Cássia Kiss

A atriz atropela os tabus e fala de sexo, bipolaridade, drogas, e bulimia

por Luara Calvi Anic em

Cássia Kiss só tem 52 anos. E isso não é ironia. Quatro filhos, três casamentos, mais de 20 novelas, bulimia, bipolaridade, o assassinato de Odete Roithman. Ainda tem fôlego? Então siga em frente e tome um tiro desta mulher que saiu de um cortiço para se tornar um dos maiores nomes da TV brasileira

Pergunte para o seu namorado. Um dos primeiros peitos não maternos que ele viu na vida pode ter sido de Cássia Kiss. Era 1989 e os seios da atriz apareceram em horário nobre. A função era social, ensinar as brasileiras como fazer o autoexame de prevenção ao câncer de mama. “Meus peitos eram a oitava maravilha do mundo”, brinca. Há um ano, mais uma vez os peitos de Cássia Kiss causaram polêmica. Foi quando ela revelou, numa entrevista à Marília Gabriela, que dava de mamar para o filho de 4 anos. Comentários, piadas de mau gosto e análises freudianas não faltaram na época.

Cássia Kiss é mesmo uma mulher de peito. Tanto que ultimamente ela tem declarado, nunca antes com tanto orgulho, ser “a mulher mais feliz do mundo”. É que, há um ano e três meses, conheceu, em um aeroporto, o médico e psicanalista João Magro. Apaixonada, terminou uma relação de 12 anos com o jornalista Sérgio Brandão, com quem teve dois de seus quatro filhos. Trocou alianças com o novo par em setembro e, desde então, é em João e na família que ela está focada. Para que esta entrevista saísse, foi preciso marcar duas baterias de conversa, já que na primeira a atriz praticamente só falou do novo amor.

Sem rótulos

Cássia nasceu em São Caetano do Sul, Grande São Paulo. Filha de uma dona de casa e de um mecânico, saiu de casa aos 15 anos para se tornar uma das grandes representantes da telenovela brasileira. Em seu currículo estão 19 novelas, 7 minisséries e 13 filmes. Foi Lulu de Roque Santeiro (1985), Leila de Vale Tudo (1988), Maria Marruá de Pantanal (1990), Guiomar de Um Só Coração (2004), Maria da minissérie JK (2006) e, recentemente, fez sucesso como a beata Mariana, da novela Paraíso. “É legal ver que ninguém me rotulou. Não sou a vilã, não sou a mocinha, não sou o bandido, não sou a velhinha.” No cinema fez, entre outros filmes, Bicho de Sete Cabeças (2001), Meu Nome não É Johnny (2008), Chega de Saudade (2008) e acaba de ganhar o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio pelo filme Os Inquilinos (2009).

Aos 52 anos de idade e 31 de carreira, depois de quase uma década longe do teatro, voltou ao palco sob a direção de Ulysses Cruz. Zoológico de Vidro, de Tenesse Williams – em montagem superelogiada pela crítica especializada –, está em cartaz até dezembro, no Rio. O diretor é amigo da época em que Cássia fazia teatro amador, era macrobiótica, discípula do guru indiano Osho, comia apenas dois potinhos de arroz integral por dia e morava numa quitinete sem cortinas, tamanha a dureza financeira.

Hoje a atriz vive num apartamento espaçoso na Barra da Tijuca, no Rio, com o marido e os quatro filhos: Joaquim Maria, 13, e Maria Cândida, 12, de sua relação com o publicitário José Alberto Fonseca; Pedro Gabriel, 6, e Pedro Miguel, 5, do casamento com o jornalista Sérgio Brandão. São agregadas também a empregada de Cássia e sua filha de 15 anos. Na sala de estar, dois sofás de pano em diferentes tons de verde, vasos de orquídeas brancas, um skate largado no canto e quadros de artistas brasileiros como Heitor dos Prazeres e Iberê Camargo. “Cansei de todos, quero trocá-los por quadros de flores”, diz. Enquanto toma seu misoshiro e bebe suco de uva orgânica, Cássia, à vontade em sua casa, abre o peito para a Tpm.

