Mudança de roteiro

O cineasta Heitor Dhalia foi à Índia filmar um documentário com grandes mestres da ioga. Lá, entendeu que havia outras formas de enfrentar o mimimi do ego e o turbilhão da vida moderna

por Lia Hama em

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Heitor Dhalia estava de férias na praia de Porto de Pedras, em Alagoas, quando foi apresentado ao fotógrafo Michael O’Neill. Na época, o americano, famoso pelos retratos de artistas e celebridades, estava preparando um livro sobre ioga para a editora Taschen. Quando a obra On yoga: the architecture of peace ficou pronta, o amigo e produtor Alcir Lacerda Filho sugeriu que fizessem um documentário homônimo a partir dela. "Olhei aquelas fotos incríveis e falei: ‘Bora fazer esse filme!’", conta Heitor, cineasta pernambucano de 46 anos e diretor de longas como À deriva (2009) e Serra Pelada (2013).

Dois meses depois, ele embarcava rumo à Índia e aos Estados Unidos numa jornada em que entrevistou, junto com Michael, alguns dos mais importantes pensadores, mestres e gurus da ioga. Na pauta, temas fundamentais como a busca pela felicidade, as armadilhas do ego e o significado da vida e da morte. O documentário em inglês será lançado no primeiro semestre de 2017. Cético e sem nunca ter praticado uma postura de ioga até então, o diretor se tornou um adepto da prática criada há 5 mil anos e conta sobre como fazer este filme mexeu com seu jeito de ver o mundo.

Como foram as filmagens na Índia? Passamos quase um mês entre Nova Délhi, Rishikesh e Haridwar, refazendo alguns dos trajetos que o Michael realizou ao longo de dez anos, quando fotografou os mestres da ioga. Michael mergulhou nesse assunto desde que ficou com o braço direito paralisado – justamente o que ele usa para trabalhar – e, com a ajuda da ioga, se curou. A ideia era fazer um registro antes que esses mestres morressem e, de fato, vários dos que estão no livro já se foram, como Shri K.Pattabhi Jois e B.K.S. Iyengar. Quando vi as imagens, fiquei com vontade de dar voz a esses gurus, saber o que eles têm a dizer sobre o nosso tempo.

Crédito: Arquivo pessoal

Essa viagem espiritual mudou sua visão de mundo? Olha, venho de uma tradição ocidental cética, sou filho de pais comunistas. Todos os autores que eu gosto são céticos, pessimistas e corrosivos, como Machado de Assis, Dostoiévski e Balzac. Mas sempre tentei contrabalancear isso olhando para outras coisas, como astrologia ou candomblé. Não sei se acredito, mas me interesso. Não quero romantizar para não ser falso, mas essa viagem à Índia foi especial, me fez refletir sobre outra possibilidade de compreensão da vida. Vivenciei coisas inexplicáveis e falei: "Caralho, isso não pertence ao conjunto de explicações comuns".

Que experiências marcaram você? Fui a um encontro com um guru jamaicano chamado Mooji, em Rishikesh, cidade que tem um festival religioso famoso. Me senti numa reedição de Woodstock. Duas mil pessoas se reuniram para ouvir o cara. Fizemos uma fila e ele começou a cumprimentar um a um. Quando chegou a minha vez, ele me deu um abraço e senti uma energia muito forte. Uma guia espiritual me falou que o Mooji tem uma conexão com a fonte de energia. As pessoas ficam ao lado dele para receber um pouco daquilo. Fiquei impressionado com o grau de felicidade daquelas pessoas, que deixaram tudo para trás para seguir o cara. É uma perspectiva de vida completamente diferente.

Encontrou sadhus [ascetas] pelo caminho? Muitos. São caras que vivem sem roupa, sem família, sem emprego. A partir de uns 40 anos eles abandonam as coisas terrenas e começam a se preparar para a próxima vida, se dedicam à vida espiritual. Vivem de doações porque são vistos como santos. São meio guerreiros, usam dreads e pintam o rosto com cinza branca. Não sei se acredito em reencarnação, mas ver essas pessoas me fez rever vários conceitos.

Que conceitos? Nossos pequenos dramas do cotidiano. São narrativas, conflitos que a gente cria o tempo todo: "Ah, minha namorada não me dá atenção" ou "meu chefe não me dá valor". É o mimimi do ego. O ego é um grande aliado da realização e um grande movimentador do mundo, mas, ao mesmo tempo, é um grande adversário porque nos afasta do que a gente realmente é. Ele nos coloca em armadilhas.

Qual a visão desses iogues sobre o ego? É como se todos nós fizéssemos parte de um mesmo fogo universal e a nossa alma individual, ou o ego, fosse uma fagulha. Quando a gente está nessa fagulha, esquece que é parte da fogueira.

Mudou sua relação com o dinheiro? Eu continuo sendo capitalista, mantenho esses valores, mas fiquei mais saudável, melhorou minha qualidade de vida e o que eu penso. Mas acho que vou precisar de algumas encarnações para me tornar uma pessoa melhor [risos]. Entretanto, hoje, sempre que estou angustiado com questões banais, pelo menos tenho um ponto de inflexão, outro lugar para olhar. A gente acha que o transitório é permanente e isso é um erro. Você ganha dinheiro e depois perde; o amor acaba; a vida vira morte, outro ciclo começa, é o movimento do mundo. Não adianta ter apego. A gente vive com infinitos desejos. Um dos gurus, o Vijay Singh, que é um sadhu, falou: "Reduza sua lista de desejos, assim talvez você fique mais satisfeito".

Mas não é uma visão comodista sobre as coisas? Claro que a insatisfação é o motor do mundo. Não ter desejo nenhum pode ser um problema, mas até que ponto deve ir esse desejo? O que você quer? Quer ficar rico, quer ter um amor, quer ter uma família? Muitas vezes a gente nem reflete sobre o que deseja de verdade. O mundo é tão cheio de distrações. A ioga ajuda a te colocar inteiro, no momento presente, e a acessar um lugar mais profundo da existência.

Você encontrou o sentido da vida? Aristóteles fala que o sentido da vida é a transformação. Acho que a ioga é uma prática que prepara para essa transformação. Guru significa aquele que tira a escuridão de você e deixa a luz que já está lá brilhar. Conheci pessoas maravilhosas e muito elevadas espiritualmente. A Gurmukh Kaur Khalsa, líder da Kundalini [uma das linhas da ioga], tem um orfanato na Índia. Isso tem a ver com uma prática da ioga, o bhakti, que é a devoção. É você se colocar a serviço do outro.

Crédito: Divulgação

A ioga pode ajudar a melhorar o mundo? A Gurmukh fala isso: se o mundo for salvo um dia, será pelo caminho da ioga e da meditação. Porque realmente elas te colocam num estado de bem-estar muito grande, de atenção e presença. É uma prática de mais generosidade com você mesmo e com o outro. Se você olha para onde o mundo está caminhando, a economia de compartilhamento, a preocupação com o planeta, com os alimentos orgânicos, acho que tem uma tendência de mudar certas práticas. Sabemos que o capitalismo destrutivo não funciona, que regimes totalitários –  de direita ou de esquerda – não funcionam. Se a gente quiser se salvar, tem que abandonar a busca incessante pelo poder, pela acumulação, e entrar em uma era em que o ego não esteja na primazia das coisas.

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