Lellêzinha wins

Só neste semestre, Lellêzinha estreou em Mister Brau, lançou sua primeira música solo, virou trilha de novela e se prepara para chegar ao cinema. A nega braba parece ter força para fazer o que quiser

por Nathalia Zaccaro em

Tpm / Televisão / Negritude / Música / Favela

 Quando ligou a TV e viu um casal negro cheio da grana, donos da porra toda, protagonizando uma série em horário nobre na TV Globo, Lellêzinha sentiu que aquilo era histórico. “A primeira vez que vi Mister Brau, pensei: ‘Quero estar lá’”, lembra. No último dia 10 de abril, ela estreou na série como Yasmin, uma garota que sonha em ser cantora e cai nas graças de Brau e Michele, personagens de Lázaro Ramos e Taís Araújo. Lellêzinha é dessas pessoas que parecem ter força para conseguir tudo o que querem.

A carioca tem 20 anos, nasceu na Praça Seca, periferia do Rio de Janeiro, e sempre soube que não era igual a ninguém. Aos 11, ela já era famosa na comunidade (e na internet) como a garota que dançava funk de um jeito único. Mas levou um tempo até que conseguisse convencer a mãe e a avó de que cruzar a cidade para dançar passinho em outras favelas era uma ideia razoável.

“Eu conhecia todo mundo pela internet. Mas eu não podia colar nos duelos. O jeito era convencer meu irmão mais velho a ‘sharingar’ [copiar] os passos que ele via no baile e me ensinar tudo em casa depois”, conta. Mas não adianta nada só copiar a dança de alguém e soltar na internet. “Tinha que impressionar, inventar coisas novas”, diz.

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Com Taís Araujo e Lázaro Ramos, em Mister Brau; Em seu primeiro aniversário, com a avó Maria José e a mãe, Luana - Crédito: Mister Brau Globo/João Miguel Junior e Acervo pessoal

Aos 14, ela descolou o aval em casa e começou a participar de batalhas de passinho em várias partes do Rio. Foi a primeira menina a cavar seu espaço no rolé, que até então era totalmente dominado por garotos. “Minhas amigas me falavam para parar de participar, porque era coisa de homem. Os caras me mandavam ir lavar louça. Era meio escroto. Mas eu gostava de dançar. Não deixei de ser mulher por isso, não perdi minha sensualidade. Consegui ter meu espaço e fazer os moleques me respeitarem.”

O jeito original de Lellêzinha a levou a estrelar um clipe publicitário durante a Copa do Mundo de 2014, ao lado do time dos sonhos do passinho carioca. Ela foi a única menina selecionada. “Foi a primeira vez que fiz maquiagem profissional, produção de cabelo. Me olhei no espelho e comecei a chorar. O maquiador perguntou o que estava errado e respondi: ‘Nada, é que estou muito bonita e nunca tinha me visto assim’”, relembra.

O sucesso do clipe foi imediato e a turma decidiu oficializar a parceria.   Nascia ali o Dream Team do Passinho, grupo com o qual Lellêzinha se descobriu cantora e se apresentou na abertura dos Jogos Olímpicos, no Maracanã, em 2016, no palco do Rock in Rio ao lado de Alicia Keys, em 2017, e alcançou quase 20 milhões de visualizações no YouTube com as músicas “Oi, sumido” e “Vida”, parceria com Ricky Martin.

Ainda em 2014, quando o Dream Team começou a despontar e chamou a atenção da mídia para Lellêzinha, pintou o convite para um teste de Malhação. Ela nunca tinha atuado, nem mesmo feito um teste. Mas foi. E passou. “Começaram a parar a minha avó na rua e dizer: ‘Minha neta se inspira na sua’”, conta. “Minha família entendeu que o que eu estava fazendo poderia ser uma coisa boa. Até então, tinham medo do funk, do passinho. Não entendiam meu sonho porque não tiveram tempo para sonhar.” 

Depois disso, em 2016, engatou outra novela, Totalmente demais e participou da série Segredos de justiça. Este ano, fez uma versão da música “Beleza pura”, de Caetano Veloso, para a trilha da nova novela das nove, Segundo sol, e estreia em breve no cinema. 

