infãncia, fotografado em estúdio
É mais difícil ser honesto na cadeia ou fora dela?
Mendes: Na cadeia é muito mais fácil ser honesto. Não tem tanta tentação. E tem outra, a cadeia exige honestidade. Qualquer roubo ali recebe a pena fatal. Se não for assim, não existe possibilidade de convivência. Já pensou, todo mundo roubando todo mundo? Tem que ter regras.
É mais difícil ser honesto na polícia ou fora dela?
Pimentel: É difícil ser honesto na polícia. Existe uma conspiração para corrupção. Fui abordado em todos os departamentos em que trabalhei, menos no Bope.
Como acontece?
Pimentel: O colega chega e diz que todo mês “vem um dinheirinho” do tráfico, das vans ilegais ou dos caça-níqueis. Se você trancar sua gaveta, enfiam a grana no seu armário. Eu tinha que dar esporro geral pra não entrar nessa, tipo “se aparecer dinheiro pra mim vou prender alguém”. Mas também não atrapalhava o negócio da pessoa: seria só eu nessa luta, ia virar maluco.
Qual a origem dessa “conspiração para corrupção”?
Pimentel: O argumento deles é inteligente: “Tu não vai pegar o dinheiro do bicho, não? O governador pega, os caras que mandam na gente pegam e a gente, que ganha mal, não vai pegar?!”. Não sei se o governador pega, tudo indica que pega. A política do Rio sempre foi promíscua.
Pimentel: “Não sei se o governador pega [dinheiro de corrupção], mas tudo indica que pega. A política do Rio sempre foi promíscua”
Sempre?
Pimentel: Não afirmo que o governador atual pega, mas digo que, historicamente, no Rio as ligações de políticos com a contravenção sempre foram muito próximas. O deputado do partido do governador [o PMDB] e ex-chefe de polícia Álvaro Lins foi preso pela Polícia Federal [ano passado, acusado de envolvimento com a máfia dos caça-níqueis]. Ou seja, um deputado que subia no palanque com o governador pra fazer campanha. Tenho certeza de que o governador não estava no esquema, mas é do partido dele. O mesmo partido de líderes milicianos como o Jerominho [Guimarães], que também está preso.
Como resistir ao argumento?
Pimentel: Você fica tentado. Por que não vou pegar essa porra desse dinheiro? O bicheiro quer dar, existe uma organização no Estado que pega e você não pega? Eu não pego porque minha formação não é essa, acredito em algo diferente. Acredito que essa porra um dia vai mudar.
Arquivo Pessoal Pimentel aos 4 anos em Ponta Porã (MS)
Por que você virou policial?
Pimentel: Era um sonho de infância, falava em ser policial desde os 10 anos, e aquilo persistiu. Todo mundo já pensou em ser policial.
Você pensou, Mendes?
Mendes: Quando era criança tinha essa ideia.
Você poderia ter virado policial?
Mendes: Olha. Você não imagina como é complexa pra mim esta situação aqui. Apanhei de polícia desde que tinha 10 anos. Os caras me bateram e me bateram bastante, desde pequeno.
Ainda é desconfortável pra você estar aqui, ao lado de um policial?
Mendes: É. E é uma coisa que eu quero inclusive quebrar.
Pimentel, você poderia ter sido bandido?
Pimentel: Se morasse numa favela, acho que seria traficante. Na minha juventude, buscava me autoafirmar. Aí, pra ser uma pessoa respeitada pelo grupo, só sendo evangélico ou traficante. Hoje tem outra alternativa, em projetos sociais como os da Mangueira. Lá o garoto faz esporte, vai competir em Curitiba, conta pros amigos que andou de avião, veste um abrigo da Nike. Isso dá orgulho. A chance de esse menino ser seduzido pelo narcotráfico é zero.
As armas não atraem a molecada?
Pimentel: Tem uma fascinação. Já se escreveu sobre a atração que as mulheres das favelas sentem por quem anda armado. É mínima a chance de uma menina bonitinha gostar de um cara que não é do tráfico.
Tipo “minha AK-47 é maior que a sua”?
Pimentel: É AK-47, cordão de ouro, celular, tênis de mola. Se chegar na favela sem tênis de mola, você é um prego. A atração do jovem pelo crime é indissociável do consumismo.
Mendes: Em São Paulo, o negócio é moto. Se não tiver motinho a menina não sai com o cara.
Quando você viu uma arma pela primeira vez?
Pimentel: Meu pai é militar, tinha uma pistola em casa. Foi a primeira que vi.
Mendes: Tinha uns 9 anos e vi uma arma na vitrine de uma loja, dessas que vendem joias, relojoaria, essas coisas. Achei muito bacana aquele negócio brilhando, uma arminha tipo automática. Peguei sem ninguém ver e saí correndo.