Tpm. Como é que você, com as rugas naturais da idade, lida com as fórmulas mágicas de beleza que impregnam as revistas femininas esta época do ano?
Cássia Kiss. Nunca tive isso. Sou uma mulher de 52 anos e nunca fui prisioneira de nada, de padrões, de jeito nenhum. Admiro o caminho que eu escolhi. O caminho de envelhecer é bonito, quero envelhecer com dignidade.

Você é contra plásticas?
Não tenho nada contra quem faça, apesar de achar que muita gente acaba estragando o próprio rosto. Quanta vezes você não ouve “ah, aquela pessoa era tão bonita. Ih, um olho fecha o outro não”? Sei que me veem e dizem “por que ela não puxa um pouquinho aqui?”. Porque prefiro fazer personagens de que digam “como ela está bonita com essa personagem”. Se eu for contar a história de uma mulher bonita, vou fazer de tudo para fazer uma mulher bonita, estar com um belo cabelo, uma pele linda, um corpo bacana, um figurino legal.

Você tem dito em entrevistas que depois de 26 anos de depressão e bipolaridade é a mulher mais feliz do mundo. Quem era a Cássia bipolar e o que mudou nela?
Ser bipolar é perder o controle. Você perde a paciência num nível mais agudo com os filhos, por exemplo. Quando vê está sacudindo a criança, falando mais alto. Vira meio bicho, sabe? É uma coisa que amedronta as pessoas. Aí volta e quer se desculpar, mandar flores, pede perdão, chora. Repeti isso muitas vezes. Um medicamento e acompanhamento evitam que isso aconteça. Mas tomar medicamento não é o fundamental. Importante é o ambiente familiar. É ele que te torna doente.

Como assim?
É a primeira vez que estou tendo uma família, que vivo o que estou vivendo com meus filhos. Só com medicamento, e com um ambiente familiar feliz, que eu consegui [sair da depressão]. Você está naquele buraco exatamente por causa do ambiente infeliz, doente. Essa semana a gente estava brincando de pique-alto com as crianças, que é você subir em algum lugar alto. Quando me dei conta o João [marido] estava subindo no sofá de sapato. Falei: “Porra, João. Qualé? Tira o sapato, a gente está destruindo a casa”. Foi com tanto humor, em outros tempos eu poderia perder o controle. Ele me provoca para eu ter uma reação legal, não ficar puta. Estou casada com um homem que cuida. Esse é o verbo de um relacionamento diferente dos outros, cuidar.

Como era o ambiente familiar “doente”?
Minha mãe foi junkie. Eu apanhava pra cacete. Tudo era “olha aqui quando você chegar em casa!” [mostrando a palma da mão no alto]. E não tinha jeito, apanhava. Podia demorar três horas pra voltar pra casa de medo, mas chegava uma hora que falava “deixa eu voltar para apanhar logo e aí acaba”. Era chinelada, depois ia para o banho cheia de marca na bunda, na perna, toda fodida. Mas, tudo bem, você abaixa a cabeça, fica quieto e pensa “ai, já passou”.

Você era muito difícil quando criança?
Não é ser muito difícil, era uma geração em que as mães foram educadas assim e elas educavam assim também. Me lembro da minha mãe me dando um cacete quando eu tinha 5 anos, era cacete mesmo. Você pensa que eu já não enfiei a mão na Maria Cândida e no Joaquim? Claro que enfiei. Quer saber se me arrependo? Pô, caramba, completamente! Se pudesse voltar no tempo... É que tenho certeza de que não ficou nada, não dá para as crianças se lembrarem: “Pô, mãe, você me bateu”.

Você acha que as crianças perceberam a diferença de uns tempos pra cá?
Nossa! Uh! Meus filhos não precisam ter um pai só, eles podem ter pais. O João tem que ser pai deles também, discutir, educar. Tenho 52 anos e já ouvi : “Pô, você não tem mais idade para recomeçar. Que história é essa de arrumar uma outra pessoa na sua vida?”. Olha que loucura, que bobagem! Não é recomeçar, é um renascer mesmo. Nós tivemos uma oportunidade de começar as coisas direito. Se os casais funcionassem assim, se os casais fossem as pessoas principais na família... Estávamos reparando isso no aeroporto. A esposa chega de viagem, dá um beijinho de leve no companheiro, mas a festa toda é pra criança. Está errado! Mesmo porque os filhos crescem, vão embora.

