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Acordou sem saber como chegou em casa? Você não está sozinha. Mulheres nunca beberam tanto

por Ariane Abdallah em

Tpm / Cerveja / Comportamento

Erica* acordou sem as unhas dos dedões dos pés – e não fazia a menor ideia de como isso tinha acontecido. Sua cabeça doía e rodava. “Como cheguei em casa ontem?”, se perguntava enquanto alcançava o celular. Foi direto nas mensagens enviadas e nas chamadas recentes para saber se tinha feito (mais) alguma coisa da qual iria se arrepender. Sim. Estavam registradas dezenas de ligações para o número de um exnamorado (nenhuma atendida) e um SMS para um paquera que, pela ausência de resposta, estava claro que não se tornaria mais do que isso. Ela deletou tudo, como sempre fazia nesses casos. “Se não está marcado lá, sinto como se não tivesse feito.”

Aos 32 anos, essa publicitária já perdeu as contas de quantas vezes acordou sem lembrar da noite anterior. Dessa vez, concluiu que perdeu as unhas de tanto dançar com sapato apertado. Isso porque seus colegas disseram que a viram na pista até as quatro da manhã, numa festa da empresa em que trabalha. Em outra ocasião, quando foi para Itacaré, na Bahia, com uma amiga, Erica conheceu uns holandeses, e foram juntos a uma festa. Cachaça vai, cachaça vem, ela acordou no dia seguinte passando mal – e não sabia o que tinha acontecido. Foi à praia, e dois vendedores de artesanato chegaram para abraçá-la: “Eles falavam: ‘Que bom que você está viva!’, e eu pensava: ‘Quem são? Como sabem meu nome?’”. “Você não lembra do forró?”, perguntou a amiga.

Não, ela não lembrava que havia dançado agarradinha com um deles. Assim como não se recorda de uma noite, meses antes, em que não conseguiu colocar a chave na porta do apartamento e dormiu ali mesmo, no hall. Em uma outra vez, levou para casa um cara que tinha conhecido num bar. “Ele pediu para usar o banheiro e voltou sem roupa!”, conta. E insistiu para irem para o quarto, mas Erica o colocou para fora. “Fiquei sóbria na hora! Pensava: ‘Por que bebi? Fiz merda!’. Afinal, ele poderia fazer o que quisesse comigo e, como o porteiro viu que subimos juntos, ninguém acreditaria em mim se ele me forçasse a alguma coisa”, imagina.

Se você se identificou com uma dessas cenas não é mera coincidência. Uma pesquisa publicada em março pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas mostra que, em São Paulo, há 15 anos, a proporção do consumo de bebida alcoólica era de duas mulheres para cada dez homens. Hoje, são oito para cada dez. Quanto maior o grau de instrução das mulheres, maior o risco de beberem – ao contrário dos homens: aqueles com baixo grau de instrução apresentam oito vezes mais riscos de chegar ao alcoolismo. “Elas estudaram, trabalham, pagam suas contas. Isso se dá especialmente por causa de mudanças culturais, porque a mulher mais bem-educada tem melhor renda e isso faz com que ela tenha maior possibilidade de beber com as amigas. E esse beber se dá sem preconceito. Ao contrário, ela se iguala ao homem nessa situação”, observa a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, uma das autoras da pesquisa.

De acordo com outro estudo, do Ministério da Saúde, publicado ano passado, de 2006 para cá houve um crescimento de 2,4% de mulheres que tomam mais do que quatro doses no mesmo dia (uma dose equivale a 285 mililitros de cerveja, 120 mililitros de vinho ou 36 mililitros de destilado, como uísque e cachaça). Essa quantidade entra na categoria “consumo pesado”, para a Organização Mundial da Saúde (OMS).No grupo de apoio Alcoólicos Anônimos, a procura feminina por ajuda também aumentou: dez anos atrás havia 10 mil mulheres (duas para cada dez homens) em recuperação.

Hoje, são pelo menos 28 mil (sete para cada dez homens), um aumento de 180% — principalmente na faixa entre 30 e 35 anos –, entre 68 mil pessoas atendidas.