Mendes: “É complexa pra mim esta situação [a entrevista ao lado de um policial]. Apanhei de polícia desde os 10 anos. Os caras me bateram e me bateram bastante”
Foi seu primeiro roubo?
Mendes: Um dos primeiros. Quando fui ver direito, a arma era um isqueiro [risos]. Mas tudo bem, porque os moleques ficaram me achando o bambambã. Quando minha mãe encontrou, me obrigou a devolver. Fui lá, morrendo de vergonha, com ela me puxando pela mão.
Você escreveu que sua mãe foi a pessoa mais honesta que você conheceu.
Mendes: Ela nunca pegou nem um tostão que eu tivesse roubado, sempre chorou muito por mim. Minha mãe era uma pobre coitada, tinha um medo terrível do meu pai. Ela dizia “tenho 50% de culpa de você estar preso, devia ter pegado você e ido embora viver nossa vida”.
Arquivo Pessoal Mendes (à frente) aos 16 anos com amigos do Instituto para Menores de Mogi Mirim, todos mortos pela polícia antes da maioridade
Se sua mãe tinha 50% de culpa e seu pai 50%, você nunca teve culpa de nada?
Mendes: Porra, a culpa era muito mais minha! Aprendi que, se você culpa os outros, não tem como resolver nada. À medida que você assume sua culpa, tem condições de perceber onde errou.
Como você virou bandido?
Mendes: Você não vira bandido. Quando vê, tá numa situação em que a polícia tá atirando em você. Meu pai era alcoólatra, chegava em casa me batendo, espancando. Minha mãe também corria dele. A gente naquela pobreza. Aí, aos 11 anos, fugi de casa e fui pro centro de São Paulo. A situação ruim lá em casa me deu coragem. Achava que aqueles moleques, os primeiros meninos de rua da cidade, eram livres. Lá em casa não tinha liberdade nenhuma.
Como era a vida na rua?
Mendes: A gente vivia correndo. Correndo da polícia, do juizado de menores, das vítimas dos nossos assaltos. Roubava carteira, fazia arrombamentos, quebrava vidraças. Era mais vândalo do que criminoso. Não queria ficar rico, queria comer. E, depois de comer, queria curtir, me divertir.
Em Memórias de um sobrevivente, você diz que tinha “alguma coisa de errado” com você.
Mendes: Ainda tem [risos]. Não sei o quê. Hoje consigo viver com um padrão legal, pagando de honestidade. Mas sempre quis crescer, ser maior do que era. O sentimento era que eu não cabia na vida que tinha, que meu corpo era pequeno.
Ser malandro era uma maneira de se afirmar?
Mendes: Era, dava orgulho ser malandro, ser bandido. A gente dividia o mundo entre otário e malandro. Com os otários podia fazer tudo, mas com os malandros não podia vacilar. Quando fui preso, já matei o primeiro que mexeu comigo.
Como foi?
Mendes: Eu era molequinho, o menor da prisão. Como cresci na rua, sem comer nem dormir direito, não me desenvolvi. Fui ter barba com 30 anos de idade, não tinha pelo nenhum no corpo. Os caras me viam como se eu fosse uma moça.
O outro preso queria te comer?
Mendes: É. Tive que matar pra sobreviver como homem. Não tenho orgulho nenhum disso. Se fosse hoje, pedia para mudar de pavilhão, dava um jeito. Mas naquele tempo queria criar um nome, né, meu? Foi no Carandiru. Era um puta negão com dois estupros no prontuário. O cara falou “vem cá, vamos conversar”. Ele entrou num xadrez, eu marquei de entrar atrás. Passaram o ferrolho e fiquei sozinho com o cara dentro da cela. Lutamos por uma hora e meia lá dentro.
Uma hora e meia?
Mendes: É. Eu tava com uma faca improvisada, feita com um pedaço de ferro. Eu sabia que ele tava atrás de mim, então só andava armado. Quando veio pra cima, a faca entrou na barriga dele que nem manteiga, um negócio mole, esquisito. Foi mortal. Mas ele não parava, me chutava, me dava soco. Depois foi cansando. Aí, subi nele. Dei 47 facadas. Inclusive, fui absolvido do crime em si. Fui condenado pelo excesso de golpes.
Sentiu medo?
Mendes: Porra, medo?! Matei o cara de medo, meu! Medo total.
Você estava preso por homicídio, né?
Mendes: É. Foi num assalto a um posto de gasolina. O vigilante chegou armado e atirou na gente. Mas éramos quatro. O cara morreu com 22 tiros. A intenção não era matar, era derrubar o cara para ele não acertar a gente.



































