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O dia em que o skysurf parou o céu de São Paulo

Skysurfer de ponta-cabeça no ar com prancha ilustrada presa aos pés durante salto sobre a cidade de São Paulo. Ele usa macacão azul e branco, capacete, óculos escuros e luvas verdes. Abaixo, a vista panorâmica da metrópole exibe a densa malha de edifícios, ruas e áreas verdes, incluindo o Parque Ibirapuera e seus lagos, sob céu claro.

Em 1996, a Trip cobriu o primeiro voo de skysurf sobre uma metrópole no mundo.

Há 30 anos, fomos cúmplices de um feito histórico e quase impossível: congelar o tráfego aéreo da maior cidade da América Latina para o primeiro salto de skysurf sobre uma metrópole. Uma ideia visionária idealizada e liderada pelo multiesportista Luis Roberto Formiga.

Em abril de 1996, Formiga encarou um plano insano: saltar de um avião bimotor a cerca de 7 mil metros sobre o coração de São Paulo – quase dez vezes a altura do Cristo Redentor. A missão era realizar um voo inédito de skysurf, modalidade de paraquedismo em que se voa com uma prancha presa aos pés, cruzando o oceano de asfalto e cimento a 300 km/h.

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O projeto exigiu mais de um ano de negociações e rigorosos treinos até convencer as autoridades de aviação civil a paralisar o tráfego aéreo da cidade por alguns minutos. A bordo daquele bimotor, uma tripulação de seis privilegiados acompanhava cada segundo do milagre: o paraquedista Luiz Henrique Sabiá, o cineasta alemão Sylvestre Campe, o cinegrafista Mahá, além do diretor superintendente da Trip, Carlos Sarli, e do editor e fundador Paulo Lima, que testemunharam e registraram o feito direto do ar.

“A gente olha para trás e sabe que conseguiu fazer o impossível. Foram quase dois anos tentando contato com autoridades que poderiam viabilizar oficialmente o salto, e a gente só recebia ‘não’. Falavam: ‘Você está louco’, ‘É impossível’. Até que um alto oficial visualizou isso como um momento épico do esporte e autorizou parar o tráfego aéreo da cidade por 10 minutos”, relembra Formiga.

Leia abaixo a reportagem original, escrita por Paulo Lima e publicada na edição #48 da revista impressa, em maio de 1996:

Surf City

No limite do possível. Essa expressão usada e abusada pelos conformados perdeu parte do sentido. Limite e possível são dois vocábulos desprezados por quem derrota as próprias limitações, ignora o medo e resolve, numa manhã de domingo, parar o tráfego aéreo da maior cidade da América Latina, pelo prazer de surfar, a 7 mil metros de altitude, em ondas de ar rarefeito. A TRIP participou da façanha e traz com exclusividade o primeiro salto de skysurf sobre uma metrópole deste planeta. Não é possível.

Páginas da reportagem original na Trip #48, publicada em maio de 1996. / Créditos: Acervo Trip

Esporte é como sexo. Há vários tipos e intensidades possíveis. Todas, praticamente sem exceção, dão muito prazer e fazem bem. O importante é encontrar a maneira que melhor se encaixa no seu jeito de pensar e levar adiante.

Há quem se satisfaça com o prazer de um jogo de futebol às segundas à noite com os amigos. Os fotógrafos Bob Wolfenson, Willi Biondani, Vavá Ribeiro e Fernando Laszlo e os artistas plásticos Victor Lema Riqué e Rafic Farah, por exemplo, mantêm a forma e se abastecem de energia lúdica deste modo.

Há os amantes mais esforçados, que três ou quatro vezes por semana invadem academias, quadras, lagos e rios para conseguir performances mais expressivas e viagens ainda mais intensas para dentro de seus próprios corpos e mentes.

“Estávamos cientes de que o negócio era realmente perigoso”

Mais em cima na escala, estão atletas semiprofissionais e profissionais que transformam a fonte de energia, prazer e saúde mental do esporte em meio de vida com dedicação diária, em período integral.

Acima deles todos, no alto do Olimpo esportivo, estão alguns escolhidos. Aqueles que, por obra divina, presente genético ou dedicação permanente, atingem estágios de exploração do próprio potencial humano em níveis que jamais serão experimentados pela grande maioria dos mortais.

