Não tá fácil pra quem é otimista

Ou sobre por que continuar viajando em tempos difíceis

por Gaía Passarelli em

Faz dias que estou querendo escrever sobre os motivos para continuar viajando em tempos tão ruins como os nossos. Demorei porque está difícil encontrar. São as semanas seguintes da tragédia em Mariana, na Síria, na Nigéria, em Paris. A maior parte das pessoas que conheço está deprimida de alguma forma. Estamos vulneráveis, amortecidos, assustados. Esses são tempos para quem é otimista.

Semana passada eu estava visitando parques nacionais na Costa Rica, um dos países com “índice de felicidade” mais altos do mundo, onde zoológicos estão sendo fechados e o exército o extinto há seis décadas. E hoje acordei num país que aplaude nas ruas um criminoso notório que age em benefício próprio, numa cidade em que cidadãos acham que os estudantes "têm mais é que apanhar mesmo". Estou falando de São Paulo, Brasil, onde nasci e fui criada: minha casa. 

Costa Rica à parte, a real é que fora daqui não tá muito melhor. Ontem aconteceu a 352ª chacina (definição larga para “pessoa em surto com acesso à armas por meios legais sai atirando em inocentes”) do ano nos EUA, o mesmo país que emitiu um global terror warning no fim de novembro.

Gaía na Costa Rica - Crédito: Arquivo Pessoal

Qual é o sentido de viajar em tempos como esses? 

Tem sentido, sim. Viajar funciona como o detox digital. Longe do conforto do seu lar, você reaprende a pensar por você mesmo ao invés de seguir a manada, a calar suas próprias frustações, a reavaliar suas impressões. É importante para nós, pessoinhas otimistas buscando uma razão pra continar acordando todos os dias. Não só nos ajuda a compreender melhor o mundo, mas também a resignificar nosso lugar nele e a entender o que, para nós, é diferente. 

Mas isso  só vale quando se está disposto a pensar sobre o mundo, é claro. Muitos turistas apenas passam rapidamente pelos lugares sacando fotos para o Instagram e usando uma visão de túnel para corroborar suas próprias teses superficiais e pré-concebidas, que podem ir de “nos EUA tudo funciona” a “os indianos são muito sujos". Essa é a única distinção real entre turista e viajante: o primeiro leva junto suas ideias consigo, o segundo está disposto a mudá-las. Não é sobre dormir em hotel versus dormir em albergue, ou viajar de avião versus viajar de trem. É sobre enxergar, aprender, participar. Viajar pra valer, seja para Katmandu ou para Jundiaí, é sobre ser capaz de observar.

Vivemos num mundo em que falta compreensão de sistema, de responsabilidade, de respeito. E é fácil culpar o outro quando só enxergamos nosso problema imediato. Isso acontece com franceses culpando imigrantes pelos atentados de Paris e com motoristas culpando o governo pelo trânsito, enquanto a verdade é que somos todos parte do mesmo complexo (e provavelmente insolúvel) nó.  

Quero continuar viajando porque não quero viver num mundo de “nós contra eles”, não quero que meu umbigo seja meu mundo. Quero ver belas paisagens e tomar drink colorido na praia, oh yeah! Mas muito mais que isso, quero andar com meus próprios pés e descobrir que existe muito para celebrar por aí.

Islamismo, budismo e cristianismo: tem lugares onde a pluralidade é possível, sim. Essa foto é de uma pequena loja de artigos religiosos em Fort Cochi, uma das cidades mais antigas do sul da Índia, onde egípcios, chineses e europeus pararam para comprar cardamomo e pimenta ao longo da história. Temos muito a aprender com civilizações que já estão aí há um tempão. - Crédito: Gaía Passarelli

Notinha final: a BBC compilou alguns viajantes que podem ajudar a reestabelecer sua fé no mundo. São historiadores, fotógrafos e pesquisadores registrando, recuperando e relevando o que há de incrível no nosso planeta. Veja aqui.

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