Mas no consultório particular do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as mulheres que chegam por questões relacionadas ao consumo de álcool, em geral, têm mais de 40 anos. “As de 20 e 30 anos estão se divertindo nas festas, nos bares. Não tendem a pensar no que bebem como um problema”, observa.

Na balada

Em uma quinta-feira, nove da noite, a reportagem da Tpm visitou a Vila Madalena – bairro paulistano de classe média com alta concentração de botecos. Em uma mesa só de mulheres, no bar Genésio, estavam cinco amigas, entre 25 e 30 anos, que se encontram toda semana para beber. A arquiteta Flávia, 27, que tinha consumido oito chopes em duas horas e dava goles em uma caipirinha, falava arrastado e chamava os garçons pelo nome. Eles faziam o mesmo.

Flávia já se viu em situações tão constrangedoras quanto pedir para um ficante parar o carro para ela vomitar ou passar dias ignorada pela mãe depois de colocar para fora, em casa, tudo o que bebeu na noite. Mas o pior, para ela, é faltar no trabalho por causa da ressaca. “Uso a desculpa de que comi algo que não fez bem, mas me envergonho disso. Já cheguei a pegar o ônibus, ir até o meio do caminho, mas ter que descer para vomitar”, conta. A ressaca mais recente foi pós-show do Lobão, neste ano, quando misturou caipirinha e cerveja e dormiu três horas. “Trabalhei o dia todo e ainda fui à pós-graduação até as 11 da noite. Fico imprestável, a cabeça dói demais, a pressão baixa. Sempre rola um arrependimento”, assume.

2 DOSES DIÁRIAS AUMENTAM EM 20% AS CHANCES DE TER CÂNCER DE MAMA - DEPOIS DE UM ANO DE CONSUMO

No Itaim, bairro frequentando por paulistanos de alto poder aquisitivo, no bar Vaca Véia, uma das muitas mesas só de mulheres reunia quatro amigas, entre 32 e 36 anos, em volta de garrafas de cerveja. Estavam lá desde as 16h e, em duas horas, haviam consumido, cada uma, pelo menos dez copos americanos (250 mililitros). Elas têm o costume de sair pelo menos a cada 15 dias, para beber “até não aguentar”, como definem. Uma vez, engataram 13 horas de cerveja. Mas a média são seis horas, o que custa cerca de R$ 100 para cada uma – considerando só as bebidas.

Para a Organização Mundial da Saúde, já é classificado “consumo pesado”, para as mulheres, passar de uma dose de bebida alcoólica em um mesmo dia (para homens, são duas). E, não, não vale acumular as doses da semana toda para virar sete copos de cerveja no fim de semana, porque o organismo não dá conta. “Acima disso, o corpo fica exposto ao lado tóxico do álcool, o que aumenta os riscos, por exemplo, de câncer de mama”, explica o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unifesp. “O excesso não é recomendado em frequência nenhuma. Mas repeti-lo a partir de duas vezes por semana é um forte indício de que a pessoa terá problemas por causa do consumo”, alerta a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, da USP. Os problemas vão de gastrite e complicações na vesícula ou no fígado a câncer, hepatite e cirrose. Por questões fisiológicas, todas essas doenças se desenvolvem mais rapidamente em mulheres do que em homens que bebem.

Número de pessoas que já consumiram álcool nas universidades brasileiras**

Segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), organização não governamental que estuda os temas há oito anos, para chegar a uma cirrose, por exemplo, elas têm que passar pelo menos 20 anos consumindo diariamente 1 litro de cerveja, meio litro de vinho ou 120 mililitros de alguma bebida destilada – para os homens a quantidade dobra.

“O corpo feminino tem menor volume de água e mais tecido adiposo, o que resulta em ficar bêbada mais rápido e por mais tempo”, esclarece Márcia Fonsi, que trabalhou por dez anos na Uniad e defendeu sua tese de doutorado sobre mulheres e álcool, em 2010. Segundo o Ministério da Saúde, os hormônios são fatores que tornam as mulheres menos resistentes à bebida. Porém, um dos problemas femininos relacionados ao álcool destacado pelo Ministério da Saúde este ano é a chamada anorexia alcoólica, quando a mulher deixa de comer para beber.

