No front: jornalismo em quadrinhos

Portal colaborativo Cartoon Movement reúne trabalhos de cartunistas de mais de 80 países e mostra que, em caso de conflitos políticos, a verdade nunca é uma só

por Carol Ito em

Trip / Política / Quadrinhos / Guerra

Um dos mestres do jornalismo em quadrinhos, o maltês Joe Sacco acredita que as HQs têm algo de visceral que leva o leitor imediatamente ao tempo e ao lugar que o autor descreve. Em Palestina, seu livro mais conhecido, por exemplo, o leitor é transportado para o cenário da guerra entre palestinos e israelenses, em meio às suas memórias e impressões sobre o conflito.

Registros como esse se tornaram alternativas de conteúdo autoral e independente para que as pessoas tenham acesso a diversos de pontos de vista sobre temas como conflitos geopolíticos, terrorismo e desigualdade social. Assim, a cada dia surgem novos cartunistas que aproveitam as possibilidades da internet para publicarem e divulgarem seus trabalhos de maneira independente. Há cinco anos, dois deles tiveram a sacada de criar um portal colaborativo que reunisse cartuns políticos, reportagens em quadrinhos e, o mais interessante, com imagens seriam enviadas de várias partes do mundo.

Livro

No Cartoon Movement, idealizado pelo cartunista holandês Tjeerd Royaards e o norte-americano Matt Bors, em parceria com os jornalistas holandeses Thomas Loudon e Arend Jan van den Beld, já foram publicados cartuns de mais de 300 colaboradores de 80 países. A frase “there’s more than one truth” (“existe mais do que uma verdade”), abre o portal. Royaards, o editor-chefe, explica que o slogan reflete a filosofia jornalística de que não existe narrativa objetiva e que todo assunto pode ser visto de diferentes maneiras.

“Numa época em que ninguém mais posta nada no Facebook ou Twitter sem uma boa imagem, o jornalismo em quadrinhos tem um grande potencial.”
Tjeerd Royaards

O conflito na Síria, por exemplo (assunto que, inclusive, gerou comoção mundial por conta da divulgação de cartuns e fotos nas redes sociais), foi abordado de diferentes formas pelos colaboradores. “Alguns dos nossos cartunistas usam seus trabalhos para atacar Bashar al-Assad [presidente Sírio]. Outros o veem como um mal necessário para derrotar o ISIS [organização do Estado Islâmico] ou são ainda mais explícitos em favor do ditador, quando consideram que a Síria é alvo de interesses norte-americanos”, explica Royaards. O editor diz não concordar pessoalmente com o regime Assad por ter ouvido histórias de um cartunista sírio refugiado, no entanto, a plataforma mantém o debate aberto e diversificado.

“Syria”, de Akram Raslan

Se há uma coisa em comum entre a maioria dos cartuns publicados no CM é que, diante de ataques como o que ocorreu em Paris em novembro deste ano, o posicionamento é sempre contrário à violência. “Quando você olha para os trabalhos de cartunistas sírios e de outros colegas do Oriente Médio, em geral, percebe que o extremismo é um tema em comum. Eles alertam sobre os perigos do extremismo religioso e político, indicando que sempre se deve pensar antes de agir”, exemplifica Royaards.

“Assad's Regime: Looking into the Future” (“regime Assad: olhando para o futuro”), do palestino Ramzy Taweel

Além de cartuns políticos, o site também publica reportagens em quadrinhos sobre temas variados. Algumas delas, inclusive, são interativas e aproveitam mais os recursos digitais. Entre os autores que já publicaram está o jornalista brasileiro Augusto Paim, que publicou So close faraway, com Bruno Ortiz e Maurício Piccini, sobre a vida de um morador de rua de Porto Alegre.

Royaards acredita que o jornalismo em quadrinhos permite construir narrativas que aproximam o público de temas delicados. Para ele, esse tipo de formato vem atraindo o interesse de grandes veículos de comunicação, como o jornal britânico The Guardian, que lançou o projeto Open Comics este ano. Isso sem contar que “numa época em que ninguém mais posta nada no Facebook ou Twitter sem uma boa imagem, o jornalismo em quadrinhos tem um grande potencial”, argumenta.

Tjeerd Royaards, editor-chefe do Cartoon Movement, acredita que cartuns são “opiniões visuais” - Crédito: Iiris-Lilja Kuosmanen
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