Eu quero dormir

À noite você consegue pegar no sono ou sofre com o pesadelo de ficar acordada?

por Ariane Abdallah em

Tpm / Saúde / Saúde

 

Quando chega a noite, você consegue pegar no sono ou sofre com o pesadelo de ficar acordada? Antes que dormir se torne um sonho distante, Tpm desperta a questão e procura saber por que de cada três pessoas com insônia, duas são mulheres – e cada vez mais jovens

Duas da manhã. De novo, não é possível. Vou passar o dia como se estivesse de ressaca de uma noite regada a bebida. Queria dormir oito horas, mas agora vou dormir só sete, se atrasar o despertador. Isso se eu dormir agora, e sei que não vou. Não queria ficar me arrastando, mal-humorada, irritada... Quatro e dez. Já passou mais da metade da noite. E as olheiras? Não posso esquecer de pegar o corretivo na outra bolsa. Por que invento de trocar de bolsa todo dia? Daí não corria o risco de esquecer nada nunca mais. Passei o dia querendo deitar e agora não tenho vontade de fechar os olhos. Alguém me ajuda... Vou anotar umas coisas para ver se saem da minha cabeça. Será que chegou aquele e-mail do fornecedor? E a conta de luz, paguei? Fome. Ainda tem chocolate? Cinco da manhã. Se dormir agora talvez consiga três horas de sono. Mas não vai ser o suficiente... Não é possível que todo mundo esteja dormindo e eu aqui fritando na cama. Que inveja de quem dorme até em avião. E se tentasse adiantar alguma coisa agora e dormisse de manhã? Será que vou me concentrar? Melhor tentar relaxar. Respira... Ai, que desespero. Ah, não. Esse barulho foi do despertador? Não pode ser...

Foi assim que, durante 20 anos, a artista plástica carioca Gisela Milman, 46, passou muitas de suas noites – e, nas manhãs seguintes, saía se arrastando para seus compromissos. E a única coisa que ficava martelando na cabeça dela durante o dia todo era: “A que horas vou me jogar na cama?”. Só que, quando chegava a tão esperada hora, ela não dormia. Nessas duas décadas, até encontrar uma saída para suas noites em claro, acabou fazendo uso do indutor de sono Rivotril, remédio tarja preta, receitado por um médico. E mesmo com ele seu sono não era uma beleza: “Eu simplesmente apagava, mas acordava pesada”, descreve, embora preferisse isso a assistir ao dia nascer.

Até que, há sete anos, fez o que os especialistas chamam de “higiene do sono”: limpou os hábitos que atrapalhavam seu relaxamento, como comer e, em seguida, deitar e não ter hora para dormir nem acordar. Gisela também evita sair da rotina, que inclui dia certo para fazer ginástica e as atividades do filho. Ao mesmo tempo, estava se separando do marido, trocando o comando de uma loja de cosméticos pelo trabalho autônomo e se empenhando em largar o remédio, o que levou dois anos diminuindo as doses com acompanhamento médico. “Hoje meu sono é mais leve e regrado, costumo dormir, em média, dez horas por noite. Acordo descansada e satisfeita”, garante.

Mesmo com o sono sob controle, no ano passado Gisela quase desistiu de viajar com a família para Paris porque não queria acompanhar a mãe e a irmã que acordam cedo. “Já estava colocando na cabeça que a viagem seria ruim”, conta ela, que topou o desafio e levantou às sete da manhã (três horas antes do habitual) na semana de férias. “Vivi tantos anos de insônia que meu corpo se acostumou a acordar tarde. Na volta, não consegui sustentar a mudança de horário”, confessa.

Talvez servisse de conforto Gisela saber que nunca esteve sozinha. Um terço da população mundial já se queixou de insônia, na proporção de duas mulheres para cada homem (em 1997, a Organização Mundial de Saúde apontou o Brasil como o país com mais alto índice do mundo). Assim como Gisela, a estilista Karin Cagy, 39 anos, e a professora de inglês Renata Briquet, 26, fazem parte das estatísticas.