Mar de prédios a 23 mil pés

No penúltimo domingo de abril de 1996, Luiz Henrique Tapajós dos Santos, o Sabiá (25 anos, já conhecido por saltar de BASE jump do prédio da CESP, em São Paulo), e Luis Roberto Moraes, o Formiga (um dentista paulistano de 32 anos, ex-recordista brasileiro de voo livre e campeão brasileiro de skate vertical), fincaram mais uma estaca para demarcar seus territórios no Olimpo esportivo.

Aproximadamente às 10h, o King Air – um turbo-hélice bimotor especialmente adaptado para o paraquedismo – decolava do Campo de Marte. Seis privilegiados tripulantes acompanhavam a checagem de equipamentos. No painel do avião, as autorizações do DAC (Departamento de Aviação Civil) e do Serviço de Proteção ao Voo de São Paulo, que compreenderam a seriedade do projeto e aceitaram interromper o tráfego aéreo na cidade por alguns minutos. No para-brisa, o adesivo da marca de roupas Slice, que apostou na aventura.

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Três câmeras de vídeo e outras três de fotografia registravam cada gota de suor e adrenalina. Céu azul com luz suave de outono. Visibilidade total. O avião ultrapassa a barreira dos 14 mil pés. O ar começa a ficar rarefeito. Os dois tubos de oxigênio entram em ação no esquema de racionamento, dando preferência ao piloto, copiloto e atletas. Vinte mil pés, temperatura externa de menos 20 graus, portas do avião escancaradas.

O cineasta Sylvestre Campe, o paraquedista Luiz Henrique Sabiá, o cinegrafista Mahá, o multiesportista Luis Roberto Formiga e o fundador da Trip, Paulo Lima, momentos antes do salto de skysurf. / Créditos: Carlos Sarli/ Acervo Trip

Sabiá, que nessa aventura seria o cameraman nº 1 e spotter (responsável por definir o momento do salto e o local do pouso), prende os pés no chão do avião e tira metade do corpo para fora da fuselagem, fixando o olhar no mar de prédios, ruas e casas. Seus cabelos quase são arrancados pelo vento gelado. Mais 3 mil pés e chegamos à altura do Everest.

Olhando para baixo, Pacaembu e Ceasa parecem fazer esquina. À frente, de um dos lados, estão Santos, Guarujá e o resto do litoral. Do outro, a Cantareira.

A falta de oxigênio começa a fazer a lógica mudar de eixo dentro do nosso cérebro. O pensamento ganha novas dimensões. Quanto daquela emoção seria atribuída à loucura real daquele momento e quanto aos neurônios famintos de ar?

Ready, set, go!

Sabiá se solta da aeronave caindo de costas para o chão. Formiga salta em seguida, com a prancha de skysurf presa aos pés. O terceiro homem, Mahá, se atira por último para documentar a ação dos dois principais.

A 300 km/h em queda livre – velocidade alcançada graças ao ar rarefeito –, Formiga começa a surfar com o oceano de asfalto e cimento como pano de fundo. No avião, a euforia pelo êxito se confunde com dor de cabeça e uma sensação de quase apagamento.

É a primeira vez que uma metrópole mundial olha para cima e viu um surfista. São imagens das preliminares, do orgasmo e do dia seguinte deste marco absolutamente importante para a história do esporte e da aventura no Brasil. Um material quase erótico.

O paraquedista Luiz Henrique Sabiá checa o ponto exato para o salto, a 20 mil pés. / Créditos: Paulo Lima/ Acervo Trip

Formiga com asas

Foi mais de um ano de negociações, politicagens, treinos, exigências técnicas e esforços conjuntos. Depois de tudo resolvido, outro desafio: espantar as zicas. Confira detalhes, nesta entrevista com Formiga.

De onde surgiu a ideia de voar sobre São Paulo?

Luis Roberto Formiga: Tive essa ideia na época em que voava de asa-delta e era viciado em voos de longa distância. Bati o recorde sul-americano em 1987, voando cinco horas. Saí de Atibaia e cheguei em Pouso Alegre (MG). Voei numa condição de altíssima dificuldade, com ventos de quebrar árvores durante o dia todo. Nessa época, não tinha Cumbica [Aeroporto de Guarulhos]. Fui voando baixinho até chegar à Marginal, ao lado do Playcenter, onde peguei uma supercorrente térmica, entrei na nuvem e atravessei até o Ibirapuera. Esse voo me deixou muito adrenado. Tive uma sensação de onipotência, supremacia por ter voado de asa-delta em SP e ter pousado no Ibirapuera. Isso porque eu não podia cruzar a reta dos aviões que entravam para Congonhas, que na época concentrava todo o tráfego aéreo da cidade.