Foi o que fez Vivian, uma empresária de 34 anos, que integrava a mesa das quatro mulheres no Itaim. Ela parou de jantar porque queria se manter magra. “É por uma questão estética mesmo. Parei de jantar, mas comecei a sentir muita fome. Para aliviar, passei a tomar vinho”, explica.

Bebedoras convictas

Ela e a irmã, Carla, que é sua sócia e tem 36 anos, começaram a beber lá pelos 15, a exemplo dos pais, que sempre consumiram bebida em casa. A idade é a mesma em que a maior parte dos brasileiros também começa a beber regularmente, segundo o I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre universitários brasileiros, realizado pelo Cisa. “Quanto mais cedo se começa a beber, maior a chance de desenvolver a dependência, em consequência do impacto do álcool sobre o sistema nervoso central. Começar a beber antes dos 15 anos aumenta em sete vezes a probabilidade de ter dependência na vida adulta”, alerta a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, que também faz parte da equipe do Cisa.

O pai de Vivian já falou que ela deveria se internar por causa da relação com o álcool, mas, sempre que a filha vai visitá-lo, enche a geladeira de cervejas da marca favorita dela. Ela nunca cogitou a hipótese de parar. “Bebo porque gosto. E já diminuí bem, em comparação a dois anos atrás, quando saía três vezes por semana”, pondera.

A editora de vídeo Julia, 30 anos, confessa que até seis anos atrás precisava de quatro cervejas para ficar à vontade em uma pista de dança. “Bebi para me sentir menos estranha em baladas, que no fundo não têm nada a ver comigo. Eu encarava porque gostava dos momentos com as amigas. Mas no final pensava: ‘Como gastei dinheiro com bebida!’.”

40% DO ÁLCOOL VENDIDO NO BRASIL É CONSUMIDO PELA POPULAÇÃO DE ATÉ 35 ANOS

Esse comportamento vai ao encontro do que mostram as pesquisas do Cisa: mulheres bebem mais para lidar com situações estressantes e aliviar sintomas depressivos, enquanto os homens são motivados por encontros sociais, como assistir com amigos a um jogo de futebol. Segundo o estudo publicado em março pelo Instiuto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (SP), o principal fator de relação entre álcool e depressão, principalmente nas mulheres, é o consumo exagerado concentrado em ocasiões específicas. Quando Vivian, a empresária, levou um fora de um namorado começou a exagerar nas doses. “Ele marcou comigo, mas não apareceu mais. Passei a beber todo dia”, confessa.

Transbordando

Depois de alguns tropeços, Julia, a editora de vídeo, sacou que ter resistência ao álcool não era positivo. “Na faculdade, às vezes ficava entornando todas até não lembrar como terminou a noite”, conta. Numa dessas, acordou com o olho roxo. “Dizem que fiquei procurando briga com uma garçonete. Acho que levei uns croques de seguranças. Ou pode ter sido da garçonete. Ou da minha amiga. Nunca vou saber”, lamenta. “A pior parte de ter um passado desses é que alguém sempre lembra do que você quer esquecer”, conclui.

Em outra noite de bebedeira, Julia beijou o cara de quem uma amiga estava a fim. “Ali vi que não podia continuar daquele jeito. O perigo da bebida é achar que tem o controle. Pensamos: ‘Todo mundo passa da conta às vezes’. Já tive fase de beber em vários dias da semana, mas não via problema”, admite. Hoje, bebe só quando sai ou com o namorado – aí o combinado é uma dose. Mas quando beber vira comportamento abusivo? “O sinal é ter tido, no último ano, problemas interpessoais, legais ou físicos por causa do álcool e ainda assim continuar a beber. Qualquer um dos sintomas, quando recorrente, caracteriza abuso”, explica a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, da USP.

Os limites variam de pessoa para pessoa. Depois que Erica acordou sem as unhas, parou para refletir. “Beber é uma decisão inconsequente em nome da diversão. Você decide manter o lado racional rabugento do lado de fora da festa. Mas, depois de tudo o que vivi, dou uma maneirada”, diz ela, que passou a beber só aos fins de semana.

