Todo mundo tem um parente que se chama Antônio. Um pai, um tio, um avô. Eu, por exemplo, tenho um tio, muito querido, Antônio Piza de Souza Amaral, irmão de meu pai. Eles pertencem a uma família de grandes contadores de história, dotados de um talento excepcional para encantar platéias. Como irmãos, descendem de outro Antônio, Antônio de Souza, meu bisavô. Até onde pude averiguar, onde o talento começa.
Antônio de Souza, meu bisavô, vinha de uma família de proprietários de terras. Quando morreu, seu pai deixou a casa-grande e um punhado de dívidas para Antônio. O jovem, depauperado, tinha o sonho de ser médico, então mandou trazer livros de São Paulo e os estudou com afinco. Em pouco tempo começou a aplicar seus novos conhecimentos na cura da população. E Antônio tinha uma arma secreta: contava histórias. E as de Antônio eram especiais. Então vinham os doentes ouvir suas histórias e se curar. E assim foi a vida de Antônio, contando e curando.
Posso imaginar minha avó ouvindo Antônio contar, encantada pelas histórias do pai. Minha avó também sabia contar e encantar. Assim como meu pai e meus tios. Todos são (ou foram) contadores. Me ensinaram, desde cedo, duas coisas sobre as histórias: não precisam ser originais. Quantas vezes não ouvimos a mesma história com deleite renovado? Também não precisam ser verdadeiras. Basta que encantem. E que curem. Em homenagem ao meu bisavô, minhas avós e meus avôs, meus pais, meus tios e tias, quis fazer o filme Antônia: a história de quatro meninas que têm o sonho de viver de cantar. E encantar.
Tata Amaral, 46, também dirigiu Céu de Estrelas e Através da Janela