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No palco com o Dream Team do Passinho, no Rio de Janeiro, em 2017 - Crédito: Midia Ninja

Nega braba

Ao lado de Aílton Graça, Juliana Alves e Lázaro Ramos, ela será Greice Daiane no longa Correndo atrás, dirigido por Jeferson De e com equipe e elenco majoritariamente negros. “Caraca! Meu primeiro filme! E não é só isso. O diretor me pediu para compor uma música da trilha”, conta. A encomenda foi escrever pensando em mulheres negras. “Fiquei desesperada. Mas aí entendi que devia olhar para mim. Falar de mim é falar de todas as mulheres negras da favela”, pensa.

“A batalha é parte do show/resistência é dom”, escreveu em “Nega braba”, sua primeira música solo, um rap que está na trilha do longa. O título é uma referência explícita ao temperamento decidido de Lellêzinha, mas é também uma homenagem para sua avó, Maria José. “Eu adorava ir atrás dela, onde quer que ela fosse. Já vi coisas sinistras dentro da igreja com ela. A gente ia aos cultos de madrugada, às vigílias, e os traficantes ficavam na porta e pediam: ‘Tia, ora aí pra mim’”, lembra.

Nessa época, Maria José era missionária evangélica. Hoje, ela é pastora. “Dentro da igreja existe um preconceito enorme contra mulheres. Vejo que minha avó não é tratada como um pastor é tratado. Mas ela consegue se impor, é a verdadeira nega braba.”

Lellêzinha passou a infância colada na avó. Quando o pai morreu, vítima de uma troca de tiros na favela, ela tinha 6 anos. Sua mãe e as duas avós se uniram na criação da menina. “A maior estatística de homem morto é homem preto. Dentro da favela, história paterna é sempre complicada. Se você não tem pai ausente, tem pai morto. Todo mundo tem uma história parecida com a minha.”

Uma das primeiras apresentações ao vivo de “Nega braba”, que marca também o lançamento da carreira solo de Lellêzinha, aconteceu em março deste ano, na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Na ocasião, centenas de pessoas se reuniram para homenagear a vereadora Marielle Franco, executada na cidade uma semana antes. Lellêzinha cantou seu rap, no gogó, descalça. “Foi muito forte estar lá, abraçar a família dela. A música é muito sobre ela, sobre nós e sobre como estão tentando nos calar”, explica.

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"Eu gosto de ser sensual no palco. Tem gente que acha que estou me oferecendo. Já tive que botar limita em cara que tentou me agarrar à força" - Crédito: Alex Batista

“Não foi sempre claro para mim o que significa ser negra. Não faz tanto tempo que entendi por que eu, com 6 anos, ficava horas em uma fila de mulheres negras esperando para alisar o cabelo, gastando um dinheiro que eu não tinha”, lembra. Aos 14, quando começou a entender mais profundamente sobre si mesma e levou adiante o sonho de ser artista, ela decidiu experimentar o cabelo natural. “Nunca tinha visto meus fios sem química. A transição foi difícil, eu não queria nem sair de casa. Mas depois comecei a me curtir com todo aquele volume e isso marcou o começo de uma nova vida”, explica.

Desde então, Lellêzinha se descobriu como uma mulher que sabe dançar, cantar, atuar, refletir e inspirar. E ser sexy. “Eu gosto de ser sensual no palco, gosto de conquistar. Isso faz parte da minha personalidade. Tem gente que acha que estou me oferecendo. Já tive que botar limite em um cara que tentou me agarrar à força. Me senti vulnerável e entendi que tinha que me defender. Gritei, chutei. Eu não estou dizendo para sairmos na porrada com os homens. Mas, se for preciso, a gente vai”, diz.

Respeitar a si mesma vem antes de tudo. Isso ela aprendeu com a avó, com a mãe. A família é a base, sempre. Mas não só os parentes, também os amigos. A galera que estava lá nas primeiras batalhas do passinho, na comunidade do Orkut, no começo da história. “Eu era conhecida como Lellêzinha Win, porque fazia parte da família Winchester, um bonde na internet que juntava uma galera de favelas vizinhas à minha. Muito tempo depois, descobri que win é vitória em inglês. Aí pensei: ‘É isso aí, eu sou mesmo a Lellêzinha Win. Até hoje é esse meu nome no Facebook, no YouTube. Faz parte da minha história’”, diz a nega braba.  

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