Se bbeer, não tcele

“Acho que devemos parar por aqui.” A mensagem de SMS que soa como um dramático fim de relacionamento foi mandada para Pedro, às 2h45 da madrugada. Ao checar o celular pela manhã, a fotógrafa Renata, 28 anos, autora do texto, não acreditou no que fez. ela e Pedro só tinham ficado três vezes. “Não tínhamos intimidade para ligar de madrugada. Minha vontade era não sair mais de casa de tanta vergonha! Apaguei o telefone dele na hora”, lembra.

A empresária Vivian, 34 anos, sempre bebia a mais como justificativa para ligar e enviar sms para o ex-namorado. “O pior é que ele nunca atendia ou respondia”, recorda. Para tentar se livrar do hábito, apagou o telefone dele do celular, mas antes anotou num papel e guardou em uma caixa. “Achava que poderia precisar”, se diverte. Não adiantou. Começou a chegar em casa bêbada, pegar o número na caixa e ligar do telefone fixo. até conhecer outro paquera.

A relação álcool e celular foi mais séria para a produtora musical Cibele,
31 anos. “estava namorando, mas tinha um casinho, para quem eu mandava mensagem quando bebia”, confessa. O problema é que o “casinho” dela também estava bêbado. “Ele encaminhou as mensagens para o meu namorado! Imagina a confusão? Queria sumir”, conta ela, que diz ter conseguido resolver a situação.

Se vez ou outra você bebe e perde o controle dos dedos no seu celular, uma opção é o aplicativo de iPhone Don’t drink and dial. Com ele, você bloqueia os contatos que quiser, pelo tempo que definir. Dessa dor de cabeça estará livre.

As noavs consumiodras

Lembra do baixinho da Kaiser com a loira gostosa nos comerciais de TV? Ela já foi, por exemplo, encenada, pela atriz Danielle Winits, entre outras. Já Karina Bacchi fez as vezes de musa da Antarctica. Elas representavam uma espécie de prêmio ao consumidor da cerveja. apenas sorriam e, com pouca roupa, se movimentavam sensualmente. Na última década, porém, a personagem feminina ganhou um copo e rodas de amigos, firmando seu papel de consumidora – um levantamento feito pela uniad, em 2007, com 1.533 mulheres no brasil, mostra que 41% consomem bebida alcoólica. Dessas, 58% elegem a cerveja como a preferida.

O filme da Conti Bier de 2011 mostra três meninas de biquíni fazendo churrasco e tomando cerveja. a ideia dO diretor de criação, Eric Sulzer, da WMcCann, era retratar um ambiente descontraído e real. “As mulheres são consumidoras, e cenas como aquela acontecem na vida, por exemplo, em repúblicas”, opina.

Selma Felerico, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), reforça a ideia de que a publicidade reflete a sociedade – e não o contrário. “Apesar de acharem que a propaganda é que cria hábitos, ela não cria, mas, sim, retrata. Nos anos 90, a mulher já se sustentava e ia para o bar”, analisa.

O diretor de criação Paulo Henrique Gomes, da Leo Burnett Tailor Made, desenvolve os comerciais da Nova Schin e procura retratar as mulheres como parte do grupo – mas não protagonistas. “elas são consumidoras, têm seu papel no comercial, mas no brasil cerveja ainda é associada ao homem.”

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Porém, desde 2000, a indústria de bebidas lança no mercado produtos que fazem o gosto feminino, como versões light de cervejas e Destilados com sabor de frutas. Alexandre Rodrigues, gerente de comunicação da Diageo, uma das maiores companhias de bebidas alcoólicas do mundo, admite que “ações com frutas e Smirnoff Ice, por exemplo, são voltadas para mulheres. elas já estão nos bares, nas festas e querem uma bebida com a qual se identifiquem”.

A psicóloga Maria de Fátima Rato, da Unifesp, acredita que esse tipo de inovação é responsável pelo aumento do consumo de álcool pelo público feminino. “A indústria faz o marketing perfeito: atinge as mulheres vendo o perfil de consumo. Há um movimento desde a década de 60 para a mulher se tornar igual ao homem, e beber é uma forma de se igualar”, analisa.

Colaboraram Amanda Nogueira e Maria Zelada

*os nomes são fictícios para proteger a real identidade das entrevistadas

*** Levantamento nacional sobre uso de álcool, tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras

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