Revista Trip

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Só as cachorras

Mr. Catra une tudo aquilo que define a cultura brasileira: "A única cola é o funk"
09.06.2009 | Texto: Ronaldo Bressane e Kátia Lessa | Fotos: >Marcelo Naddeo

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Sexo, crime e religião: sobre estes três pilares o funkeiro de 40 anos construiu uma obra original, onde cabem James Brown, Chacrinha, Velho Testamento, Comando Vermelho, gospel, punk, hard rock, partido alto, funk Miami Bass, hip hop, soul e até bossa nova. Isso, fora as cachorras... Criado em família de classe média alta da Tijuca, adotado pelo morro do Borel e convertido ao judaísmo em Jerusalém, pai de 18 filhos e casado com cinco mulheres (até o encerramento desta edição), Mr. Catra une em sua figura o namoro entre sincretismo e esculhambação, modernidade e arcaísmo que definem a cultura brasileira: “Vivemos em uma sociedade partida. A única cola é o funk!”

    “Vai começar a putariaaaaa!” Assim abre o terceiro show de Mr. Catra na noite. É sábado, são 4h30 e estamos na Nação Tan Tan, extremo da ZL paulistana, confluência de Guarulhos, Guaianazes e São Matheus. Três mil cachorros e cachorras urram à risada rouca e ritmada de Catra, sustentada pelo batidão de DJ Sandrinho: “Eu vou te comer em pé/ Rã rã rã rã rã rã/ Gatinha assim você me assusta/ Com o seu capô de fusca/ Eu não sou sapo/ mas me amarro em perereca/ Rã rã rã rã rã rã”.

    Pouco antes dessa anunciação, Mr. Catra havia invocado a presença de Deus, citando seu hit gangsta-gospel “O retorno de Jedi”: “O Senhor é o meu Pastor/ e nada me faltará”. E é em nome do Altíssimo que o Negão louva o fim do show, pedindo ao público palmas ao Senhor. O recheio desse sanduíche divino é a mais pura avacalhação machista, temperada com picardia homofóbica, pancadões avassaladores e tempero com fumacê de deixar careta o D2. A platéia delira, rebola e gargalha. Nas coxias, porém, MC Alan e Silvinha, dois filhos de Catra, tentam conter o bocejo. O resto do bonde – o fabuloso DJ Sandrinho, o técnico de som, os seguranças, a produtora Sabrina e uma das mulheres de Catra, Raiane – não disfarça o cansaço: a balada tinha começado 12 horas atrás.

    E é sempre desse jeito. Rebobine, por favor: durante o segundo show de Catra, na Viva Brasil, em Santo André, a 20 km dali, o empresário Pigmeu explica que o barato é rápido e a vida é loka. “Aqui em São Paulo são 3, 4 shows por noite. No Rio, chegam a sete. Já fizemos 18 shows no mesmo dia, do meio-dia às seis da manhã. Todo dia, de segunda a segunda”. Pra levantar, dá-lhe uísque, energético e fumaça. De charutão e de cigarro de artista. Para seguir o bonde de Mr. Catra pelas avenidas da ZL – três carros motores 1.8 ultrapassando 35 faróis vermelhos, 17 radares, dois comandos da PM e dois quase acidentes – , a reportagem praticamente se guia pelo cheiro. Os velozes e furiosos negãomóveis fazem média de 100 km/h, com picos de 130 km/h. Tudo para chegar a tempo nos shows.

    Que não duram mais que meia hora. A voz arregaçada de Catra manda sete funks por apresentação. Neste do Viva Brasil, para quase mil pessoas, Catra bacoleja a platéia com seu hit atual, “Adultério”. É a perversão de “Tédio”, sucesso de Biquíni Cavadão – a mais coxinha das bandas dos anos 80. A saga de um filho de mamãe que não tira o pijama e lê o jornal de ontem “porque pra mim tanto faz” vira ode à canalhice de um tiozão casado: “Sabe esses dias que você acorda de ressaca/ sua roupa tá cheia de lama e a cachorra tá na cama/ é o dia que a orgia tomou conta de mim/ .../ Na 4 x 4 a gente zoa / bota energético e mulher boa/ O bagulho tá sério / vai rolar um adultério”.

    Nesses shows, o funkeiro que surgiu nos 90 com nervosos proibidões – hits que remetem à ilegalidade, citando chefes e facções do tráfico e procedimentos do crime organizado, como o uso do “microondas” (pilha de pneus queimados onde se mata um informante) – está mais suave, mais love. Mas não menos perverso. Clássicos da MPB são subvertidos sem dó. Covers não são novidade na música brasileira – Erasmo Carlos e Carlos Imperial inauguraram o expediente na Jovem Guarda ao adaptar hits do rock ao iê-iê-iê, base onipresente na cultura pancadão carioca. Agora, o feitiço voltou contra o feiticeiro: um dos sucessos é a macumbeira perversão de “Se você pensa”, do Rei Roberto (“Se você pensa que vai fazer de mim/ O que faz com todo mundo que te ama”), transmutado em “Bonequinho de Voodoo”: “Se você pensa que vai fazer voodoo pra mim/ espetando os bonequinho cheio de lama”...

    Enquanto as periguetes paulistanas vão descendo até o chão, Tom Jobim se revira na tumba ao ouvir “Vou te ensinar/ E você vai aprender/ Como é que faz para o meu boneco crescer”, a “Wave” catralizada. Kiko Zambianchi choraria ao ouvir seu refrão “Se um dia eu pudesse ver/ meu passado inteiro” transformado em “Se o meu pau não parar de crescer/ vai passar do joelho”. Quando não manda cover, Catra solta o vozeirão rachado sobre Tim Maia (“Vou pedir pra você voltar”), Cassiano (“Na rua, na praia, na fazenda”) e Bob Marley (“Is this love?”) – esta última, a senha para emendar com “Cadê o isqueiro”, sua clássica ode à maconha.

