Ela não é nada daquilo

Juliana Alves não é a louca por Big Brother da novela Caminho das Índias. Nem a piriguete Gislaine, de Duas Caras

por Ronaldo Bressane em

O que nossa capa tem a ver com o líder de um império quebrado? Tudo. Até pouco tempo, negros não ocupavam a Casa Branca – nem capas de revistas. “Não vende”, desculpam- se os publishers. Claro que a Tpm sempre atentou mais ao mérito que à melanina – o comprovam capas com Lenny Kravitz, Lázaro Ramos e Taís Araújo. Mas preconceito é cretinice que liga para tipos físicos, origens sociais e passagens profissionais.A carioca Juliana Alves sabe disso: seu rasante pelo BBB lhe colocou pedras no caminho.“Até o Aguinaldo Silva disse que, se soubesse que eu tinha passado pelo BBB, talvez não tivesse me convidado para a novela”, conta.

Aliás foi a pele que fez Juliana atrasar 5 minutos para esta conversa. Vinha da dermatologista, que a repreendeu pelo uso descuidado do filtro solar, o que deixou manchas claras em sua embalagem cor de canela. Antes, tinha malhado – vai à academia três vezes por semana; quer emagrecer.“São os quilinhos das férias”, explica, ante o espanto do repórter. Tudo para a Suellen de Caminho das Índias. Personagem que Juliana ressalta não ter nada a ver com ela – embora tenha a ver com o jeito como a atriz surgiu: o sonho de Suellen é entrar no Big Brother.

“Não me inscrevi”, ela lembra a experiência no BBB3, em 2003. “Estava num show do Luiz Melodia com meu então namorado, e chegou uma olheira da Globo pra pegar nossos dados. Dias depois me chamaram. O engraçado é que quem sonhava em ir pro BBB era ele!”, ri a moça, escancarando as canjicas. À época, Juliana estudava teatro, fazia balé e trabalhava na área de saúde da ONG Criola, que defende direitos das mulheres negras. Além disso, estava inscrita na Ibis,ONG que prepara jovens lideranças.

Que Barra, que nada
Com esse perfil de anti-starlet, jamais entraria no programa vazio por excelência: “Dizia pros amigos: ‘Ridículo pagar mico em rede nacional’. Mas vi que era uma chance de falar sobre racismo. Infelizmente a mídia tem poucos negros que não estejam trabalhando como empregados ou sendo escravos. Fui como um desafio, nunca pensei em prêmio. Me dei superbem com todos, mas aqueles joguinhos me cansaram, me sentia um peixe fora d’água”, recorda. Mas conseguiu falar sobre seu trabalho social? “Sim, mas... cortavam.”

A flamenguista Juliana nasceu em Bento Ribeiro – subúrbio que nos deu o corintiano Ronaldo –, passou por Bangu, Engenho de Dentro, Tijuca. Hoje, global, mora na Barra ou no Leblon? Na era das hipercelebridades hiperbombadas pelos sites-paparazzi, a ex-BBB se resguarda: “Quem vai se abalar até Vila Isabel para vir me clicar?”, tira onda. Não tem vontade de sair do bairro onde mora desde os 13 anos.“Tem problemas, como a violência, por causa do morro dos Macacos, onde tenho amigos. Mas todo mundo faz festa, é um dos berços do samba”, orgulha-se.


A sem-noção Suellen, em Caminho das Índias, com Stênio Garcia; em A Grande Família, como a Mulher Jerimum, com Lúcio Mauro Filho, 2008

Autógrafo para os vizinhos
Não dá pra negar, a nega é do samba. Foi rainha de bateria da Império da Tijuca, já desfilou pela Unidos da Tijuca, pelo Salgueiro e agora vai sambar pela Vila Isabel. Também será madrinha de bateria da paulistana Pérola Negra. O samba do coração é “Kizomba, Festa da Raça”, enredo baseado na história de Zumbi dos Palmares que deu à Vila Isabel o campeonato de 1988: “Meu pai cantava alto no ônibus, eu morria de vergonha. Mas hoje, toda vez que toca na quadra, eu me arrepio dos pés à cabeça”.

