Tem menina na barca

Duas meninas e nove homens num barco por 15 dias

por Layla Motta em

Duas meninas, nove homens e 15 dias num barco. Layla e Letícia venceram corais e o medo do desconhecido para surfar as melhores ondas de suas vidas com os veteranos

 

 

 

Depois de meses de planejamento, finalmente chegou o dia da partida para as Maldivas, um pequeno país no oceano Índico, ao sudoeste da Índia. A barca foi fechada em 11 pessoas (o mínimo para um barco só nosso seriam dez). Quase todos já tinham feito essa viagem. Mas dessa vez seria diferente: duas meninas – no caso, nós – também iriam. Sentíamos uma grande euforia misturada com um medinho de embarcar para o outro lado do planeta.

Aos poucos a turma foi chegando ao aeroporto, mas não tínhamos intimidade com ninguém além do meu pai e dos meus três irmãos, que faziam parte da trip. Ainda tímidas, cumprimentamos um a um: o primeiro contato dos próximos 15 dias de convivência intensa.

Depois de 15 horas de vôo, chegamos ao aeroporto de Dubai, onde teríamos de esperar pelo vôo para as Maldivas. Aeroporto ou shopping? Lá tem de tudo: chocolates, eletrônicos e até carros e helicópteros (à venda!). Ver homens de turbante e mulheres de burca confirmou o quanto estávamos longe de casa – física e culturalmente.

Cinco horas depois, aterrissamos na linda e exótica pista do aeroporto de Male, capital das Maldivas. Exótica porque, de cima, parece uma linha no meio do oceano Índico. E linda pela transparência das águas ao redor.Sentimos o bafo quente e a emoção de sair de um avião, andar 50 metros e entrar num barco típico da região, com a proa alta e desenhada. A alegria dominava todo mundo: uma conspiração de temperatura ideal, água limpa, liberdade, férias, amigos e a promessa de boas ondas.

Ilhados no paraíso
Em meia hora chegamos ao Huduran Fushi, nosso hotel/resort, em Lohis. Estávamos esperando algo rústico, mas nos surpreendemos ao ver que tinha quadra, piscina e uma espécie de spa, que oferecia massagens. Ficar em resorts é uma alternativa de estada na região, e as opções vão dos simples aos sofisticados. No que ficamos, fomos recebidos com um Welcome Drink sem álcool, já que o país é islâmico. Por isso, eles enchem a bebida de cores, cheiros e açúcares, deixando o aperitivo bonito e cafona.

Foram três dias de liberdade em uma ilha paradisíaca com praias lindas, lagoas com peixes coloridos e, o mais importante, uma esquerda perfeita, cercada por corais – era preciso atravessálos para chegar à onda. O mar estava grande. Sentamos no deck e ficamos sentindo a brisa, observando a paisagem.

Convivência sem stress
O barco era mais confortável do que imaginávamos. E passar 24 horas juntos foi tranqüilo. Cada um tinha seu próprio quarto e nós duas dividíamos um. Atracamos entre dois picos: Chickens (ondas de esquerda rápidas e longas) e Colas (ondas de direita tubulares e cavadas), uma esquerda e uma direita. A Letícia, há seis meses sem surfar, não caiu no mar no primeiro dia, preferiu se divertir com a câmera do Pepê, um dos integrantes da turma, que é fotógrafo profissional. Eu resolvi me aventurar entre os marmanjos no primeiro fim de tarde. Dois dos meus irmãos me deram o maior incentivo, um do deck e o outro me ajudando a atravessar os corais. A viagem toda foi assim, todos os homens nos apoiando a surfar, de igual para igual, as melhores ondas de nossas vidas.Nesse clima, não tinha espaço para ficarmos tímidas por sermos duas meninas entre eles.

De cima da prancha dava para ver todo o fundo do mar, corais, peixes azuis passando, às vezes tartarugas mansas ou um bando de golfinhos giratórios. O oceano Índico tem um misticismo único, podíamos ouvir do mar o canto vindo do minarete, chamando os fiéis para o culto. Esse canto, somado ao fim de tarde e às ondas perfeitas, formava a energia mais forte do lugar.