É a única menção a algo ilegal nessa balada. Catra pega mais pesado é na perifa carioca, onde detona proibidões tipo “Beira-Mar falou”, que detalha embates entre as facções Comando Vermelho e Amigos dos Amigos (arrematando no verso “Uê se fudeu” – Uê é o traficante que ousou encarar o CV de Fernandinho Beira-Mar e foi morto em Bangu 1, em 2002. Sua sepultura, no Cemitério do Caju, é atração turística no Rio).

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Do asfalto ao morro

    A essa altura, o leitor desprevenido se perguntará que diabo é isso. Mr. Catra é personagem que só poderia mesmo surgir no Brasil de Macunaíma – mais precisamente, na Tijuca de Tim Maia. Wagner Domingues Costa nasceu no Morro do Borel, favela da Tijuca, zona norte carioca, mas foi criado na casa em que trabalhava a mãe Dona Elza, no Alto da Boa Vista, rua Dr. Catrambi – daí Catra. O patrão, o corretor de ações Edgard Luiz Pinaud, primo do secretário de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, se adotou o Catrinha, lhe possibilitando uma formação de elite. Na adolescência, líder do grêmio estudantil do tradicional colégio Pedro II, o politizado Wagner desbravou o morro do Borel – e tomou contato com lideranças do Comando Vermelho. Sinistro, compadre, é outra palavra pra esquerdista.

Educado no asfalto, o garoto subiu o morro atrás de lições de realidade, samba e funk. Começou a tocar violão na banda O Beco, de MPB. Aprendeu bateria e, já rebatizado como Negativo, formou o grupo de rock soul Os Apóstolos – que fez “turnê” de um ano pelas casas de prostituição da Vila Mimosa. Ao mesmo tempo, Negativo freqüentava aulas de boxe tailandês, assistia a jogos do Flamengo, ia a bailes funk e sacava, ao ouvir Public Enemy, que o funk seria terreno fértil para mixar malandragem e política. Em 1997, já Mr. Catra, lançou o Bonde dos Justos pela Zâmbia Records, mesmo selo dos Racionais MCs. Na contracapa, Catra e Mano Brown seguram uma bíblia – batizando a conexão funk/rap/Jesus. São dessa época funks como “Vida na cadeia”.

O chamado de Deus converteu a ovelha. Em 1999, Catra foi tocar em Jerusalém e, no Muro das Lamentações, teve uma epifania. A antropóloga carioca Mylene Mizrahi conta sua conversão: “‘O que me transformou foi o que senti no Muro’”, me disse. Mr. Catra afirma que a sua religião é a de um ‘povo que passou por vários holocaustos’ e que no Rio acontecem holocaustos diários. Sua fascinação pela Terra Prometida parece se relacionar tanto à tradição religiosa como ao moderno Estado de Israel, país cuja fundação foi feita em bases socialistas, regidas por ideologia igualitária, e que, de acordo com o que vivenciou Mr. Catra, não exclui nem oprime como nas cidades brasileiras” [“Funk, religião e ironia no mundo de Mr. Catra”, revista Religião & Sociedade, dez. 2007].

    De volta, Catra gravou pela Warner seu primeiro álbum como astro de primeira grandeza do funk. Ali as pontas são unidas: aparecem hits safados e também hinos ao Senhor e às facções criminais como em “O fiel”: “Minha facção é o bonde de Deus/ já fui ladrão e conheço o breu/ .../ Minha facção claro que é o CV/ .../ se ajoelhou, mano, vai ter que orar / humilde e sinistro na representação / partido PCC a minha facção/ eu estou ligeiro sempre atento e esperto / se ajoelhar, tem que fechar com o certo”. No documentário Mr. Catra The faithful (2004), do dinamarquês Andreas Johnsen, nunca exibido comercialmente no Brasil (mas na feira do Acari é um sucesso), Mr. Catra revelaria que o fato de ter se tornado hebreu o livrou de matar o assassino de um irmão – perdeu dois para o crime.

O judeu negro é uma contradição em termos. Sua figura casa a expressão artística moderna mais tipicamente brasileira, o funk, à cartilha arcaica que glorifica o polígamo provedor, um canalha que exalta o sexo sem fronteiras – desde que todas as cachorras estejam salomonicamente em seu nome. Sua voz baixa, rouca e profunda é um buraco negro que tritura funk Miami Bass, soul carioca, refrões de samba-enredo e hinos evangélicos: a coisa mais parecida com isso só pode ser rock’n’roll.

No entanto, essa presença punk é nuançada pela fé no judaísmo ortodoxo, e não raro Mr. Catra entoa mantras funks que fundem profecia e putaria – e daí nascem canções impossíveis de serem concebidas em qualquer cultura que não a brasileira, como “Chazit Hanoar”, em que, sobre o beat inferno tocado ao vivo pelo DJ Sandrinho, que mixa tamborzões minimalistas e toques do MSN ao groove de Kraftwerk, ele loa o Senhor em hebraico: “Atem tzrichim leavin/ zarich latet kavod / Bishvil lekabel kavod / Daber she zé anachnu / Baruch atah adonay /Eloym achi chashuv / Ichié baruch Yerushalaim / O bonde mais sinistro/ É Jerusa e Nazaré/ Jerusalém / A melhor noite que tem/ Rebolando com as mina/ Começaram a se esfregar/ Chegaram perto de mim/ Me pedindo neshiká”.

 

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Volta tudo

    Apertando de novo a tecla REW, estamos no primeiro show da noite. Mr. Catra está aparentemente apagado no camarim do Vila Inês, balada do Mandaqui. Noite fraca – no local, nem 100 pessoas, a maioria adolescentes. “Se a gente não tivesse fechado cachê, estava perdido”, conta Pigmeu. É de R$ 6 mil o ganho por show, chegando a atingir os dois dígitos se for no subúrbio carioca, em que mais de dez mil pessoas se jogam. Não tem problema: no camarim, Mr. Catra derruba uísque com energético, passa o cigarro de cravo para o filho e entra no palco sob fumaça.