Filha de um sociólogo-poeta e de uma psicóloga-professora, diz – séria – que a marca da família é o humor. “Como todo mundo em casa é meio palhaço, fui ficando mais na observação.” Gosta tanto de observar o comportamento alheio que, influenciada pela mãe, estuda psicologia – faculdade que trancou no quarto período. Foi no dia de sua saída do Big Brother que descobriu ter passado no vestibular. “Todo mundo acha que chorei por ter saído, mas me emocionei foi porque soube que tinha entrado na UFRJ e que minha mãe tinha feito, dentro de casa, o parto da filha da minha prima!”

Aí ficou difícil a ação social: Juliana chegava na comunidade, e o povo já pedia autógrafo. Repensou a vida. Caiu no colo um contrato com a Globo, que lhe rendeu a Gislaine de Duas Caras, uma piriguete que vivia seminua. Juliana virou febre nacional. A próxima personagem é outra nega maluca – mas em registro wannabe. Para isso ela até criou um penteado com trancinhas (desenhado na cooperativa de trançadeiras Ubuzima), assim mantém distância entre Suellen e Juliana. “Suellen não quer ser artista; quer ser famosa. E nisso vou estranhar as pessoas. Quando me veem na rua, sempre perguntam: ‘Ué, mas você é assim?’. Achavam que eu era a Gislaine!”, espanta-se. “Não sou Suellen nem Gislaine. Não digo que sou melhor, mas o rótulo vem de pessoas que não são atentas. Pra fazer a Suellen, tô lembrando de uns sem-noção do BBB”, gargalha.

Apesar de tentar manter distância entre novela e “vida real”, Juliana namora há sete meses o ator Guilherme Duarte... seu par em Duas Caras. Esses limites borrados confundiram a cabeça da atriz. “Sempre tenho medo de tirar o pé do chão. Uma hora quis me olhar no espelho pra saber quem realmente eu era. O ator precisa cuidar da cabeça, porque o sucesso nunca é dele! E eu tinha remorsos por me distanciar da família... Aí uma amiga indicou um tipo de terapia espiritual que tem a ver com radiestesia, que faço com a dona Conceição, de Campo Grande. Passou a confusão”, conta.


De trancinha no BBB3, 2003. “Era uma chance de falar sobre racismo”; Gislaine, de Duas Caras, rainha da bateria, como na vida real

Preto no branco
“Os negros falam que não sou negra, os brancos falam que não sou branca”, ri Juliana, que não perde a chance de abordar a discriminação racial. “Se a gente se cala, atrasa o processo. Por isso sou a favor das cotas para negros nas universidades e nas empresas. Temos de reverter uma dívida histórica, do Brasil, com as pessoas negras, que não têm a mesma oportunidade de ascensão social.” Sofreu preconceito? “Uma vez, quando tinha 7 anos, brincava com minha irmã num parque e umas crianças brancas gritaram: ‘Sai daí, teu lugar é na senzala’. O pai delas estava atrás. Se tivesse dado educação, jamais falariam isso. Outro dia, minha sobrinha veio com ‘o cabelo bonito é o cabelo liso’. Os padrões de beleza são esses!”

Contudo, para os artistas o suficiente seria ter talento, não? Não. “O mais absurdo que ouvi foi de um produtor de elenco: ‘Ai, não... a gente já tem uma... uma assim que nem você’. Pra fazer comercial, ouvi ‘já temos uma com seu perfil’. Como assim ‘meu perfil’, cara pálida? [Risos.] As pessoas tendem a achar que negras e mulatas são iguais e que no universo dos não-afrodescendentes há uma gama maior de diferenças. Há variações de tons de pele, de tipos de cabelo. Eu me considero uma negra de pele clara. Só posso reivindicar igualdade de oportunidades se me sentir negra. E me bato muito por expressões como ‘denegrir’, ou ‘a fome é negra’. Quando o poder for mais bem etnicamente distribuído, essas coisinhas de origem racista vão sumir”, acredita.

E com que Juliana sonha? Filhos, viagens, filmes? Ela discursa lentamente: “Equilibrar o sucesso no trabalho com o pessoal, melhorar a qualidade de vida da família e fazer do sucesso como atriz um instrumento de contribuição social”. Não parece ser tão difícil quanto os sonhos do discurso de posse de Barack Obama. Guardadas as diferenças entre arte e vida, se os yankees têm feito a parte deles, Juliana tem ajudado a fazer a nossa. Agora, bora pro samba.

 

 

 

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