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O carro para o país do futuro

Gurgel entrou para a história do país ao inventar o primeiro veículo genuinamente nacional
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16.03.2009 | Texto por Décio Galina Fotos Divulgação; Clovis Cranchi /AE

No início dos anos 60, Gurgel ao volante de seu primeiro minicarro

No início dos anos 60, Gurgel ao volante de seu primeiro minicarro; As iniciais JAG não deixam dúvida de quem concebeu o possante que poderia estrelar os Jetsons: João Augusto Amaral Gurgel

 

João Augusto Amaral Gurgel foi um inovador por natureza. Na infância transformou triciclo em bicicleta, na faculdade desenhou carro em vez de guindastes, mas entrou para a história do país ao inventar o primero veículo genuinamente nacional

Moleque, no auge dos 5 anos de idade, João Augusto Amaral Gurgel não se conformava com o fato de as
galinhas que moravam nos fundos da casa ficarem no breu à noite. Não mereciam jantar no escuro.

Encasquetou que era preciso iluminar o canto das penosas, fez a cabeça do irmão menor e pôs em prática o plano de emendar vários fios da tomada da cozinha até um soquete no quintal –– a explosão causou uma balbúrdia entre os bichos, e o irmão levou um choque de arrepiar. O pequeno Gurgel também não pensou duas vezes ao saber que a mãe suspirava por uma mesa entalhada. Simples: com um canivete afiado, cavou a borda do móvel –– e não entendeu muito bem por que o pai o pôs de castigo.


A capacidade de encontrar soluções criativas e a determinação de levar a cabo ideias nada convencionais
foram as principais marcas da trajetória de Gurgel, o criador do primeiro carro genuinamente nacional, que
morreu em São Paulo aos 82 anos no último dia 30 de janeiro. Sem se importar com a força dos ventos contra, nem com o uníssono da torcida adversária, o menino nascido em 1926 em Franca (interior de São Paulo) foi um homem surdo para o que não fosse sua opinião –– e foi assim, obstinado ao extremo, que criou, em setembro de 1969, a Gurgel Indústria e Comércio de Veículos Ltda., prefácio do sonho de construir um carro popular brasileiro.


Sonho que saiu da prancheta e virou automóvel. Nos 25 anos de existência da fábrica montada em Rio Claro (interior de São Paulo) foram concebidos 40 mil veículos. Ipanema –– uma espécie de buggy –– foi o nome do primeiro modelo, criado antes mesmo da fábrica e apresentado no Salão do Automóvel de 1966. “Depois que fundamos a Gurgel, fazíamos um Ipanema por semana. Mais tarde, descobrimos numa pesquisa que o Ipanema estava sendo utilizado em fazendas, como substituto do jipe. Então, resolvi investigar esse mercado”, diz o próprio Gurgel na biografia Gurgel, um brasileiro de fibra (editora Alaúde), escrita pelo jornalista campineiro Lélis Caldeira.

O resultado da pesquisa direcionou os passos seguintes do empreendedor.
Os modelos que viraram sinônimo da marca apareceriam nos anos seguintes: Xavante (jipe com um par de pás afixadas nas portas para salvar o carro da lama e sistema “Selectration”de bloqueio seletivo das
rodas traseiras); Itaipu (o primeiro carro elétrico do Brasil, recarregável em qualquer tomada 220); X-12
(jipe com guincho manual com cabo de aço de 25 m no para-choque dianteiro); BR-800 (primeiro carro totalmente desenvolvido no Brasil, “nossa independência tecnológica”, segundo Gurgel); além do Tocantins, Xef, Carajás, Supermini e Motomachine.

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