Deus-mercado

Fui violentamente agredido pelo consumismo, essa doença da vontade

por Luiz Alberto Mendes em

Trip / Comportamento / Dinheiro / Trabalho / Consumismo

Meu pai me contava dos tais “tamancos voadores”. Dizia que sua mãe tinha mais pontaria que os pistoleiros do Velho Oeste americano. Raras vezes ela errava; ele, por exemplo, nunca havia tido essa “sorte”. Era uma portuguesa enorme, dessas de bigode, forte como um touro. E, para mim, um touro bravo mesmo. Vivia querendo me bater e ai de mim se deixasse as orelhas ao alcance dela. Quando era obrigado a ir a sua casa, ficava esperto da chegada até a saída. E ainda assim saía de orelhas quentes e a cabeça doendo de seus croques. E tinha que chegar lá manso e dócil: “Bença, vó”.

E beijava aquelas mãos enormes e fedidas. Depois, devia sair beijando a mão de todos que estivessem no local. Era sinal de educação, esse adestramento de cães. Apanhei muito para chegar àquela submissão e anulação. Meninos sofriam. Dava vontade de vomitar. Na minha mão, não permito que ninguém se atreva a encostar a boca.

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Meu pai me contava que uma vez saiu correndo do tamanco da mãe e havia um prego da correia exposto, furou sua orelha, sangrou e ficou espetado como um brinco. Ele me avisava: se ela pegasse pra bater, o negócio era correr, porque ela batia pesado. E em zigue-zague, porque ela não vinha atrás, mas um tamanco estaria voando em minha direção, com certeza. Meu pai não podia interferir, porque acabaria sobrando pra ele, que não andava muito certo também. A velha batia nos filhos casados, na frente dos netos e tudo.

Por que conto essa história? Não sei bem, mas tem a ver com os “pombos voadores” de agora. Os envelopes das contas colocadas na caixa de correspondência, fruto do consumismo. É duro pensar que se você ficar um pouquinho só mais feliz, no fim do mês, com o perdão da palavra, cê tá fodido. E quando você está pendurado em cartões bancários, financiamentos, prestações a perder de vista e fica até com medo de o agiota mandar te pegar... Tudo porque é preciso ter aquele carro do ano ou aquele tênis da hora. Salivamos como cães nas grelhas giratórias para assar frangos ao bater os olhos naquelas vitrines construídas com base em técnicas e práticas para nos roubar o olhar e a vontade. Metodologias psicológicas construídas pelo homem para salvar o homem, mas que são desviadas de função pelo deus-mercado, para nos transformar em compradores.

Saí da prisão esperto contra o consumismo. Achava um absurdo comprar roupas pela grife delas. Afinal, vestia-se a roupa, e não a etiqueta. Parecia que o rabo estava abanando o cachorro. Mas, na verdade, fui violentamente agredido pelo consumismo, essa doença da vontade. Nos shoppings é que a gente sente mais esse aperto. Aquelas lojas com luzes brilhantes e vitrines artisticamente expostas sob sofisticadas técnicas de marketing derrubam qualquer resistência. Enganaram-me inúmeras vezes, derrapei e vacilei feio muitas vezes.

Chuva de boletos

A doença procura sua vítima ou vice-versa? Não sei. O fato é que nos primeiros tempos só vi boletos de cobranças. Havia comprado tudo o que eu precisava em uma casa. Tudo parcelado. Passei mais de dois anos na maior dureza: todo dinheiro que ganhava, já ficava no banco. Estava mergulhando mais profundamente, caindo na armadilha social. Cheio de dívidas e sem dinheiro para pagar, o que eu ia fazer? Essa é a maior armadilha para o egresso. O sujeito sai da prisão ingênuo, cheio de vontade de ser reconhecido, como se tivesse um cartaz no peito: “Olha eu aqui!”. Ele está vivo, cheio de amor pra dar e com vontade de estar com todos e também de ser feliz.

Então se veste na “onda”. E como “todo jovem quer seu automóvel”, no dizer do Melodia, uma casa toda equipada - afinal, ele merece, sofreu pacas. Só isso já estourou a fatura. Agora terá a polícia atrás de si e as grades como futuro. Nem sei o que acontece no caso dos cartões, acho que processam você e, como não terá como pagar, vão buscar o que te venderam. E agora, José? Consegui, em parte, vencer esse vício. Ficava triste quando ia ao shopping e voltava sem ter comprado nada de relevante. E, ao contrário, voltava feliz quando comprava, louco para experimentar novamente, frente a meu espelho. Os “pombos voadores” tomaram conta de minha caixa do correio. Mas fui equilibrando vaciladas em meio a acertos, até que, 14 anos depois, procedo normalmente como todo cidadão. Errando menos e acertando mais. Mas errando e acertando, fazendo minha parte no mundo.

Créditos

Imagem principal: Barbara Krueger

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