Terapia de choque

O psicanalista Contardo Calligaris fala de amor entre casais, dos perigos do desejo, de seu gosto por sarjetas e de violência, tema da nova temporada da série Psi

por Natacha Cortêz em

Tpm / Comportamento / depressão

Violência entre marido e mulher, entre detentas de um presídio feminino, entre mãe e filha, em sessões de exorcismo e sadomasoquismo. As diferentes formas de agressão em uma metrópole como São Paulo são a linha condutora da segunda temporada da série Psi, criada por Contardo Calligaris. O escritor e psicanalista assina o roteiro, junto com Thiago Dottori, dos dez episódios dirigidos por nomes como Laís Bodanzky, Tata Amaral e Alex Gabassi.

Na nova temporada da série, em exibição até dezembro no canal HBO Brasil, o protagonista Carlo Antonini (Emílio de Mello) volta a São Paulo depois de um ano na Itália e assume o cargo de coordenador clínico de uma ONG que ajuda vítimas de violência doméstica. O psicanalista e sua colega Valentina (Cláudia Ohana) vão dividir seu tempo entre o atendimento na ONG e os diferentes casos que cruzam seus caminhos.

À Tpm, Contardo falou sobre o processo criativo que nasce de sua experiência dentro e fora dos consultórios. "Meu olhar para o mundo vem do exercício como psicanalista há 35 anos. Cada protagonista de ficção em alguma medida é uma expansão de seu autor. Flaubert dizia que Madame Bovary era ele. Carlo Antonini tem dados biográficos que obviamente são meus", afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O psicanalista Contardo Calligaris - Crédito: Gabriel Rinaldi

Violência doméstica
“A violência doméstica acontece em todas as classes sociais de maneira praticamente igual. Não é um ‘privilégio’ das classes menos favorecidas que vivem na favela, é algo que também existe na Oscar Freire ou na zona sul do Rio de Janeiro. Em média, a mulher é abusada 35 vezes antes de pedir ajuda. Isso significa que, para cada uma que consegue pedir ajuda na primeira vez que apanha, tem outra que apanha 70 vezes.”

"Em média, a mulher é abusada 35 vezes antes de pedir ajuda. Isso significa que, para cada uma que consegue pedir ajuda na primeira vez que apanha, tem outra que apanha 70 vezes"
Episódio sobre violência doméstica da segunda temporada da série - Crédito: Divulgação

Amor e desilusão
“Existe uma relação direta entre a expectativa maluca que temos em relação ao casamento e a decepção e a violência com a qual reagimos ao desmoronamento dessas ilusões. Investimos uma expectativa ridícula no casamento. Amor e desejo são coisas totalmente distintas, que não se realizam simultaneamente. Porque você quer encontrar alguém com quem realizar os seus sonhos amorosos e sexuais, e ainda deseja que isso dure 20 anos? Desculpa, isso não existe.”

Monogamia
“Eu casei várias vezes. Acho a monogamia mais interessante do que ter muitas aventuras amorosas. Uma relação é uma coisa tão delicada que é mais interessante se dedicar a ela enquanto dure do que ter um monte de aventuras que, no geral, são bastante chatas e rasas. O problema é colocar no casamento todas as nossas expectativas. E forçar o outro a ser aquela coisa que você sempre quis, mesmo que isso não tenha nada a ver com ele. Deveríamos baixar nossas expectativas.”

"Investimos uma expectativa ridícula no casamento. Amor e desejo são coisas totalmente distintas, que não se realizam simultaneamente"

Agressão feminina
“Os números da violência feminina não são muito diferentes dos da masculina. O que muda é que a violência das mulheres contra os homens é quase sempre verbal; quando é física, é uma ameaça que dificilmente se concretiza. Já o resultado da violência masculina aparece nos prontos-socorros dos hospitais. Tem um relato clínico recente de uma mulher que persegue um homem ao redor da cama nupcial com uma faca na mão. Num dado momento, o homem reage com um tapa que estoura o tímpano da mulher. Ela chega no hospital com o ouvido sangrando. Se tivesse que medir onde começa a violência nessa história, diria: começa da mulher.”

Desejo e perigo
"Existe essa mentalidade dos anos 60 de que o desejo é legal e é ruim reprimi-lo. Mas, alerto, o desejo é um negócio perigoso e pode incluir um monte de coisas que não são saudáveis. Na primeira temporada de Psi, tinha um paciente de Carlo que era HIV positivo. Em um dado momento, ele diz que sabia quando tinha sido contaminado, mas que nunca tinha sentido nada tão forte quanto no momento em que estava transando sem proteção e sabia que aquele gozo o contaminaria. Isso é desejo. Os desejos têm a legitimidade do que vem do âmago, mas muitas vezes são impraticáveis e, em alguns casos, é bom que permaneçam dessa forma.”

Mães e filhas
"As relações entre mãe e filha são violentas porque são construí-das ao redor de uma tremenda rivalidade. Não existe uma relação desse tipo que seja pacífica; se existe, eu nunca vi. A filha está constantemente lidando com a ideia de que foi um pouco inadequada porque afinal a mãe teria preferido um menino. Quando ela cresce e se torna mulher, a competição é tremenda, inclusive na relação com os homens da família. Esse é um campo minado e relativamente pouco falado. Já a relação entre mãe e filho é totalmente pacificada. O filho tem sempre a impressão de que correspondeu a todas as expectativas maternas. Isso é um componente essencial da psicologia masculina. O homem é um pouco burro por causa disso. Mesmo quando todo mundo o manda à merda, ele se sente fortalecido porque ao menos para a mãe ele foi o presente supremo dos céus."

"Gostar de cidades sem gostar de sarjetas não funciona. Se você gosta de cidade, gosta de um pouco de ‘decadência’. Eu prefiro a rua Augusta à Oscar Freire"


Metrópoles latino-americanas
"O sucesso que Psi teve em outros países da América Latina, como Chile e México, mostra que a São Paulo que aparece na série pode ser qualquer metrópole latino-americana. Uma coisa moderna, mas que é sempre um pouco decadente. A violência é um componente dessas metrópoles. São cidades tremendamente sedutoras, porque têm sarjetas que se revelam com facilidade. E gostar de cidades sem gostar de sarjetas não funciona. Se você gosta de cidade, gosta de um pouco de ‘decadência’. Eu prefiro a rua Augusta à Oscar Freire."

O ator Emilio Mello (esq.) em cena do episódio sobre possessão demoníaca - Crédito: Divulgação

Possessão demoníaca
"O nono episódio da segunda temporada de Psi trata de possessão demoníaca. Até cem anos atrás, a melhor explicação que as pessoas davam para doença mental era em termos de possessão. Isso é uma trivialidade na história da nossa relação com essas doenças. E ainda hoje acontece. A cada ano centenas de exorcismos são feitos em cidades como São Paulo. Acontecem na televisão à noite, nas igrejas evangélicas cheias de pessoas. Essa não é uma realidade tão longínqua da nossa."

De olhos bem fechados
“O décimo episódio de Psi é especial. Acho que conseguimos recriar uma festa sadomasoquista fiel à realidade. Porque até Stanley Kubrick foi ridículo quando filmou aquela cena em De olhos bem fechados. O diretor Alex Gabassi e eu passamos algumas noites em festas sadomasoquistas paulistanas. Todos os figurantes são praticantes do sadomasoquismo, não tem ninguém travestido ali. Foi difícil não sermos ridículos, mas acho que conseguimos. O espectador é quem dirá.”

Vai lá: Psi, segunda temporada – domingo, às 22h, no HBO Brasil

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