Revista Trip

 
Tópico: Diversidade
Assuntos:

Cinema

Viagem

tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte

Cinema Noir

Trip desembarcou na Nigéria para conhecer Nollywood, a maior produção de cinema do mundo
icone postado
15.01.2009 | Texto por Lino Bocchini Fotos João Wainer

Desmond Elliot (camisa azul-escura) e Yemi Blaq quebram o pau de mentirinha na gravação de Bloody Hands

Desmond Elliot (camisa azul-escura) e Yemi Blaq quebram o pau de mentirinha na gravação de Bloody Hands

 

 
O policial aponta nervoso para os dois brancos do set e bate boca com o diretor. Quer mais dinheiro. A “caixinha” que recebera mais cedo para deixar a equipe em paz já não era suficiente. Afinal, agora surgiram brancos na parada, logo deveria dar para tirar mais algum. Os brancos em questão éramos eu e João, fotógrafo desta reportagem, mas o incidente não atrapalhou o dia de gravação de Bloody Hands, a ser lançado agora em 2009. Estamos na Nigéria, país com mais petróleo que o Brasil e que se orgulha pacas do ouro olímpico no futebol em 1996, aquele que não temos. Em Lagos, 15 milhões de habitantes sobrevivem sem saneamento básico algum e circulam em uma megafrota de lotações detonadas em um trânsito bem pior que o paulistano, movido a um buzinaço insuportável, tomado por um formigueiro de camelôs entre os veículos e sem semáforos – em uma semana vimos um único funcionando. De noite a coisa piora, a metrópole gigante, maior que São Paulo, fica totalmente escura. Postes são raros e, quando existem, não funcionam. Caos à parte, desembarcamos por lá interessados mesmo é na maior produção de cinema do mundo.

Hollywood fatura centenas de vezes mais, e a indiana Bollywood também tem produção significativa. Mas nada supera o volume brutal de filmes lançados em solo nigeriano. 2008 está fechando com aproximadamente mil lançamentos, “mas no ápice, em 2005, chegaram ao mercado cerca de 2 mil filmes, era muita coisa, uns 40 por semana”, estima a produtora e diretora Amaka Igwe, uma das mais antigas do país. O boom começou em 1993, quando Living in Bondage (algo como Vivendo com um encosto) estourou, vendendo milhares de cópias em VHS. A chegada da tecnologia digital deu uma turbinada na produção, e hoje fitas gravadas em menos de um mês a um custo que dificilmente passa dos US$ 30 mil são vistas por até 20 milhões de pessoas.

Câmeras digitais e softwares de edição de vídeo acessíveis casaram bem com um povo contador de história e criativo que só. Quem primeiro chamou a atenção para o fenômeno foi a francesa Cahiers du Cinéma, revista-bíblia de cinéfilos mundo afora. A publicação fez um levantamento em 2004, e apontou que Nollywood, apelido da indústria cinematográfica local, tinha produzido ao menos 1.200 filmes naquele ano, contra 934 da Índia e 611 dos EUA. A essa altura, Living in Bondage já tinha 11 anos, mas o Ocidente ainda não havia acordado para o fenômeno. E só agora, no fim de 2008, a primeira equipe de reportagem brasileira (a da Trip) foi até lá ver in loco que história é essa.

 

Família escolhe DVDs em loja de Surulere, que concentra a nata de Nollywood

Família escolhe DVDs em loja de Surulere, que concentra a nata de Nollywood

 

Nenhum filme no cinema
Nollywood é um fenômeno cultural único no mundo não apenas pelo volume alucinante, mas também pela forma com que o povo consome esses filmes. Em todo o país quase não há cinemas. Fomos conhecer o maior complexo da Nigéria, que fica em The Palms, principal shopping de Lagos. São seis salas com um jeitão de Cinemark depois da gripe. Todas exibem lançamentos americanos, os mesmos em cartaz por aqui. “Lançamentos locais não chegam às salas. Só às vezes, na première”, explica Shaibu Hussreini, crítico de cinema que acompanha a produção local desde o tempo do videocassete. Como então a turma assiste à maior produção de filmes do mundo? Comprando DVDs aos milhares.

Aí entra outro aspecto único do cinema nigeriano. O esquema não convencional de distribuição, que funciona tão bem que nem parece estarmos num país de infra-estrutura tão detonada que nem mesmo o onipresente McDonald’s quis se instalar por lá. Agora no segundo semestre as produtoras entregaram de 10 a 15 novos títulos por semana nos mercados de rua de Lagos. “Numa semana chegam os títulos em inglês e, na outra, os em ioruba”, explica Gloria Paul, vendedora que há cinco anos trabalha no mercado de filmes de Surulere, bairro que concentra a nata de Nollywood.

Quatro mercados como o de Gloria recebem os lançamentos, onde vendedores de rua compram os filmes e os distribuem. Assim as fitas chegam também a Gana, ali do lado, que tem uma legião de fãs consumidores, e também ao restante da África e até para a Europa, onde fazem a alegria de imigrantes. É um modelo capilarizado de distribuição baseado em camelôs e lojinhas que funciona incrivelmente bem há mais de uma década. Tanto que a indústria cinematográfica hoje é a terceira economia do país, atrás apenas do petróleo e da agricultura.

Em Londres, onde vi um filme nigeriano pela primeira vez, os DVDs custam 5 libras nos bairros africanos. Todos originais. Mesmo na pátria-mãe não são baratinhos, saem 5 mil nairas – cerca de R$ 8. Assim, como no resto do mundo, a pirataria também está por lá. “O pirata cresce nas deficiências de distribuição. Em vez de levar caixas de filmes até o outro lado do país, o revendedor muitas vezes compra um de cada e reproduz”, comenta Amaka, que calcula que um ­blockbuster de Nollywood pode vender até 700 mil cópias regulares.

Quando vemos tais números é preciso lembrar que falamos de 140 milhões de habitantes, o que faz da Nigéria não só o país mais populoso da África, como também a maior nação negra do mundo. Negra mesmo, 100% black. Em uma semana por lá, os únicos brancos que vimos circulando pela rua (além de nós mesmos) foram dois albinos. Juro.

Páginas: « anterior | 1 | 2 | 3 | próximos » 
TAGS