    Mr. Catra se apresenta no figurino pimp – camiseta e calças folgadas, boné dourado, apologia ao sexo e à ganja. A pequena audiência não pôde testemunhar “Cachorro”, hit que o indispôs com a PM do Rio – a corporação o processou por apologia ao crime (“Se quer ganhar um dindim/ Vende o X-9 pra mim/ Entrega esse canalha/ .../ Vou comer esse verme na bala/ .../ Deixa ele bem amarrado/ Pega o dinheiro e rala”). E sequer se esboça “Vacilão” (“Vacilão não morre de velho não/ O processo é longo, o barato é louco e o bagulho é sério”), considerado por especialistas como Silvio Essinger e Hermano Vianna a magnum opus do funk carioca.

    O momento é de faturar, e aí a sex machine da Tijuca recebe no palco a raposinha Rubi. Enquanto a popozuda simula um boquete, Catra aponta seu quadril de 100 centímetros e ensina: “Seu bumbum é uma arte/ e eu sou um artista/ Bumbum não se pede / bumbum se conquista”. À saída, Rubi diz à reportagem que nunca teve nada com Mr. Catra. É casada com um segurança. “É tudo fantasia, brincadeira. Considero ele como um pai”. De fato, ninguém o chama por Mr. Catra – ou é “Negão” ou “pai”. “Meus filhos, vamos terminar do jeito certo, do jeito que tem que ser: O senhor é meu pastor / e nada me faltará”, encerra o show o funkeiro, pedindo palmas a Deus.

 

    Uma da manhã, parece cansado ao deixar o palco. Procura por seu carro meio desorientado – está menos para sex machine que para operário patrão. Nem parece o cara que há alguns meses ganhou oito páginas na Rolling Stone japonesa ou que logo mais lança álbuns em Dubai, Marselha e Amsterdã. Por enquanto, é só um funkeiro com mais dois shows pela frente. Entre idas e vindas, vai ter que percorrer uns 100 quilômetros. De manhã, volta para o Rio de Janeiro. E é ele mesmo quem dirige.

    Antes disso, porém, a noite começava num hotel do centro de São Paulo. Mr. Catra não tinha dormido a noite anterior. Entre um cochilo, uma gargalhada e uma fumaça, o cara que mais trabalha no showbiz brasileiro falou duas horas à Trip:

Você nunca dorme?
Durmo dois turnos, das 6 às 10 e das seis às dez. Eu vim guiando do Rio e não dormi, por isso que tô zuado assim. É que nesse horário nunca acontece porra nenhuma em lugar nenhum do mundo [Catra tira a camisa, deixando à mostra o cordão de estrelas-de-Davi encadeadas ao medalhão de ouro com o Leão de Judá, se estica na cama e enfia-se debaixo do cobertor.]

Não dorme não, pô.
Quantos shows você faz por dia? Depende do bom humor do Pigmeu [o empresário]. Geralmente uns quatro na noite. De segunda a segunda. Ultimamente tem tido 7 por dia, de fim de semana. E uma vez rolou de eu fazer 18 shows no mesmo dia, das duas da tarde até as cinco da manhã.

Desde quando você tá nessa?
Desde 1997. Show direto todo dia, de 2004 pra cá...

E CD?
Você está no epicentro da pirataria, não ganha nada com CD. Daqui a pouco fica velho, não vai conseguir fazer show e não vai tirar ganho com direito autoral... Como fica? Vou te dizer uma coisa, parceiro. Eu acredito na natureza como religião e na evolução como movimento. Nós não somos seres humanos com experiências espirituais, somos seres espirituais com experiências humanas. James Brown cantou até os 83 anos, tá ligado?

Você acha que vai chegar lá?
Eu sou imortal, cara, acredito nisso.

Acha que tem uma alma velha ou já viveu outras vidas?
Não acredito em outra vida não, sempre fui o Mr. Catra.

Antes de você ser o Mr. Catra, como as pessoas te chamavam?
Eu era o Negativo.

Alguém ainda te chama de Wagner?
Só minhas mulheres... quando estão bravas comigo.

Fez faculdade?
Direito, dois anos.

Por que direito?
Porque sou um imbecil [risos].

Já era músico na época?
Tocava guitarra, né... Não, bateria.

Achei que fosse guitarra, ouvi uma história que você vendeu uma guitarra roubada...
Isso foi uma merda fudida [risos]. Comprei uma guitarra que ia sair menos de R$ 1180. Aí na hora de vender descobriram que era produto roubado. Como é que eu ia saber, instrumento não tem chassis... Aí tive que assinar, né.

Assinou mais alguma coisa assim?
Só zzzzzzzz [afunda a cabeça no travesseiro e cochila].

Acorda, Catra!
Assinei uma cestinha basiquinha por causa de um baseadinho. De lei, né, delito normal.

Como é ter sido adotado por uma família de classe média daí ser adotado pelo Borel?

É isso, fio, eu nunca passei necessidade. Tudo o que eu sonhava, meu pai me dava.

Você foi adotado com quantos anos?
Do berço. Minha mãe [Elza Costa] saiu do hospital e já me deu pro meu pai adotivo [Edgard Pinaud],  que já tinha criado a minha mãe biológica.

Mas como foi teu encontro com o pessoal do Borel?
Roubaram meu casaco da Disneylândia, pô. Roubaram meu casaco... Deu uma dor isso... [Catra se levanta da cama, pega um chocolate, faz uma cara de tristeza compungida. Daí, cai na gargalhada]. Era do Mickey, aquele amarelo das antigas! Nervoso. Porra, fiquei puto! Aí, subi o morro pra ir atrás do casaco.

E você ia pra Disney desde molequinho?
Eu estudei no Batistas, no Colégio São José, no Pedro II. Só colégio de burguês, e eu era o neguinho.

O único negro da classe? Teve alguma história de racismo contigo?
Só existe isso quando você é duro, parceiro. Não existe dinheiro sem poder e poder sem dinheiro. Se tu tá duro, vai ter discriminação contigo,  se tu tá com dinheiro, você é o cara. Eu não quero saber quem pintou a zebra, só me dá a lata de tinta que eu quero me disfarçar. A única que vez que rolou discriminação comigo foi porque minha mulher é japonesa e o pai dela veio com uma onda pra cima de mim. Mas isso daí já passou. Eu não bato boca, não discuto nem nada.