VEJA NO TRIP TV: Snowboard em um vulcão no Chile

Quando você se interessou pelo skysurf? Quando comecei a saltar de paraquedas. Imaginava que a coisa mais sensacional que poderia existir seria um salto onde a queda livre durasse mais. É isso que acontece no paraquedismo, você cada vez quer cair mais. Às vezes, você fica até puto da vida de ter que abrir o paraquedas, de tão bom que tá, caindo a 200 km/h. Misturei esse tipo de sensação com a experiência de voar de asa-delta em cima de São Paulo. Aí começou um longo projeto. Me juntei ao Sabiá, um dos melhores cameramen do mundo, que apostou em mim e me fez saltar de prancha, contrariando até algumas regras do paraquedismo.

“No início do salto, voei a 300 km/h. Se eu capotasse ali…”

Quem te ajudou a desenvolver esse projeto? Desenvolvemos junto com o presidente da Federação Paulista de Paraquedismo, Francisco Leite Carvalho. Achávamos que o mundo precisava ter essas imagens de skysurf sobre uma metrópole. Se não fosse em Sampa, seria na Cidade do México. Queríamos fazer acontecer sobre São Paulo. Voei 17 anos de asa-delta, pousando em tudo que é lugar. O Sabiá é o cara mais competente em paraquedismo que conheço. Essa ideia não surgiu como uma loucurinha de “vamos nos jogar”. Estávamos cientes de que o negócio era realmente perigoso, mas tínhamos know-how suficiente.

Quais foram as maiores dificuldades para a realização desse projeto? A primeira maior dificuldade era ter o respaldo do Serviço de Proteção ao Voo de SP. Foi a Federação Paulista de Paraquedismo que enviou o projeto, dando o seu aval. A segunda dificuldade era organizar esse salto da forma mais segura possível: ter um avião bom, equipamento bom, treino e staff profissional. O pouso, sem dúvida nenhuma, era o que mais preocupava: 27 mil pés é muito alto. A gente tinha escolhido um ponto, mas a nossa autorização nos restringia a um diâmetro de 3 km. Nada poderia sair fora disso.

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Qual é a área mínima necessária para aproximação e pouso de um paraquedas de alta performance? A área não é grande. O problema é que você tem que estar posicionado em relação ao vento, para o vento não te atrapalhar e não ter obstáculos verticais ao redor desta área de pouso. Ou seja, prédios e fios – que é o que mais tem. A gente tinha pelo menos umas oito áreas onde poderia pousar, inclusive na Marginal do Tietê.

A área de uma quadra de futebol de salão é viável para um pouso? Não. Com estes paraquedas, um estádio de futebol de campo sem arquibancadas é bom. Com arquibancada já complica, porque tem verticalização, tem obstáculos. Mas dá para pousar. Na área, tinha o campo de treinamento do São Paulo, do Palmeiras, Parque Antártica, clube da Telesp… O Pacaembu ficava um pouquinho fora, porque a gente não podia atrapalhar a cidade daquele jeito.

Se lançar a 23 mil pés é considerado um salto normal? Não. Tem o problema de oxigenação e da resistência do ar. Não havia muito perigo físico, mas de fracasso do projeto. O Sabiá poderia passar para baixo no salto e só ficar me pegando de baixo para cima, sem mostrar o skysurf com o visual de SP. No início do salto isso aconteceu: tive de recolher totalmente os braços e voar com a prancha a 300 km/h para cair mais rápido que ele e me posicionar corretamente. Era a parte mais instável do salto. Eu tinha de me manter em cima da prancha. Se eu capotasse ali…

E você já tinha saltado com ar rarefeito assim? Qual foi a sensação? Nunca. Nesse salto, a gente chegou a 22,8 mil pés. Nunca se soube de nenhum salto de prancha dessa altura. Quando estava descendo sem os braços, foi uma sensação incrível. Eu senti que a prancha estava meio que dobrando, porque a velocidade aumentava. Consegui embalar e caí bem mais rápido que o Sabiá. A hora que passei para baixo dele, estava com uma supervelocidade e coloquei os braços para frear. Parecia que o vento ia arrancar meus braços. Tive que fazer uma big força para estabilizar. E aí começou meio que chacoalhar…

“O medo te deixa em estado de alerta, te faz respirar adrenalina”

O que acontece se a prancha quebrar? A prancha que eu estava usando era muito resistente, mais pesada que uma de skysurf normal. Ela é para neve, uma prancha de snowboarding, cortada com shape especial para skysurf. Não quebra, mas enverga, dando instabilidade.

