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Círculo viciante

por Ronaldo Bressane

Meu Mundo Caiu, de Eduardo Logullo (Novo Século). Esta audaciosa biografia do jornalista Eduardo Logullo demonstra que a MPB nem sempre foi território de tchutchucas fuleiras, sambistas faceiras ou virtuoses sem virtude: Maysa era roots nos quesitos emoção e densidade, sem descuidar de uma técnica absurda. E, privilégio de poucas, também foi brilhante compositora. O livro abre ousado, em um monólogo interior que nos leva ao fatal encontro da Brasília da dama dark da bossa nova com o guardrail da ponte Rio-Niterói. Como Flaubert escreveu e Logullo lembra, “cuidado com a tristeza: vicia”.
   

Convite para Ouvir Maysa Número 2. Minha infância foi emoldurada por este álbum, um dos favoritos do meu pai. Ah, nada como abrir uma manhã ensolarada com “Bom dia, Tristeza”, parceria entre Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes; nada como girar cubos de gelo num rio de Jack Daniels ao som de “Meu Mundo Caiu”… Em 11 canções, Maysa nos ensina que, assim como a alegria não precisa vestir um vulgar abadá, a melancolia pode ter mais classe que uma balada do Evanescence. Se está naqueles dias, nega, fuce sebos atrás deste vinil e seja feliz, infeliz. 
 

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath (Record). Se Maysa fosse poeta, talvez tivesse sido Sylvia. Como ela, foi mãe, esposa e artista. Quem viu Sylvia, em que a autora é Gwyneth Paltrow, verá aqui o resultado do processo de criação. Amarga, neste pseudodiário Sylvia é sarcástica com os limites da “mulherzinha” em que se enfiou: “Achei melhor ficar séria para não mudar o desenho da minha boca”, escreve. Melhor que aderir ao culto à suicida é mergulhar na leitura – ao sair desta redoma, outro mundo surge. Como acontece com quem ouve Maysa: impossível sair ileso – e menos vivo.
 


 

Ioga para quem não Está nem aí, de Geoff Dyer (Cia. das Letras). “Eu desejava já vir praticando ioga havia muitos anos – na verdade, fazia anos que eu desejava vir praticando ioga havia muitos anos –, mas eu era incapaz de começar”, escreve o autor, em uma estada no Santuário de Ko-Pha-Ngan, Camboja. Dyer é um preguiçoso insatisfeito:  movido por um senso de inadequação, turisteia levando melancolia, curiosidade e ironia. New Orleans, Roma, Bali e outros são devorados pelo jornalista viciado em Sylvia Plath e Hunter S. Thompson, em busca de iluminação – nem que esta esteja contida no buraco de um donut.
 

 

Morreu na Contramão, de Arthur Dapieve (Jorge Zahar). Quem conhece o galhofeiro crítico de costumes, parceiro de Marcelo Madureira na GNT, pode estranhar este livro, fruto de suas pesquisas sobre o tema recorrente das canções de Maysa: o suicídio. Assim como O Deus Selvagem, de A. Alvarez (poeta e amigo da escritora Sylvia Plath), Dapieve historia a prática da auto-aniquilação sem moralismo. A diferença é que o jornalista examina o tabu da mídia em relação ao suicídio – ainda que, segundo a OMS, entre 20 e 60 milhões de pessoas tentem se matar, a cada ano. “Cerca de um milhão consegue. Tal número supera o de mortes em guerras e assassinatos”, calcula Dapieve.

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