Renata é do grupo de insones que passam noites inteiras sem pregar o olho, e Karin é das que apagam lá pelas dez na noite, mas acorda de madrugada e não dorme mais. Nada na rotina delas é tão determinante quanto o sono – ou melhor, a falta dele. Qualquer decisão a ser tomada, seja uma viagem, um jantar a dois ou uma mudança de emprego, passa antes pela questão que permeia suas vidas: quantas horas vou ter para dormir? Renata compara o drama de passar a madrugada em claro à sensação de estar com uma vontade louca de fazer xixi, mas não conseguir consumar o ato – tão instintivo quanto dormir. “Já chorei muitas noites, já cancelei compromissos, perdi dias de trabalho, só para ficar em casa e me recuperar. Porque nem dormir de dia consigo. É desesperador”, descreve Renata, que no dia da entrevista estava indecisa se viajaria com os amigos para a praia: “Vai depender de como estará meu sono”.

Enquanto você não dormia

Segundo uma pesquisa de 2007, feita pelo Instituto do Sono (em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP), com 1.042 voluntários, o grupo de insones que mais cresce é formado por mulheres entre 30 e 35 anos de idade. Dos 30% que se queixam de insônia crônica, dois terços são mulheres. O psiquiatra Renato Del Sant, diretor do hospital Dia, do HCFMUSP, acredita que uma das principais explicações é a mudança de vida da mulher no último século. “Hoje ela trabalha, paga 

suas contas, faz parte de uma sociedade extremamente competitiva e consumista, em que propagandas dizem que você tem que ter um produto e, quando você compra, ele já não vale nada e tem outro melhor. Isso gera frustração e ansiedade”, opina.

A ansiedade de Gisela, Karin e Renata aumenta também dependendo do horário que precisam levantar no dia seguinte. “Quando sei que posso dormir até mais tarde, acabo relaxando e dormindo rápido”, conta Gisela. Mas, na época em que nada fazia seu olho fechar, o desespero batia quando o dia estava virando noite. 

No início das crises de insônia, nos seus 20 anos, ela levava numa boa. “Era uma curtição porque na faculdade aproveitava para fazer os trabalhos e ia para as baladas. Quando se é jovem, você aguenta o dia seguinte mesmo com a noite maldormida. O problema aumenta com o passar dos anos”, conclui. Nos intervalos do remédio, Gisela se arriscou em técnicas alternativas, como cromoterapia (colocava uma luz azul ao lado da cama), massagens semanais e foi até num xamã. “Ele queimava umas folhas e parecia que ia me exorcizar”, conta, rindo. “No desespero, fiz tudo o que ouvi dizer que funcionava.”

Para a professora Renata, deixar o celular no modo silencioso e sair, no máximo, duas vezes na semana são meios de tentar um sono melhor. Ela já consultou psiquiatras, ortomoleculares, acupunturistas e homeopatas em busca de causa e solução para sua insônia. O mais perto que chegou foi descobrir que sofre de ansiedade. Casos como o dela não são raros. Segundo o Instituto do Sono, 30% dos insones crônicos relatam sintomas como ansiedade ou depressão. Vale lembrar que essas doenças também acometem duas vezes mais mulheres do que homens.

Renata diz não saber o que lhe gera tanta ansiedade, embora reconheça que o problema começou seis anos atrás, quando voltou de uma temporada fora do Brasil e se deparou com a separação dos pais. Desde então, sofre de uma insônia cíclica: ela dura de duas semanas a três meses, podendo desaparecer por até oito meses.

A psicóloga Silvia Conway, que há mais de 15 anos atende pacientes com distúrbios do sono, reconhece que a maioria das queixas que escuta tem origem em estresses emocionais. “A pessoa está angustiada, briga com a vida porque queria que algo fosse de um jeito, mas é de outro. Isso é estresse, gera uma ansiedade que não permite que ela relaxe”, explica. 