Você não é um cara de brigar?
Sou diplomata. Prefiro usar o intelecto.

O que é que te deixa bolado?
Paparazzo. O Orkut me deixa puto da vida. É uma fanfarronagem fudida, 24 horas de fanfarronagem e você acaba tomando no Orkut. Pô, pelo amor de Deus, eu não tenho nem computador, ainda uso máquina de escrever!

É mesmo, você nem navega?
Navegar onde, rapá? Nem no Tietê nem com barquinho de papel, quanto mais em Orkut. E paparazzo é foda: você tá no teu cantinho, vira e mexe naquela situação que de vez em quando rola não só no hotel, na cama, rola em vários lugares, numa situação desprivilegiada, vão tirar a foto da tua bunda... tu vai gostar do bagulho?

Assédio dos fãs te incomoda?
Imagina, não sou nada sem Deus e meus fãs. Podem tudo, só não pode dançar homem com homem nem mulher com mulher. Quer dizer, mulher com mulher pode, porque pra mim mulher de bom gosto é lésbica [ri e deita na cama de novo. Tira o relógio e o cordão. Acende um cigarro de cravo].

Mas voltando à Tijuca... você se diz hebreu. Mas seus pais adotivos e os seus pais biológicos não eram católicos?
Era uma confusão doida. Todo mundo era católico, mas tinha uns tios sírios.

Pra ser judeu tem que nascer de ventre judeu...
Pra ser judeu sim, mas pra ser hebreu basta nascer. Adão era hebreu, acabou! Até os 30 eu questionava o cristianismo – por que um cara tão maravilhoso como Jesus iria promover tanto massacre pelo mundo? Como uma instituição feita por um cara tão maneiro ia deixar essa herança de anti-semitismo?

Mas você segue uns dogmas da Igreja, transa sem camisinha...
Você quer que te diga a legal, de coração? Transar com camisinha é pecado.  Não é amor, é sacanagem. Se você vai transar de camisinha, não quer compromisso com porra nenhuma. Toda mulher na minha vida pode ser o que ela quiser, só depende dela: eu não escolho, sou escolhido. Você pode amar três, quatro mulheres ao mesmo tempo, com a mesma intensidade. Já a mulher pode gozar por dez na tua mão, cara. Quando tu bota a camisinha, já sabe que é sacanagem. E quer que diga a legal? É mais fácil se fuder transando de camisinha do que sem camisinha. De camisinha, você tá sem a bênção divina. Não tem camisinha mais forte do que o poder de Deus. Se você acredita, não pega nada.

Forçou, hein? Nunca vai pegar doença se tiver fé?
Se tiver fé, parceiro, você só pega chato! [Muda de assunto e apresenta uma garota que chega no quarto. Abre um refrigerante] Olha, essa aí é a Rubinha! Ela é a minha Cinderela: depois da meia-noite, se transforma no Rubens.

Prazer... Ela é a nova Mulher-Filé?
Minha raposinha! A Rubi não é dançarina, é um personagem. A raposa é aquela que traz a galinha e engole os pintos. Gosta mais de mulher do que você e eu juntos [risos]. Tem que ver que brincadeira gostosa. Mulheres são todas bonitas, sempre cheirosas... sapatão é um negócio que não existe.

Não existe?
É Saci Pererê, Mula sem Cabeça, Cuca e Sapatão. Porra, pelo amor de Deus, vai me enganar? Pára!

Então mulher escolhe mulher por falta de opção?
Mulher é um bicho que já nasce viadinha [risos]. Senta com a amiga: “Ai, teu peito tá bonito”. Imagina um cara sentar com o outro: “Meu irmão, teu saco tá maneiro”. [risos]. Elas ficam em “Ai, lindo o corte da tua perereca”, e a gente “Cara, muito foda, tu deu uma aparada aí nos bagos, bacana hein parceiro?” [Gargalhadas] Elas ficam nessas, tomam banho junto, e pá, coisa e tal, dali pra, ih... já é, fio, tá ligado, né?

Queria perguntar outra coisa...
Quer falar o quê, fia? De religião de novo? Eu aqui querendo falar de sexo e você falando de religião [risos]. Mas tá tudo certo, sexo e religião é tudo a mesma coisa.

Não, era de política [risos]. Você se considera autoritário ou democrático?
100% autoritário [risos], democracia é muito esquisito. Se eu fosse ser político, seria monarquista. Mas prefiro mesmo é ser rei. Ser primeiro-ministro deve dar um monte de dor de cabeça: “Que é que há, vai falar com o primeiro ministro, sou o rei, porra, me deixa em paz”.

Você já pensou em entrar pra política: você, o MV Bill e o Celso Athayde iam fundar um partido [o Partido Popular Poder para a Maioria]... E agora?
Porra, irmão, sei que tenho meu dever político, mas prefiro ficar de fora por enquanto. Eu não voto.

O que você acha do Lula?

Nosso presidente é um pouco conivente com as coisas. Mas é difícil pra ele também, porque é lógico que a gente tem que ser corrupto, o molde da nossa sociedade é corrupta. Nossos moldes são romanos, a corrupção veio de Cesar, “até tu, Brutus?” [risos], tá ligado? Mas ele tá colocando a mão onde alcança.

O funk tem uma ligação forte com o tráfico. Você já teve problema em tratar desse assunto nas suas músicas [em 2002 foi indiciado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro por apologia ao crime devido à letra de "Cachorro", que fala de policiais corruptos]...
Meus filhos, o funk tem problemas com todo mundo. O funk é um problema gostoso [risos]. Puta que pariu, que bagulho gostoso! Que batida no mundo faz as mulheres dançarem igual? Bate na virilha das danadas e reflete na nossa, um pouco mais atrasado porque a gente só se mexe depois que elas rebolam, pode reparar.

Homem tá sempre atrasado.
É que nossa aerodinâmica é diferente, a gente é peludo, anda mais devagar, a aerodinâmica delas pra deslizar é mais fácil. Por isso eu falo: o leão não caça, só come o que vem na boca.

