A campanha promete fazer barulho. Na comunidade “Viva o hormônio do frango”, no Orkut, 20 adolescentes convocam meninas de todo o país para que comam frango sem parar. Não, eles não foram contratados pela indústria da carne de frango. O interesse é puramente hormonal: segundo o dono da página, Felipe Freitas, a cada asa de frango devorada pelas garotas, mais chances elas têm de chegar à puberdade. “Os produtores têm usado hormônio para inchar os frangos. Ou seja, quanto mais a menina come frango, mais sinuosas são suas curvas!”, alerta Felipe, animadíssimo. Não se sabe quem é mais poderoso hoje, o mito do uso do hormônio em carne de frango ou a indústria da avicultura, que fez do Brasil o maior exportador mundial do produto, com 500 milhões de frangos abatidos por mês (cerca de 30% da produção nacional), distribuídos por 150 países.
Os meninos não devem se assanhar. Não há no Brasil o uso de hormônio na produção da carne de frango. “Realmente, não faz parte de nenhum processo natural que um pintinho nasça e engorde 2,5 kg em apenas 45 dias. Por ignorância ou simplificação, as pessoas acabam atribuindo esse rápido crescimento à injeção de hormônios de crescimento nas aves, mas isso não é verdade, os motivos são outros”, afirma o biólogo Sérgio Greif, mestre em alimentos e nutrição pela Unicamp. “Os hormônios de crescimento são substâncias protéicas que, se eventualmente fossem usados nas dietas, não teriam efeito farmacológico, pois seriam destruídos pelas enzimas do sistema digestivo das aves. Portanto, além de proibido no Brasil desde 1976, é economicamente inviável”, afirma o médico veterinário Cláudio Bellaver, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
SABOR ARTIFICIAL
O melhoramento genético feito durante décadas, os avanços na nutrição, o controle ambiental e o tratamento de doenças são, segundo os especialistas, os grandes responsáveis pela velocidade com que o frango engorda e é abatido para consumo. A tecnologia só não conseguiu manter o sabor do frango. O uso de antibióticos nas rações de engorda, estes sim empregados e permitidos, deu ao frango atual um gosto artificial, muito distante do frango consumido antigamente, criado no fundo do quintal ou em pequenas granjas. Outra preocupação do consumidor atual – e, principalmente, do mercado externo – é em relação ao bem-estar animal. Como abater 500 milhões de frangos por mês e ao mesmo tempo diminuir o sofrimento do animal durante a criação? A União Européia, por exemplo, já editou instrução normativa que impede, a partir de 2012, a importação de animais criados em sistemas que não levem em conta o bem-estar animal.
APERTO NO GALINHEIRO
A indústria garante que está fazendo sua parte. Algumas empresas já estão suspendendo a inclusão de antibióticos na ração nos sete dias que antecedem o abate. Outras aumentaram o espaço nas granjas – um aviário convencional abriga hoje cerca de 14 a 16 aves por metro quadrado – e diminuíram o tempo de luz artificial. Mas nada que convença a ativista Nina Rosa, ex-modelo e produtora de moda, vegetariana convicta (“não coma nada que tenha rosto” é sua bandeira) e inimiga número um dos produtores de qualquer tipo de carne. Diretora do instituto que leva o seu nome (www.institutoninarosa.org.br), um dos mais conhecidos órgãos
de defesa dos animais do país, Nina tem feito barulho desde que tornou popular o documentário A carne é fraca, que exibe cenas sangrentas de maus-tratos de animas por parte de produtores.
“Os frangos são criados em cativeiros, em espaços
mínimos que chegam a quatro aves por uma folha de papel A4, uma verdadeira tortura. E tem a debicagem [processo cirúrgico de corte e cauterização do bico das aves que evita, por exemplo, que galinhas cometam canibalismo e arranquem suas penas], crueldade que é prática comum nos criadouros”, ataca Nina. Além disso, como mostra o documentário e foi comprovado por esta reportagem, os pintinhos que nascem prematuros ou “com defeito” são triurados e ajudam a
compor a ração que será comida pelos pintos saudáveis.
“Eu sei que o documentário A carne é fraca, além de ter feito muita gente deixar de comer carne, incomodou a indústria, pois empresários chegaram a se juntar para veicular uma
propaganda em resposta ao meu filme, com o título A carne
é forte”, lembra a ativista.
Pesquisadores e especialistas acham importante a pressão feita por institutos de defesa dos animais, mas enxergam alguns exageros por parte dos ativistas. “Como um frango que recebe todos os tipos de maus-tratos consegue atingir 2,5 kg de peso em 45 dias? Se o animal atinge esse desempenho, é porque está recebendo todos os cuidados técnicos quanto à sua nutrição, à sua sanidade e ao seu manejo de produção. Um animal que não tenha sido bem nutrido e tenha tido problemas sanitários não terá um bom desempenho”, afirma Antônio Mário Penz Júnior, professor do departamento de zootecnia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). “As pessoas estavam acostumadas ao frango de quintal, ao ‘frango da vovó’, que levava seis meses para abater. Hoje, é abatido em 45, 47 dias, em escala industrial, que é a única maneira de o alimento chegar a milhões de pessoas ao preço de R$ 3 o quilo”, explica Pedro de Felício, Ph.D em produtos de origem animal da Unicamp.
Para quem se recusa a comer frango com antibiótico, mas por outro lado não consegue viver de vegetais como Nina Rosa, o mundo não está perdido. A Korin Agropecuária produz desde 1995 o chamado “frango verde”, livre de antibiótico e de qualquer farinha de origem animal. Na produção, as diferenças são mais sutis: a densidade nos aviários cai de 16 aves por metro quadrado para 11, por exemplo. “Foram muitos anos de pesquisa até chegarmos a esse modo de produção, que concentra preocupações com as
cadeias ambiental e social“, explica o gerente de produção animal Luiz Carlos Demattê Filho. O frango verde ganhou ares industriais: são 400 toneladas de carne de frango abatidas por mês pela Korin.





