Ligada 24 horas

Justamente com medo de passar o problema para as filhas, a estilista Karin Cagy não fala no assunto em casa. Embora tenha insônia desde a época da faculdade, nota que com o passar do tempo ficou mais difícil encarar o dia seguinte. E piorou quando abriu a marca de roupas que leva seu nome, há dois anos. Nem nas férias na Bahia, com a família, relaxou: dormiu apenas duas noites inteiras. As outras cinco foram movimentadas: DVDs, listas de pendências do trabalho e fome. Aliás, por causa dos ataques à geladeira, a estilista engordou 5 quilos. “Você não quer uma maçã às três da manhã, né?”. Mas já voltou ao peso normal depois de uma dieta.

Para a psicóloga Laura Castro, esses assuntos que, em geral, invadem a mente na madrugada podem estar a serviço para desviar a atenção da real origem da aflição. “O pensamento ruminante, compulsivo, pode estar ocupando o lugar de a pessoa refletir sobre a vida de maneira profunda. Ela pensa na roupa do dia seguinte ou em questões profissionais porque não quer pensar se está se sentindo solitária, se trabalha feito louca, se acha que não vai dar conta de tudo o que assumiu e por aí vai”, acredita.

Até pouco tempo, Karin ocupava suas noites com o Facebook, mas percebeu que isso eliminava qualquer chance de pegar no sono. “Assistindo à TV você tem noção do tempo pela duração dos programas. Mas, batendo papo, não temos ideia se passaram horas”, comenta. O neurologista da USP Rubens Reimão, especialista em distúrbios do sono, atribui o aumento de mulheres jovens com dificuldade para dormir principalmente a hábitos como os que Karin cultivava. “As pessoas ficam ligadas 24 horas, mas nós não fomos criados para isso”, observa. Além de o estímulo intelectual agitar a mente e a luz da tela inibir a produção de melatonina (responsável por regular o sono), Rubens acredita que o acesso a redes sociais aumenta a ansiedade. “A pessoa vê a possibilidade de fazer muitas coisas, de trabalhar o tempo todo e sente culpa por não fazer tudo o que acredita poder.”

Mas o que faz com que alguns manifestem suas ansiedades em noites em claro? 
Para o psiquiatra Renato Del Sant não há uma resposta objetiva. “Ficar com insônia é ficar em permanente estado de alerta, que, em geral, tem a ver com ansiedade e depressão. Está relacionado à personalidade de cada um, não se sabe se é algo aprendido na vida ou herdado da família”, resume.

O neurologista Rubens Reimão afirma que as pessoas devem dormir em média de sete horas e meia a oito horas por noite, mas cada um tem sua medida. O que importa não é o tempo, mas a qualidade do descanso, a capacidade de se entregar ao sono profundo, quando o corpo reconstrói as células, consolida a memória, libera serotonina, melatonina, dentre outras atividades fundamentais para a saúde. Dormir tarde não caracteriza insônia. “Pode ser o ritmo do seu organismo. Setenta por cento da população se adapta a qualquer período de sono, mas 15% é matutina, e os outros 15%, vespertina.”

Cama é pra dormir

Uma sugestão para quem quer melhorar a qualidade do sono é se exercitar regularmente. Segundo pesquisas do Instituto do Sono, a prática de atividade física favorece a concentração dos hormônios melatonina, que induz ao sono, e cortisol, que estimula o despertar. Para os insones, a dica é fazer esporte de manhã, para que não se encham de disposição na hora de dormir.

A psicóloga Silvia Conway indica ainda que ver TV, usar o computador e falar ao telefone sejam atividades feitas fora do quarto. “Senão, você condiciona o corpo a se agitar ali, em vez de dormir. Além disso, o ideal é não ficar fritando na cama. Só deitar na hora em que está com sono”, sugere. Assim fica mais fácil relaxar. E dormir.

Sem tempo para dormir

Por Denise Gallo*

O roteiro já é conhecido: interna, apartamento, mãe e filha, noite. Lá pelas tantas, depois de, amorosamente, convencer a filha a fechar os olhos e dormir, a mãe sai do quarto, cambaleando de sono. Seu corpo não poderia estar emitindo sinais mais evidentes: ele pede para que ela caminhe em direção ao seu próprio quarto, desabe em sua própria cama e durma o seu próprio sono. Mas sua mente, que parece viver em outro planeta, atiça: “Vai desperdiçar esse momento de casa calma, silenciosa, só para você? Essa espécie de horário nobre? O fundinho da alcachofra? O meinho do ossobuco?”. Assim, tem início mais uma noite em que seu sono não será respeitado. Não, ela não sofre de insônia, mas, de certa forma, compartilha seus efeitos. O dia seguinte dirá.

