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Na montanha sagrada

Arthur se embrenha no Himalaia numa aventura mística e revela os segredos do monte Kailash
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15.01.2009 | Texto por Arthur Veríssimo Fotos Arthur Veríssimo

Retratos que traduzem a variedade de seres humanos pelo platô tibetano

Retratos que traduzem a variedade de seres humanos pelo platô tibetano

Quando comecei a ver da janela do avião o majestoso relevo dos picos nevados do Himalaia, o coração disparou. O comandante da aeronave direcionava nossos olhares indicando a presença do exuberante Everest, com seus 8.848 m de altura. Contemplando de cima o Himalaia, consegui como por milagre tranqüilizar minha mente. Havia passado dias de sufoco em Katmandu aguardando o visto e uma miríade de autorizações do consulado chinês para viajar a Lhasa e outras regiões do Tibete.

Desde o início de 2008, muitas manifestações pró-autonomia do Tibete terminaram em violência e centenas de mortos. Ápice de uma situação que começou em 1950, com a ocupação chinesa no país. Em 1959, o atual XIV dalai-lama Tenzin Gyatso e milhares de tibetanos conseguiram se exilar na Índia, escapando da esmagadora invasão. Mais de 1 milhão de tibetanos foram mortos, e 6.200 mosteiros, completamente destruídos. A população vive acuada e ninguém comenta sobre assuntos políticos. É igualzinho à lei do silêncio que impera nas favelas brasileiras.

A grande maioria dos tibetanos vive marginalizada diante do monumental boom econômico que borbulha por todos os cantos da cidade de Lhasa. Segundo as autoridades chinesas, foram investidos US$ 15 bilhões em infra-estrutura. As melhorias são perceptíveis, como a qualidade das estradas, transportes públicos, habitações populares, pontes, represas e aeroporto. Aquela cidade misteriosa e romântica dos filmes e livros passa por uma transformação alucinante. A “nova Lhasa” é um emaranhado de edifícios, lojas de grife, concessionárias de veículos e uma infinidade de produtos que encontramos nos shoppings bacanudos das metrópoles brasileiras.

Circum-ambulação
Os dias se arrastavam lentamente. Tudo era difícil: respirar, andar, dormir e pensar. Não adiantava acelerar. Passava por um período de aclimatação. Lhasa está a 3.600 m de altitude e muitos viajantes sofrem do mal das alturas: dor de cabeça, náusea, falta de apetite, insônia e dificuldade respiratória. A maioria dos ocidentais se previne tomando Acetazolamida em doses diárias de 500 mg para suportar as agruras do mal das montanhas. Mas eu aproveitei o ensejo e fui fazer uma consulta no Instituto de Medicina Tradicional Tibetana. Saí do local com preciosas poções mágicas para a altitude. Nas duas semanas seguintes iríamos explorar e percorrer o platô tibetano em uma altura média de 4.000 m. Nosso destino, uma remota e inóspita área no oeste tibetano, a 1.200 km de Lhasa. A montanha mais sagrada de toda a Ásia para bilhões de pessoas: o monte Kailash.


O símbolo mítico
O monte Meru aparece no coração da cosmologia religiosa asiática e está em diversas crenças e religiões. É o pivô central, enquanto a criação acontece em seu entorno. Para bilhões de crentes – hinduístas, budistas, jainistas e bonpas –, a montanha é o pilar do mundo. O monte Meru está inserido em diversos mitos e escrituras sagradas como sendo o Kailash. Uma descrição espetacular no Vishnu Purana, texto hindu de 200 a.C., diz que “a montanha cósmica nasce a altura de 84 mil léguas no centro do universo, circundada por anéis concêntricos dos sete continentes e dos sete oceanos. As quatro faces da montanha são orientadas para as quatro direções. O leste é de cristal, o oeste de rubi, o sul é de lápis-lazúli e o norte é de ouro. O Sol, a Lua e as estrelas seguem seu curso a partir desse estonteante pivô central e suas múltiplas camadas de reinos do céu, terra e mundo subterrâneo que se espalham ao seu redor. De seu topo, o sagrado rio Ganges cai do céu e se divide em quatro grandes rios que despejam água nos quatro cantos da Terra”. A visão da montanha universal se espalhou por toda a Ásia, inspirando séculos de arte, arquitetura e literatura.


A equipe de nossa expedição era composta de dois motoristas, Tenzin e Kalu, o guia Mia, o cozinheiro Lobsang, meu compadre André Meyer e este escriba oxigenado. Viajamos em dois veículos: um Toyota Land-cruiser e um caminhão repleto de víveres, garrafas de água mineral, tubos de oxigênio, barracas e apetrechos para cozinhar. Saímos de Lhasa de acordo com o planejamento. Nossa intenção seria caminhar ao redor da montanha sagrada na lua cheia. Essa volta ao redor da montanha é chamada de circum-ambulação, uma perambulação em círculo e a pé. Os hindus chamam essa volta de “parikrama”. Os tibetanos se referem a ela como “kora”. E, para os hindus, o Kailash é a morada mítica do Deus Shiva e de sua esposa Parvati, enquanto, para os tibetanos, é o aposento de Demchog. Sua consorte, Vajra Varahi, está agarrada a ele em união sexual. Ao redor do Kailash encontram-se outras entidades sentadas em filas circulares. São no total 990 filas com 500 entidades em cada uma. Para a religião jainista, fundada 600 anos a.C., a montanha é chamada de Ashtapada e seu fundador Rishabanatha vive em seu cume em estado de meditação. E, finalmente, para os bon-pos, antiga religião pré-budismo tibetano, a montanha é a alma mística da região e é chamada de montanha da suástica. Segundo o venerável lama Anagarika Govinda, “aquele que realizar o ritual de circundar o Kailash, com uma mente perfeitamente concentrada e devota, passará por um ciclo de vida e morte”.

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