Você nunca vai atrás de mulher?
Nunca!

Tuas letras não têm duplo sentido. Elas querem dizer aquilo mesmo: não é uma visão meio pobre do sexo?
Sabe o que acontece? As pessoas tratam sexo como sacanagem. Tem que tratar o sexo como amante. Com alegria, com humor, tá ligado?

Você já sofreu por amor?
Sofreu? Eu sofro por amor. Quem tem uma mulher sofre, imagina [risos].

Já chorou por alguma mulher?
Muito! Choro debaixo do chuveiro. Ainda bem que o chuveiro é elétrico, qualquer coisa tiro ele da tomada.

Você se considera um romântico?
Totalmente. Sabe o que seria legal? Viveria bem melhor no Oriente. As orientais têm outra mentalidade. São mais família.  E são ser melhores negociantes, pensam mais na estrutura. Não têm ciúme. Uma vez escutei de um mulher em Israel: “Ciúme é coisa de pobre” [ri, abre outro chocolate]. É uma mulher que pensa igual a mim. Ela disse que uma mulher que pensava igual a ela era a outra mulher do marido dela. Ela a considera sua irmã porque é mãe do filho do marido, que vem a ser irmão do filho dela.

Mulheres já brigaram por você?
Porra. Já quebraram carro, destruíram van, casa, fizeram o cacete.

Mas você é um puta cara feio, Catra...
É isso que fico impressionado [risos]. Não é possível que uma mulher queira uma coisa preta dessas suando em cima dela. Que é isso? Que coisa escrota, cara! Quando tu acaba, te olha no espelho, todo suadão, e ela te olhando com aquela cara feliz achando que você é a coisa mais linda do mundo... você fala: “Puta que o pariu! Deve tá de gozação!”. Por isso que mulher não precisa orar.

Como é que é sua ligação com o hip-hop, você é bem amigo do Mano Brown, né?
Sou sim. A gente fez show junto em Vitória essa semana.

Já com o DJ Marlboro você é meio tretado...
Ele faz um funk e eu faço outro, são propostas totalmente diferentes.

Ele é contra o proibidão...
Ele tem que parar de hipocrisia! Será que ele vai ter que ser mais um que vou ter que mandar parar de caô? Meu bagulho agora é a campanha Chega de Caô! [Levanta-se, exaltado.] O que é proibidão pra ele? O proibidão é um relato do dia-a-dia! Quem é ele pra julgar a arte? Não interessa qual é a arte, se é proibidão ou se não é. Quem não gosta do som do Marlboro acha o som dele funk sertanejo. Se ainda fosse um Zezé de Camargo, mas é um sertanejo ruim, nem o Zezé de Camargo escuta [risos], sabe aqueles funk ruins que nem eu escuto?

E você continua cantando proibidão, nunca parou?
Eu não canto proibidão, canto funk relato, funk consciente. [Acende outro cigarro.] Sabe o que é proibidão? É jogar criança pela janela. É o filho que você tem com a amante fora do casamento, teu próprio sangue, ser chamado de bastardo. Proibidão é você não se responsabilizar por toda mulher que tu come. Porra, o bagulho é bem louco... a gente vive numa cultura criada por um imperador chamado Constantino, que montou a barraca em Roma, na festa de Pedro e de Paulo, em nome de Jesus. Vou te dizer como é que foi a balada: Constantino deu a festa, mas o aniversário era de Jesus, sendo que os produtores eram Pedro e Paulo [ri, deita-se].

Como você chegou nessa análise religiosa da realidade?
Quando fui para Israel e vi que o homem era bem mais inteligente há quinhentos anos antes de Cristo. Eu tinha 30 anos. Aí percebi que minha concepção de certo e errado tava errada. É foda, parceiro, você pode envolver o mundo em asfalto que a natureza vai romper aquilo, o homem nunca vai ser mais forte do que a natureza, porque a natureza é Deus.

Acredita em fim do mundo?
Acredito num novo início. E acho que já tá rolando. A gente vai voltar ao estado paradisíaco. As pessoas vão ter uma nova consciência. Quem não chegar nessa consciência espiritual vai adoecer, não adianta tecnologia. Toda essa tecnologia de longevidade já estava prevista pela biblioteca do Alexandria. Salomão, que foi o homem mais sábio do mundo, que tinha uma bênção sinistra porque era sinistro, se fudeu, porque não era Deus, parceiro [fecha os olhos, cochila].

Acorda! Catra, antes do funk, você era roqueiro, né?
Mano, eu gosto mesmo é de Deep Purple, Led Zeppelin, Judas Priest, AC/DC. Os melhores cantores são Ronnie James Dio, Ozzy Osborne e David Coverdale [cantarola uma canção do Whitesnake, abre outro chocolate]. Mas também gosto de Hyldon, Cassiano, Tim Maia. Eu tinha uma banda chamada Os Apóstolos, agora tô fazemos umas brincadeiras com a Limusine Negra, do Gil Soul, vamos ver no que que dá.

E tem um disco de samba também, o que é?
Tô engatando um tipo de som que a gente não toca há muito tempo [levanta-se e canta]. “Se o seu coração está só abandonado / sua mente está confusa, só faz pensar num amor do passado / Tome uma atitude, faça sua vida melhorar / o amor é uma semente, basta com carinho semear / e encontrará sua cara metade, sentimento intenso / é o fim do temporal, daqui pra frente pra amar é bom tempo / brilhará a paixão, forte como o sol do amanhecer / e as nuvens de solidão se vão com os ventos do esquecer / se dê valor, ninguém merece sofrer por alguém / ame a si mesmo e será amado por ela também / tenha fé no justo com pureza e força de vontade / nas asas da amor será o início da viagem / aí, irmão, o antigo amor que um dia te fez sofrer / pode crer / será só mera lembrança / não fará falta se dela esquecer / feliz vai estar sendo amado com sinceridade / e aí é reto meu parceiro / aí é amor de verdade”... Tá ligado?