Já que é para seguir acordada e curtir o momento, ela poderia simplesmente colocar um som, dançar pela sala, ver a lua na janela, não fazer nada. Mas a mentezinha perversa insiste no seu plano diabólico. Ela sabe aonde quer chegar. Quer chegar ali, na mesa do escritório, onde repousa, ligado e ameaçador, o seu computador, esse aparato poderoso que, concreta e simbolicamente, carrega as inúmeras listas de pendências que não foram resolvidas durante o dia. Aliás,o que aconteceu com o dia? Quando ele passou a ser tão café com leite em relação às tarefas que deveria cumprir? E que tipo de anabolizantes essas tarefas vêm ingerindo para ficar tão “saradas”?

Enquanto tenta ser produtiva, nossa ansiosa personagem dribla o sono, os desejos e os limites e vai ficando pronta para engordar as estatísticas que reportam ao aumento dos mais diversos transtornos psíquicos entre as mulheres. Estatísticas que servem de suporte para a constatação famosa: o padrão feminino/contemporâneo trouxe uma alta dose de sofrimento para as mulheres.Mas tenho notado que, na mídia voltada à mulher, o diagnóstico que diz que a conta trabalho-maternidade-vida pessoal não fecha, repetido à exaustão nos últimos anos – aquele, sobre a mulher que equilibra os pratinhos – vem dando lugar a uma nova representação feminina: a mulher que não quer mais ser perfeita. Não quer saber de pratinhos. Essa nova mulher (quantas novas mulheres a mídia produziu nos últimos anos?) seria mais propensa a aceitar que não dá pra ter tudo, estaria disposta a abrir mão da carreira, da maternidade ou da vida afetiva, de forma a priorizar o que é mais importante para ela. Nas revistas, essa nova nova mulher está mais plena, mais fofa, mais cheia de amor por si mesma. Habita um ambiente de campanha pela felicidade. Bom pra ela, embora eu ainda não tenha cruzado com nenhuma na vida real. O que fica faltando admitir é que a verdadeira campanha pela felicidade seria retirar as receitas de felicidade das páginas das revistas. Não para que a felicidade deixe de ser buscada, mas para que ela não seja tratada como mais uma tarefa da nossa lista de pendências – mais uma – à espera da nossa sobrecarregada produtividade. Agora, com licença, vou ali tirar uma soneca porque o despertador vai tocar já já.

*Denise Gallo, 41, é pesquisadora, mestre em Comunicação e Semiótica e se dedica ao estudo das representações da mulher na mídia e na publicidade. Seu e-mail: dgallo@uol.com.br

 

Não Perturbe

Há dois anos, o fotógrafo Marlos Bakker começou a explorar uma parte não tão conhecida de nossas vidas, seja pela ausência de luz, seja pela invasão de privacidade: como nos parecemos enquanto dormimos. Resolveu, então, dedicar-se a uma pesquisa fotográfica sobre o sono. Os primeiros retratos que testou foram da cama que ele mesmo divide com a mulher. Mas logo se entregou a uma intensa pesquisa, que lhe exigiu tempo e paciência para ser concluída: por 120 noites o fotógrafo entrou no quarto de amigos, conhecidos e de gente que nunca tinha visto nem acordada. Em cada um, montava uma parafernália que incluía tripé, luzes e outros apetrechos e programava a câmera para captar automaticamente, durante seis horas, o que acontecesse entre quatro paredes. Foram mais de 60 fotografados, com idades entre 6 meses e 71 anos. As fotos que ilustram a reportagem (na galeria acima) fazem parte do projeto Não Perturbe, que ele pretende transformar em instalação, com áudios dos personagens contando seus sonhos daquelas noites.

Veja abaixo um vídeo do projeto:

não perturbe from marlos bakker on Vimeo.

 

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