Cinco graus de separação entre sonho e realidade. Ronaldo Bressane, escritor e redator-chefe da revista Trip, traça um mapa das ligações perigosas em torno do mais roqueiro dos mitos literários.
Um dos maiores mitos da literatura, Arthur Rimbaud escreveu toda a sua obra até os 20 anos – Uma Estação no Inferno, Iluminações e obras-primas como o poema “O Barco Bêbado”. Daí parou. Por isso, Rimbaud permanece como símbolo intransponível – ainda mais em nossa época, tão ciosa e viciosa em relação à juventude. Mas o que fez depois que largou a escrita? Em Rimbaud na África, Charles Nicholl historia os 11 anos em que o influente poeta resolveu virar mero mercador de ouro e escravos – como ele mesmo diria em seu verso mais conhecido, “Eu É um Outro”.
Líder dos Doors, Jim Morrison foi o mais francês dos pop stars yankees – tanto é que até morreu em Paris, onde havia se radicado com a intenção de se afastar do showbiz e se concentrar na poesia escrita. O tom visionário de Rimbaud ecoa de modo psicodélico nas letras de Morrison, como em “The End”, canção que abre Apocalypse Now, o filme de Francis Ford Coppola sobre o Vietnã. O paralelismo entre os dois mitos foi devassado pelo crítico Wallace Fowlie em Rimbaud e Jim Morrison (ed. Campus).
Nunca mais Edgar Allan Poe será o mesmo depois que John Rambo, ops, Stallone, filmar a biografia do pai da literatura moderna, o cara que inventou os gêneros terror e policial. Veja como o fortão justifica esse assombro: “Quero mostrar Poe como um artista normal, que tinha altos e baixos como todos nós, e não como ele é normalmente retratado: sombrio, mórbido, um alcoólatra com flashes de brilhantismo”. Well… quando se sabe que Sly irá enquadrar a vida do escritor que talvez tenha sido a leitura favorita de Rimbaud, tudo parece formar um estranho sentido… não acha?
E o que Sylvester Stallone faz aqui? Como Russo, o ex-ícone pornô e atual geriátrico boxeur também teve a vida sombreada pelo poeta. Seu personagem mais, hum, clássico, Rambo (com mais de 108 assassinatos, é o filme mais violento de todos os tempos, para o Guinness), foi inspirado no delicado Rimbaud, já se nota no nome. Isso só aparece na novela que inspirou o filme, First Blood, de David Morrell, em que o ex-combatente do Vietnã é um vagabundo solitário que não se encaixa no sistema – o que lembra a passagem obscura de Rimbaud pela África. Falar nisso, creia: Rambo IV já está em produção.
Ao vivo, Renato Russo costumava cantar trechos de “The End”, a opus magna dos Doors, enxertados aos compassos finais de “Ainda É Cedo”. A voz, as letras e as leituras do bonitão nascido na Flórida foram grande inspiração para o feinho criado em Brasília, como atesta o glorioso verso “Ela gostava de Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud”, no clássico de rodinhas de violão “Eduardo e Mônica”. Russo morreu aos 37, como Van Gogh – e como Rimbaud.