Você parece ser um dos poucos caras juntam na mesma figura samba, funk, rock’n’roll, hard rock, hip-hop... E eletrônico.
Eu gosto do Marky, eu gosto do Cosmo, de trance, cada um tem sua história. Mas os papas são os caras do Kraftwerk, lançaram o bagulho todo. Não adianta, depois veio Run DMC, Afrika Bambaataa, mas o funk nasceu mesmo foi em Stuttgart, né?

Nem todo funkeiro sabe dessa ascendência...
Os caras não têm condição de saber, meu querido. O funk é um presente de Deus pras favelas do Rio de Janeiro, uma válvula de escape pra prostituição, do crime. Sabe qual a coisa boa do funk? Tudo aqui é mérito. Funk é graça, é bênção. Se você cantar qualquer outro estilo de música, nego vai cair em cima, mas no funk você pode fazer uma coisa simples e fazer sucesso.

O funk é uma praia, tem pra todo mundo?
Tem pra todo mundo, mas nem todo mundo pega na prancha [risos]. Se for ruim, não adianta. Por que no funk tu não paga jabá, e por mais que pague, teu som não vai virar, porque o funk não é na rádio: é favela, não tem caô.

Mas o meio do funk é pouco politizado, não?
Infelizmente o brasileiro não dá o valor, nem de dentro nem de fora. Funk é a cultura mais moderna do Brasil. É a única música eletrônica 100% brasileira.

Você toca muito fora do Brasil?
Dia 15 vou lançar meu disco de rap  em Marseille, na França. Faz seis anos que toco lá fora. Só não gosto dos Estados Unidos, me recuso a ir. Eles primeiro têm de respeitar o resto do mundo, e respeitar o Brasil acima de tudo.

O que você gosta de ouvir?
Eu fico de bobeira fazendo versões. [Tira o cobertor, se levanta.] Tem aquela do Caymmi: “Tira o meu calção de banho / vem pra cama pra mamar / e o meu pau ficou deste tamanho / Não deu nem pra acreditar / Minha gata mamava sorrindo/ que lindo / e eu pedi mais um pouco / o bagulho explodindo / é uma coisa de louco / É bom, uma mamada de manhã / Halls com sabor de hortelã / Pra relaxar dá dois no can/ Num natural de Amsterdã” [gargalhadas].

Como você vê a playboyzada louca pelo funk... não é esquisito?
Nós vivemos numa cidade partida. E a cola da cidade é o movimento funk. Num baile funk, todo mundo é funkeiro, não importa se ele é boy ou do morro. A gente vive em sensações – de poder, de segurança, de riqueza. Eu entendo tudo isso. E a cultura do morro é diferente da cultura do asfalto. No morro se  vive como os orientais: a poligamia é aceita porque as pessoas têm de trabalhar e deixam os filhos para os outros cuidarem, então se tua vizinha cuida do teu filho vira família. Na favela todo mundo se conhece, todo mundo é tia, tio, vô, vó. Você pode viver vinte anos em um condomínio e não conhece o vizinho de baixo, entendeu? No morro todo mundo senta na porta da sua casa, faz uma comida e oferece pro vizinho. É outra cultura, uma ideologia muito mais bonita.

Você gosta de dançar também ou só fica cantando?
Ah, não danço não, faço apenas leves movimentos pélvicos [risos. Sua namorada deixa o quarto e ele se enfia de novo debaixo do cobertor].

Falar nisso, vamos voltar ao assunto dessa edição... Como se chama mesmo a tua namorada?
Raiane.

Raiane do quê?
Não sei [risos]. Vou saber o nome todo, pô! Raiane do Negão, pronto, acabou.

Há quanto tempo que vocês estão juntos?
Tem oito meses.

Você continua com os relacionamentos antigos, começa um novo, mas o outro segue paralelo?
Meus relacionamentos duram anos e anos. A partir do momento que a mulher sair com outro cara, acabou. Porque corno não tem feminino, certo? Enquanto você tá sendo enganado pela sua mulher, ela é vagabunda. Agora, a partir do momento em que você descobre e não toma a sua atitude, daí você se transforma num corno, e ela se transforma numa mulher esperta [risos], tá ligado?

Então se alguma mulher tua ficar com alguém, já era?
Desce, desce, desce, pega a senha e vai lá pro fim da fila, fia, pode ser a mulher de casar de 11 anos, 20 anos, 30 anos, volta!

É ciumento?
Pra caralho, gosto muito do que é meu, por isso não meto a mão no que é dos outros. O cara que pega a mulher de outro homem é amaldiçoado.

Você tem 18 filhos. Fala o nome de todos assim, em ordem da mais novo pro mais velho...
Vamo lá então, de cima pra baixo e de baixo pra cima: Alan, Silvinha, Noemi, Samuel, Nego, Abraão, Moisés, 7, né? Fernanda, 8, Julia, 9, Agatha, dez, Ester, 11, Thaissa, 12, Mara, 13, Tamiris, 14, Selene, 15, Cauã, 16, Georgina, 17, Vitoria, 18, ufa [risos].

Como é que você consegue pagar 18 pensões?
Eu não pago, porque acho miséria. O cara que paga pensão alimentícia pro filho é um miserável de um filho de uma puta, um arrombado! Eu pago a escola de todos, pago tudo, é difícil mas eu pago.

Moram com você?
Tem seis numa casa, dois na outra casa, oito que moram com outra mãe, tudo perto.

Você é um pai durão, pega
no pé?
Eu? Sou o próprio estilo foda-se [risos]. Meus filhos podem tudo! Já não tenho tempo de ver meus filhos, vou chegar repreendendo, sendo um pai filho da puta? Quando vejo eles todos me dá uma emoção tão grande que, porra, “ah, faz o que vocês quiserem!”.

Vê os moleques e chora?
Direto! Quando tô deitadão assim na rede olhando eles assim no quintal, minha filha mais loira pegando sol, o outro brincando com um, brincando com outro... é lindo, parece que meus ancestrais estão todos ali, é um bagulho louco, vejo minha mãe em um, o avô no outro... e eles são tudo degradê [risos]. Tenho uma loirinha, a Selene, uma sarará de olho verde, a Raissa...

