Herança genética

Minha primeira namorada dizia que algumas mulheres não foram feitas para ter filhos, e que ela era uma delas. Mas, aos 40 anos, a vida pregou-lhe uma peça

por Redação em

 
Eu tinha 16 anos quando fui beijada por uma mulher pela primeira vez. Saí do beijo com a certeza de que havia carimbado meu passaporte para o inferno. E, imediatamente, jurei a mim mesma que jamais contaria a outro ser humano o que havia me acontecido na adolescência: levar essa vida clandestina e gay estava fora de cogitação. Aquilo era, naturalmente, uma fase.

Mesmo com tantas encucações, o romance começou sem que conseguíssemos controlá-lo. E, enquanto eu, catolicamente, tratava de me imolar, meu objeto de desejo, sempre soberana, nunca se mostrou envergonhada com a aventura nem preocupada com o futuro.

Duas mulheres e um bebê
Eu dizia a ela que, assim que nossa história acabasse, iria cumprir meu destino social: casar e ter filhos. E ela me explicava que não havia vindo ao mundo preparada para casar, muito menos gestar. Dizia que algumas mulheres simplesmente não nasceram para ser mães, e que seus cachorros preencheriam qualquer carência. Além do mais, não estava pronta para perder a liberdade, trocar fraldas, deixar de viajar quando bem entendesse ou ter que lidar com o estridente choro dos recém-nascidos.

No final de 2005, soube que minha primeira namorada estava grávida. Depois de dez anos de um relacionamento estável, sua companheira havia conseguido o inimaginável: convencer minha amiga a topar a aventura.

Como queriam que a experiência fosse a mais próxima de dar à luz um descendente que representasse um pouco das duas, decidiram que uma emprestaria à outra um óvulo, e que este seria fecundado por um esperma comprado. Por motivos técnicos, e para meu completo espanto, minha ex-namorada foi quem gerou a criança, que cresceu dentro dela com o óvulo da companheira.

Foram nove meses sofridos: enjôos constantes, seguidos de pensamentos contraditórios e dúvidas dilacerantes. “Será que ela tinha forçado uma barra?” “Será que devia ter seguido seu instinto e escolhido nunca ter filhos? Será que não deveria ter se deixado convencer?” Os pensamentos estranhos iam embora quando alguém explicava que tudo era normal e que, na hora do parto, dúvidas e inseguranças evaporariam porque ela entenderia, de forma arrebatadora, a grande e inigualável experiência da maternidade.

O parto aconteceu, sem planejamento, no dia 29 de janeiro. Ana veio ao mundo cheia de saúde, com 3,8 quilos, depois de uma cesariana descomplicada e previsível. Tudo muito bacana, não fosse o fato de não ter sido sentida a tal incomparável emoção da maternidade. Aí alguém explicou que a sensação avassaladora de ser mãe viria, certamente, durante a primeira mamada, que ela se preparasse.

Chegou a hora da primeira mamada e foi com uma expressão de medo que ela percebeu que não estava sentindo nada, a não ser uma nunca antes experimentada pontada nos mamilos. O que estava acontecendo? Estaria rejeitando a criança simplesmente por não ter sido feita com seu óvulo? Ou, definitivamente, não havia vindo ao mundo preparada para ser mãe?

Tudo pareceu piorar quando, na primeira noite, Ana desatou num choro agudo, e as novas mães ficaram sem saber o que fazer. Desorientada, pediu que a companheira fosse até a enfermaria solicitar ajuda de quem estivesse de plantão.

Um pranto sem precedentes
Foi quando, pela primeira vez na vida, ficou sozinha com a filha. Sem saber o que fazer, atordoada com o choro, andou até o berço e, ainda titubeante, levou uma das mãos à cabeça da criança: “Não chora, meu amor, mamãe está aqui”, foram as palavras que saíram de sua boca, sem que ela pudesse pensar a respeito do que dizia. Quando Ana imediatamente parou de chorar, ela entendeu, até a última célula de seu corpo, o que é ser mãe, e desabou em um pranto visceral.

Desde aquele momento, nunca mais saiu do lado da filha, mesmo quando algumas amigas tentam avisar que ela está se transformando em uma mãe neurótica e superprotetora. Mas, completamente feliz e realizada, não liga, apenas ri e dá os ombros. Afinal, o que importa esse tipo de crítica se, aos 40 anos, minha primeira namorada descobriu a mulher da sua vida?
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