Peixe fresco e muito curry
Companhia para viagem não é fácil, ainda mais ilhada. Mas nós tivemos a sorte de estar num grupo em que a harmonia fluía. Irmãos, pais, amigos, cada um na sua, e todos juntos, dormindo, acordando, comendo. Tínhamos dois barquinhos à disposição para nos levar aos picos de surf ou para a terra, e as opções de diversão eram maravilhosas: pegar onda, megulhar nas águas cristalinas do corais, pescar ou caminhar no atol de Thulusdoo. Esse é um dos 26 atóis das Maldivas, que abrigam as 1.196 ilhas do país, sendo apenas cerca de 200 delas habitadas. Thulusdoo tem um vilarejo de pescadores pitoresco e, acredite, uma fábrica da Coca-Cola, feita com água do mar dessalinizada. Daí o nome do pico de surf: Colas. Tem até internet e um mercadinho, mas isso é toda a “vida urbana”do lugar.

No quesito gastronomia, estávamos preparadas para um cardápio enxuto. Os caras que já haviam feito essa trip contaram que o café-da-manhã era bolachinha recheada com chá. Mas tivemos uma boa surpresa: o café tinha frutas, ovos, torradas. O único detalhe é que o curry estava presente em todas as refeições. Em um dos dias, meu pai pescou um peixe, que, na mesma hora, o cozinheiro abriu, limpou e transformou em sashimi.

Sobre cultura, história, clima e ondas do país, pesquisamos no Google e no guia Lonely Planet que o Paulo [Lima, um dos tripulantes e editor da Trip Editora] nos emprestou. Mas foi o Anju, nosso “surf guide”, companheiro pra todas, que nos deu uma visão além das ondas perfeitas e das ilhas de areia branquíssima cercadas por um mar azul-turquesa. Ele fazia parte do pacote do barco e falava também inglês (a língua oficial das Maldivas é divehi). A partir dele, conhecemos um país de 300 mil habitantes, marcado por uma colonização maluca (a história é dividida em antes e depois da conversão ao islamismo) e pela ira da natureza (o tsunami devastou muitas ilhas). O resultado é um povo receptivo e bem-humorado. Por isso mesmo, ficamos espantadas quando descobrimos um paraíso com um governo repressivo e corrupto.

Além das ondas, a experiência mais legal da viagem foi o convívio entre as pessoas, o fato de dividirmos espaços e momentos. E ter a certeza de que a vida, tão simples, é tão boa.

 

 

 

DICAS

QUEM LEVA A Emirates, via Dubai, e a South Africa ou a Qatar, via África do Sul. As passagens estão inclusas nos pacotes das agências.

PARA LEVAR NA MALA Máscara de mergulho e snorkel. Alguns picos oferecem de graça, mas a maioria cobra aluguel. Vale a pena ter o seu próprio material para mergulhar nesse lugar lisérgico. Vitamina C. Para agüentar o ar-condicionado do avião e o ritmo acelerado de esportes. Botinha de surf. Apesar de não ser preciso para o surf, elas são boas para passeios pelos reefs. Não leve bebida alcoólica, já que o país é muçulmano e proíbe a entrada. Deixe essas compras para a volta (o free shop de Dubai é gigantesco!).

ONDE SURFAR North Male Atoll (de abril a outubro), onde estão os picos mais conhecidos. Outer Atolls (de setembro a novembro), onde quase não há crowd. Principais picos de North Male Atoll: Lohis, esquerda rápida e com longas sessões tubulares, forte e de boa qualidade. Ninjas, direita, rola um tubo pesado. Colas, direita rasa e tubular, bem cavada. Chickens, esquerda em frente a Colas, rápida e longa, animal! Pasta Point, esquerda consistente, perfeita e longa, quebra de quatro a oito pés com várias sessões tubulares. Sultans, direita consistente e longa, com ótimas sessões no inside. Honkys, à direita de Sultans, essa é uma esquerda comprida, rápida e tubular. Jailbreaks (Jails), o pico leva esse nome porque antes havia uma prisão lá. Era restrito, mas hoje é liberado. Direita tubular e rápida.

ONDE FICAR Você pode ficar em resorts ou em barcos. As duas opções são organizadas por agências especializadas em surf trips. Fomos pela Nivana, www.nivana.com.br, que exige no mínimo dez pessoas para um barco exclusivo. Dá para incluir um hotel no roteiro. Ficamos três dias em Lohis, no resort Huduran Fushi, http://www.fiestaholidays. com.au/hotels/huduranfushi.html. Em geral, um pacote inclui cozinheiro, piloto e guia, três refeições por dia e passagens aéreas por cerca de US$ 4 mil por cabeça (quanto mais gente, menor o valor).

É BOM SABER A moeda oficial das Maldivas é a rufiyaa, mas o dólar americano é aceito em quase todos os lugares. Tem que ter vacina contra a febre amarela.

 

Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Arquivo Pessoal
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Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
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Crédito: Mauricio Pepê
Crédito: Mauricio Pepê
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