Um furo no futuro

As doenças serão contidas antes mesmo que aconteçam. Mas quem será esse homem de 120 anos?

por Luiz Alberto Mendes em

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A ciência nos garante que o corpo humano pode viver cerca de 120 anos. E realmente temos venerado velhinhos centenários, mas no bico do corvo, só pele e osso, a maioria gagá – eu prefiro partir antes de chegar a esses estágios existenciais. O homem chegará a essa idade e não vai demorar, basta lembrar que até a década de 50 eram raros os brasileiros que chegavam aos 50 anos; nos anos 2000, essa baliza chegou aos 70 anos. E já quer ultrapassar os 80.

Tenho impressão de que, ao fim das pesquisas, os cientistas concluirão que ao vencermos a barreira centenária teremos corpos de aço e viveremos apenas trocando peças. O problema seria, portanto, o prazo de validade do cérebro. Será que ele aguentaria todo esse tempo permanecendo sadio, ou precisaremos fazer transplantes de cérebro também? Quem ou o que seremos? Um acumulado de dados informativos? Estaremos presos na matrix?

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A mim, interessa saber se até lá as pessoas terão percebido o quanto são egoístas e o quanto tudo que nos alimenta e nos fornece energia também desgasta o planeta e, aos poucos, o mata. E os netos dos nossos netos, nossa matriz, nossa continuação, nossa existência para além do tempo e do espaço. Há cientistas que consideram que nós já matamos o planeta. A camada de ozônio, aquela que nos protege dos mortais raios solares, segue encolhendo com a emissão de gases venenosos de nossos carros, fábricas... Assim como continuam o desmatamento, a poluição das águas e do ar, as queimadas.

Minha primeira condenação foi a 30 anos de prisão, uma pena mais cruel do que a prisão perpétua ou a pena de morte. Explico: como o homem brasileiro ainda tinha o índice de longevidade pouco acima de 50 anos e eu tinha 20, aquela era uma pena para ficar o resto da vida na prisão. As penas à prisão perpétua ou à morte, onde existem, podem ser comutadas pelo Presidente ou pelo Governador do Estado, por “n” motivos. Até pela própria generosidade do mandatário. Já para mim era sem chances. Eu era “sem futuro”, mesmo. Foram chegando mais penas de outros delitos e, quando percebi, estava com mais pena de prisão a cumprir do que vida a viver. Eu ia ficar em dívida com o executor de minha sentença. Hoje, escrevo esta coluna aos 65 anos.

Criamos, destruímos

Quando eu era novo, os valores de convivência social eram levados a sério. Por exemplo, em caso de desastre, as primeiras a serem salvas eram as mulheres e as crianças. Homens depois, se desse. Lutávamos com imensas dificuldades. Sofríamos imensamente com as adversidades e os limites, mas tínhamos em mente que éramos a “humanidade”. Havia os “nobres”, sempre a tudo explorar, dominar e escravizar. Eles se achavam melhores, “sangue azul”. Um cenário parecido com o livro A revolução dos bichos, de George Orwell. Os porcos eram mais animais que os outros animais. Sabemos hoje que não somos melhores ou piores que os outros. Estamos todos no mesmo nível, com raríssimas exceções.

A palavra “humanidade” perdeu o sentido sofrido anterior. As pessoas pensavam, tinham fé e viviam para o futuro. Educava-se os filhos para o futuro; economizava-se para o futuro; a gente se guardava para o futuro; havia até uma ridícula membranazinha da qual dependia o casamento. Mas, quando o cenário da ciência foi se descortinando, o homem se percebeu criador. Hoje determina o sexo de alguns animais, como os peixes e répteis. Transforma o rústico pé de limão-bravo em produtoras laranjeiras. A genética fez a ovelha Dolly ganhar vida em tubos de ensaio, como há séculos dominou a criação das plantas. Algum supercomputador fará o sequenciamento do DNA de todas as doenças. Elas serão contidas antes que aconteçam. O tratamento será direcionado a células doentes. A nanotecnologia, os potentes observatórios astronômicos, a robótica, a física quântica e outras ciências são o futuro.

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Cada um de nós colabora para a destruição do planeta, à sua maneira. Quando você liga o carro e começa a emitir gás carbônico; liga o chuveiro e começa a sugar energia elétrica; quando acabamos com as matas para plantar soja ou criar bois (somos cúmplices ao entrar no açougue); até quando jogamos um papel na rua que, acumulado a outros, produz as enchentes. Os índios não destruíam; eles não se diferenciavam. Para o índio, a terra, as árvores e os animais são parte de seu corpo. A minha pergunta final se prende ao começo: quem será esse homem de 120 anos? Ele será apenas algumas décadas mais ambicioso, oportunista e egoísta, ou o quê?  

Créditos

Imagem principal: Obra Runo Lagomarsino (2018) / Cortesia do artista e Mendes Wood DM São Paulo / Brussels / New York

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