/ Créditos: Acervo Trip

Como foram as 24 horas que antecederam o salto? Senti muito estresse e ansiedade semanas antes. No domingo, acordei lá pelas 5h da manhã e fui correr porque não aguentava mais ficar na cama. Quando você tem muita responsabilidade, vêm todas aquelas ideias do subconsciente. Cogita que pode dar errado. Eu pensava: ‘Tenho que fazer tudo direito. Esse não vai ser o meu último banho nesse banheiro maravilhoso. Amo a mulher com quem acabei de casar, tem que dar tudo certo’.

Essa paúra te dá prazer? Prefiro o outro lado da coisa, o lado agradável da emoção, da aventura, não o medo da morte. Esse tipo de coisa funciona muito bem para te deixar em estado de alerta, para você realmente respirar adrenalina e saber que o negócio não é brincadeira. Para não ficar um segundo fora de controle, nem sem preocupação. O medo é uma defesa do organismo da gente, justamente para te deixar em estado de alerta, exatamente para tentar evitar o erro.

Você teve apoio de família e amigos para esse desafio? Foi um salto em segredo total. Só sabia o pessoal muito próximo, nem meus amigos paraquedistas sabiam. Fiz questão de não contar. Um misto de medo de “uruca” e de cair na boca do povo, deixar todo mundo na expectativa. Definitivamente, isso não ajuda nada. À primeira vista, as pessoas acham que sou psicopata. Ninguém consegue ter muita noção do que significam 20 anos de esporte radical nas costas e 17 anos voando de asa. Tem muito embasamento técnico.

VEJA NO TRIP TV: Um voo de planador com Luis Roberto Formiga

Quando você salta de altitudes muito elevadas, o oxigênio diminui por mais que você respire com uma garrafa. Há um prejuízo na capacidade de raciocínio? Neste salto, fui me oxigenando conforme ia ganhando altura. Estava fazendo um processo de concentração, de yoga. Fui subindo e cantando mantras, para manter um nível compatível de adrenalina, não deixar extrapolar. Na hora que fiquei sem máscara de ar, respirava profundamente e soltava lentamente. Tudo para oxigenar. Administrei cada segundo de ar, desde que tirei o pé do chão até voltar a colocar. Por isso, não senti muitos “brancos”.

E se um dos três paraquedistas tivesse um “apagamento” (eles têm o cypres, aparelho que aciona o pára quedas automaticamente aos 5 mil pés)? O que pode acontecer quando um cara pousa, apagado, no meio da cidade? É muito difícil isso acontecer. O que podia acontecer seria o cara perder um pouco de raciocínio, mas estava totalmente descartado de alguém realmente apagar e precisar do cypres. Se acontecesse uma colisão, algum problema, onde alguém desmaiasse, iria abrir um paraquedas reserva. Esse aparelho abre bem próximo do chão. O tranco da abertura é suficiente para acordar o cara.

Então, teoricamente, com o cypres qualquer um pode ser arremessado de um avião, sem grandes chances de morrer, mesmo que nunca tenha saltado? Não, não é isso. O cypres aciona um paraquedas. Ele já salvou mais de 50 pessoas no mundo que, realmente, tiveram problemas de colisão. Em saltos de mais de 200 pessoas, por exemplo, um paraquedas não abriu e outro atleta caiu em cima do paraquedas. Naquele nosso salto não havia esse tipo de perigo.

Um salto bem concluído te dá a sensação de missão cumprida ou você fica querendo mais? Hoje, quero me concentrar em registrar imagens e produzir aventuras esportivas para TV, revistas e jornais, onde o risco não seja como nesse salto. A gente vai sempre estar envolvido em desafios, buscando coisas sensacionais.

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