Empatia, pra quê?

Museu da Empatia chega a São Paulo para fazer a gente se colocar no lugar do outro e valorizar ato do diálogo

por Carolina Nalon em

Tpm / Comportamento / Felicidade / Política

Não sei se você reparou, mas nos últimos tempos as pessoas têm falado mais sobre empatia. Jogue “empatia e liderança” no Google e vai ver que os principais eventos e publicações da área corporativas apontam a habilidade de se colocar no lugar do outro como algo essencial para os líderes do futuro.

No dia 14 de novembro, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo incluiu o  ensino de habilidades socioemocionais, entre elas a empatia, no currículo da rede de escolas da cidade. O filósofo Roman Krznaric afirma em seu livro mais recente, O Poder da Empatia, que os níveis de empatia no mundo estão diminuindo e, por isso, ele tem mobilizado diversas ações empáticas ao redor do mundo, entre elas o itinerante Museu da Empatia, que chega a São Paulo no dia 18 de novembro para a temporada de um mês. 

O tema está tão em voga é que até já ganhou um arquinimigo: o psicólogo Paul Bloom publicou o livro Against Empathy e causou o maior bafafá entre as pessoas que estão mais próximas ao assunto.

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Trabalho com Comunicação Não Violenta e falo muito sobre empatia, fico num misto de alegria e receio por ver tudo isso acontecendo. Me preocupo com a banalização do termo. Será que vai virar a nova “gratidão” e fazer com que pessoas se dividam entre entusiastas fervorosas e gente que nem sequer suporta que falem a palavra? É uma pena que isso tenha acontecido, porque a psicologia positiva já provou uma série de benefícios concretos para quem se dispõe a se lembrar mais pelo que é grato.

Um outro receio que tenho em relação à empatia é que ela seja confundida com “ser bonzinho”, ou como algo que nós oferecemos somente àqueles de quem gostamos e com quem concordamos. Com isso, corremos o risco de perder os benefícios que ela pode nos oferecer em um nível social.

Temos que entender que a empatia precisa fazer parte das nossas discussões mais cascudas. Basta dar uma olhada na sua timeline do Facebook depois de algum acontecimento polêmico. Nós nunca tivemos acesso a tantas opiniões alheias, mas raramente conseguimos ir por um caminho que não seja o da reatividade e ataques pessoais.

Acredito, inclusive, que a empatia seja um dos elementos fundamentais para amadurecer nossas discussões políticas. Essas que carecem tanto de sensatez e entendimento em tempos de polarização. Estamos preparados para 2018?

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Mas é possível ser empático diante de uma pessoa da qual absolutamente discordamos? Se eu for empático não vai parecer que cedi ou que estou deixando de dar minha opinião? 

Não.

Embora a empatia seja, sim, um mecanismo biológico que aumenta as chances de querermos cuidar daqueles que temos afeição e com quem nos identificamos, ela não é só isso, nem precisa vir sempre seguida desse vínculo emocional. 

“Empatia é demonstrar ao outro que você compreende (ou pelo menos quer compreender) os motivos que sustentam suas opiniões e ações”

Empatia é também demonstrar ao outro que você compreende (ou pelo menos quer compreender) os motivos que sustentam suas opiniões e ações. O psicólogo americano Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, chama esse ato de 'parafrasear', que é quando eu faço um esforço cognitivo de compreensão das outras pessoas.

Na minha opinião é isso o que falta. Se você me fala seu ponto de vista e logo em seguida eu insisto no meu, sem te demonstrar que entendi o que você disse, a chance dessa discussão não chegar a lugar nenhum é altíssima.

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Quanto mais conhecemos a vida e história de pessoas que vivem vidas diferentes da nossa, mais fácil é fazer esse esforço cognitivo para compreender o ponto de vista delas. Nesse sentido, o Museu da Empatia tem prestado um serviço incrível por todos os lugares em que passa. Quem tiver a chance de conhecê-lo no próximo mês, em São Paulo, poderá participar da exposição interativa A Mile in My Shoes – que remete ao provérbio indígena "never judge a man until you have walked a mile in his moccasins" ("nunca julgue um homem até você ter andado uma milha em seus mocassins", em português). Nela, você literalmente calça os sapatos de uma outra pessoa e caminha com eles enquanto escuta a história do dono. É uma verdadeira viagem por relatos que vão da perda à superação, do luto ao amor, do preconceito e exclusão à esperança e inspiração, e refletem os temas diversidade, violência social e direitos humanos, LGBTfobia, gordofobia, educação, cultura, acessibilidade e direito à cidade.

Desde 2015, o Museu da Empatia coletou mais de 150 histórias e pares de sapatos, e o bacana é que eles tiveram o cuidado de coletar 25 histórias de brasileiros para compor o acervo antes de abrirem a exposição por aqui.

Dialogar é resistir nos tempos de hoje. Empatia para mim é a enzima que cria o diálogo. Se mais e mais pessoas e lugares valorizam o ato do diálogo, o espaço para intolerantes diminui. Empatia é para isso, para gente finalmente aprender a conversar.

Vai lá: Museu da Empatia, Parque do Ibirapuera – Praça das Bandeiras (área externa do pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo), acesso pelo Portão 3. De 18 de novembro a 17 de dezembro de 2017. Grátis

* Carolina Nalon é coach especialista em Comunicação Não Violenta no Instituto Tiê. Para falar com ela: carolina@institutotie.com.br

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