 

Mr. catra brinca com três de seus 18 filhos:

Mr. catra brinca com três de seus 18 filhos: "Sou pai tipo foda-se. Meus filhos podem tudo. São um presente de Deus"

 


E como é que vai ser a educação dessas meninas, também vai passar seus princípios machistas, não vai entrar em conflito se elas caírem no funk que nem a Mulher-Filé?
Essa sociedade botou um bagulho nas mentes das mulheres para eles nunca terem uma vida feliz e sempre viverem em pecado. Mulher prefere se enganada do que amada, parceiro. Eu dou conselho com fundamento: filha, você me quer do jeito que sou ou você me quer do jeito que você imagina que eu deveria ser? Tudo acontece no tempo de Deus. Quando Deus achar que é tempo de elas fazerem sexo, tem que deixar acontecer naturalmente.

E se uma das suas filhas namorar um cara tipo você, com um monte de mulher atrás, tudo bem?
Vou ficar extremamente confortável. Se ele for igual a mim e respeitar a minha filha, tudo bem.

Mesmo depois que você termina um caso você continua falando com as outras mães dos seus filhos?
Lógico, mano. Se você se preocupa com seus filhos, tem que se preocupar com a mãe deles. Por mais que faça, não vai deixar de ser tua família. Ela só não vai ter a mesma condição. Se ela falhar, perde a condição moral, o prestígio com você, mas continua família. Todo mundo erra.

Conversa sobre drogas com seus filhos?
Digo pra se manterem bem longe das drogas.

E se descobrir algum deles cheirando?
Se pegar meu moleque cheirando, vou mostrar pra ele a realidade da cocaína. Se pegar fumando pedra vou ficar desesperado, isso é doença. O viciado é uma doente. Maconha não é crime, é natural, é outra parada. O problema da maconha é a indústria do algodão. Imagina se liberar o cânhamo. Maconha é uma erva, algodão é arvore. Sabe o que que acontece, filhote? Quebra toda a indústria do algodão. É por isso que não liberam.

Você é a favor da legalização das drogas?
Sou a favor da legalização dessa porra toda. O governo, em vez de gastar dinheiro no combate, tinha que liberar e conscientizar. Prevenir pra não remediar. E tomar conta! O governo tinha que vender coisas boas, pra neguinho parar de cheirar essas merdas ruins aí. O próprio governo tinha que ter resposabilidade de vender uma coisa decente.

Vai demorar tempo para chegar nesse estágio, hein?
Não vai demorar muito tempo não, cara. Da televisão P&B para a full HD, demorou 30 anos. A evolução do bagulho não vai demorar muito.

Nos shows em que a gente foi você não falou nenhuma vez do Comando Vermelho nem do PCC. Antigamente você citava no palco as facções do crime organizado, chegou até a ser processado por apologia ao crime, o que aconteceu?
[Senta-se, acende outro cigarro] Olha, de coração: enquanto era ideologia, era uma coisa. Pra mim, o Comando Vermelho e o PCC não são facções criminosas, são partidos políticos. Foram criados na cadeia por políticos, não por marginais. São desmembramentos da Falange Vermelha, fundada na época da ditadura, numa época de repressão. Porque a criminalidade não saiu da favela: a criminalidade foi posta na favela.

Acha então que esses partidos perderam a motivação política?
Sim, o Comando Vermelho era pra ser quem nem as FARC, o IRA, o Sendero Luminoso, tá ligado? Quando perdeu o engajamento político, parou de fazer sentido. A vida melhor de um povo não é o crime: quando acaba a ideologia, acaba a justificativa. Foi uma burrice terem prendido os líderes políticos desses partidos e deixarem jovens sem ideologia no comando da criminalidade. Com a prisão desses lideres, os que tavam fora não tinham a mesma cultura pra cuidar do lado social. Isso tudo ruiu com a morte do Professor, do Rogério Lemgruber, do Maurinho Branco e de vários outros. As lideranças que sobraram não tinham o mesmo nível intelectual e aí a parada descambou. Fica difícil uma criança ou um jovem que cresce na comunidade passar numa faculdade, ler certos livros, ter posicionamento político. Ele tá ligado a essa cultura do capitalismo selvagem: se não tem um carro maneiro, uma roupa maneira, uma jóia maneira, não é um cara maneiro. É isso que mata: todo mundo ostentando. E essa ostentação era inadmissível no partidos, na função do partido você não pode usar o dinheiro para o seu próprio beneficio, seria em benefício das pessoas humildes daquelas comunidades.

Você vê alguma saída para o problema da criminalidade do morro?
É muito simples. Pra acabar com o tráfico de entorpecentes e acabar com a violência, basta acabar com o jogo. Libera e controla tudo. Aqueles que foram presos por tráfico de entorpecentes ficariam seis meses estudando pra cultivar, pra plantar coisa boa. O governo compra, vende e controla. Aí usa essa grana para cultura e saúde. Cria clínicas de reabilitação, se for preciso. Você monta coffee shops, e desses lugares sai dinheiro pra saúde, cultura e educação. Se você revertesse o quanto de dinheiro gira no black com o tráfico de entorpecentes em cultura, seria muito mais difícil o povo se viciar. Aí, quem quiser fumar o seu baseadinho, vai fumar tranqüilo. O controle tem que ser do governo, mas dando chance às pessoas que já trabalharam ali e já sofreram com isso.

Vamos falar de vida pessoal, Catra... você é vaidoso?
Não, gata, sou higiênico [risos].

Mas e esse monte de ouro, não é ostentação?
Pô, tenho uns patrocínios que são de um bom gosto excepcional e tenho essas peças de ouro que eu mesmo desenho, mas... vaidoso? Vaidade é bagulho muito louco, nego que raspa peito, faz sobrancelha. A música do momento do MC Gorila é “Todo bonitinho/ tá virando um viadinho” [risos]. Cuidado com a vaidade, a vaidade machuca, e a machucada é uma viagem que não tem volta! Se for pra lá já era, virou romano, e aí fudeu, vai dançar com o Calígula [risos].

Onde você mora hoje?
Em Vargem Grande.

É vizinho do Zeca Pagodinho?
Sou, é meu irmãozão.

Já teve algum cara que te cantou?
Não, não. Os homossexuais respeitam minha opção de heterossexual, sabem que sou propriedade delas, ninguém se mete. Se chegarem as meninas ficam com raiva, querem brigar na boate, chamam o segurança.

Você tem amigos homossexuais?
Vários! O Lacraia é meu irmão, pô.

Como se vê daqui a 20 anos?
A mesma coisa, só que com mais cabelo branco [risos]. Nossa referência se chama James Brown, que com 83 dançava e cantava... eu só tenho 40. E a tecnologia vai fazer a gente viver bastante ainda, pode ficar tranqüila. Se eu estiver trabalhando direitinho, vou estar nos 30 filhos. Você não sabe o que que é agora, acordar de manhã, depois da noite de show e ver as crianças rindo pra você, te fazendo carinho, isso não tem preço.

Você gosta de ler?
Eu só leio livros que vão me instruir, não leio ficção. Gosto de ler a Cabala. Agora tou me amarrando naquele Deus usa batom: A Cabala para mulheres, da Karen Berg.

Qual o som mais antigo você lembra de ter escutado?
Uma música que minha vó cantava pra mim... Não era um samba, era música evangélica. Eu tinha oito pra nove anos.

O que é sorte?
Sorte é ter fé em Deus, ser abençoado, é cada dia acordar e agradecer por cada minuto.

Você parece ser um cara sempre pra cima, alto astral... nunca teve depressão?
[Exalta-se] Depressão??? Depressão por quê, gata? Depressão é frescura! Vou te contar uma passagem da minha vida: em 1999 eu perdi a minha mãe, eu perdi meu filho e eu perdi o meu cachorro.

Nossa!
Meu filho tinha cinco anos, morreu de câncer. A minha mãe morreu de infarto fulminante. E o meu cachorro caiu no canal. Não parei de trabalhar por causa disso! [Levanta-se] Depressão é coisa de quem não tem Deus no coração, de quem não tem esperança, coisa de pessoas que não vêem a beleza da lua, a divindade de uma mãe, não ficam felizes quando sentem o calor do sol nas faces, não estão ligados na carícia da brisa do vento soprando... No dia em que minha mãe morreu, eu cantei. A gente comemorou com show.

E o dia em que seu filho morreu...
Era o Jorginho. Hoje ele ia ter 16 anos.

Então, análise nunca fez, nem pensar?
[Grita] Como??? Como? O cara estuda na escola pra saber o que tem dentro da cabeça dos outros? Pelo amor de Deus! Em primeiro lugar, a base da nossa sociedade é totalmente pederasta! E eu sou heterossexual. Segundo, acredito no Deus de Israel, não acredito no Deus de Roma. Terceiro, a minha doutrina é a doutrina dos hebreus, a doutrina de Deus que falou com Abraão, não a doutrina de César, de Calígula, de Marco Antonio. Meu bem, análise é outro sistema... [Senta-se, abre outro refrigerante] Sabe outra tristeza grande que eu tive? Foi a morte de Ytzak Rabin. Porque era um cara que dava esperança de paz mundial e estava no coração de muita gente, daqueles que pensam como eu, entende, e com sua morte fudeu tudo de novo. Essa guerra entre judeus e palestinos... Eu acho errado comprar casa, comprar terra, tá ligado?

Por quê?
Se não tivesse muro, ninguém passava fome, ficava desabrigado, passava frio. Penso totalmente diferente a respeito da formação social de hoje, um mundo em que as mulheres e as crianças estão desamparadas, porque todo homem é responsável pelas mulheres com quem ele sai, porque você é responsável pelo que tu cativas, tá ligado, e se não se responsabiliza, fica atrás do muro, aí começa a guerra. É como no livro Deus usa batom: nós temos que orar, as mulheres não.

Como assim?
As mulheres são mais avançadas espiritualmente do que nós. Você já vê pelo design da mulher. Mas o homem, por ser mais forte, tem por obrigação cuidar e direcionar o seu povo, entendeu?

Pra você é impossível uma mulher ser chefe de família?
Da minha família fica meio difícil. Sou hebreu e vivo com três mulheres na minha casa, meus filhos, todo mundo junto, trabalhando, como família, tá ligado, porque odeio as palavras bastardo e amante. É aí que começa a violência: na palavra bastardo e na palavra amante.

Que tipo de mulher você curte?
Eu sou um adepto da sereleia, tá ligado? Aquela que é meio sereia e meio baleia [risos], a fugitiva do spa. Gosto demais das fofinhas, de mulher confortável! Essas magrelas que nego bota na TV, não me leva a mal não, filhota, mas não é a minha.

Já usou Viagra?
Fia, o que o boneco rejeitou, não tem jeito. Vovô sempre falava que o músculo só pára de funcionar quando você pára de usar. O último filho do meu vô ele fez com 82. Então não me preocupo com nada. Mas se tiver que ter um adendo, a gente usa, ué! Só não pode deixar as meninas falando [risos].

Como foi a sua primeira vez?
Ai, uma delícia, a coisa mais louca do mundo. Eu tinha onze. Tinha uma amiguinha do condomínio que tinha 13 pra 14. Nossa [risos], foi na garagem lá de casa...

Nenhuma mulher ficou revoltada com você com a Dança do Cartão [em que Catra passava um cartão de crédito no meio das nádegas da Mulher Filé, que travava o cartão]? Você desvaloriza a mulher, ela parece mero objeto de consumo...
Claro que não, fia. Porque quando fecha a porta do quarto, vem cartão, vem chifre, vem tudo [risos]. Vamos parar de hipocrisia: como as mulheres vão se revoltar, se vão gozar e se sentir bem com a nossa brincadeira? E afinal, qual a coisa mais valiosa hoje em dia? É o caixa eletrônico! [Gargalha. Estica-se na cama, pega outro cigarro e sopra a fumaça longe.] Estou errado, meus filhos?

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