É mais difícil criar menino ou menina?
Menina. A Maria Cândida é mais difícil. Quando estão só os três meninos tá maravilhoso. Chegou ela... puf! Maria Cândida quando está em casa vale por dez. É uma loucura. Ela é muito parecida comigo. Entende tudo, é rápida. Não tem muita paciência, não. Quando você está indo colher o milho ela já fez o bolo. É geniosa. O que eu tenho aprendido com ela, e o João tem me ajudado, é que quero destruir a imagem da mãe chata.

“Saí de casa com 15 anos. Me lembro que falei: ‘Eu posso levar minha cama?’. Levei uma cama e um jogo de lençol. Só”

Ela tem essa imagem de você?
Acho que tem... Não quero ser a mãe que fica brigando “vai escovar o dente, vai fazer o seu dever, vai para o quarto”. Gostaria que eles não me chamassem nem de mãe. Por mim me chamariam de Cássia. Quero ter a relação de ser humano, poder ajudá-los sem ser a mãe chata. Não gosto do que a minha mãe passou pra mim, sabe? Meus filhos jogam futebol dentro de casa. Meu colchão custou R$ 10 mil, vou deixar eles pularem em cima da cama? Claro que eu vou! Quero mais é que eles pulem! Os quatro, mais meu marido, mais eu, mais quem couber em cima da cama pra ficar pulando. Me lembro quando eu pulava em cima do colchão da minha mãe escondido...

Como foi sua infância em São Caetano?
Morávamos num cortiço, num quarto-cozinha. Nasci em casa, parto normal. Os quatro filhos ela teve em casa. Era interior, passava carroça, apesar do asfalto com paralelepípedo. Uma vida muito simples. Ia pra escola a pé e sozinha, era longe, 2 quilômetros.

Sua mãe é viva?
Sim. Mora em São Caetano e continua tendo uma vida muito simples. Meu pai faleceu e ela mora sozinha. Também tem um transtorno mental, mas se medica. Na verdade eu herdei. Essa coisa veio da minha vó, foi pra minha mãe, pra mim e eu preciso ficar muito atenta se foi pra minha filha pra poder tratar rapidamente.

Como é a relação com sua mãe?

Nos falamos todos os dias. É bonito ver que quando a gente amadurece perdoa e é perdoado. Eu perdoei minha mãe, minha mãe me perdoou. Saí de casa muito jovem, com 15 anos. Apanhei bastante e chega uma hora que você não quer mais viver isso. Ela disse: “Olha, prefiro que você vá cuidar da sua vida agora”. Fui porque eu já trabalhava, cuidava das minhas coisas. Me lembro que falei: “Eu posso levar minha cama?”. Ela falou: “Pode”. Levei uma cama e um jogo de lençol. Só. Não levei mais nada. Fiquei um bom tempo sem falar com ela, uns quatro anos sem dar notícias para ninguém da família.

Vocês duas brigavam muito?
Nós brigávamos muito, muito, muito. Não era pouco, não. Não sou uma pessoa muito fácil, pelo menos não na época. Era muito dona do meu nariz. Fui morar na casa de um casal de amigos músicos, em São Caetano do Sul. Depois fui para São Paulo e aluguei uma quitinete lá no centro, na Santa Cecília, e fiquei por ali fazendo teatro. É um período que é difícil falar porque foi muito solitário. Foi um período de depressão. Em São Paulo conheci um cara que me viu fazendo uma peça, a gente começou a namorar e eu fui com ele para o Rio. Depois de sete meses separei e fui cuidar da minha vida. Já tinha 22 anos.

E como eram seus amigos em São Paulo?
Adorava meus amigos, a cultura da rua foi muito importante pra mim. A gente discutia e lia muita coisa. Fumava muita maconha. Era uma gente que falava uma língua que eu não conhecia, calava minha boca e ficava atenta para poder aprender com eles. Me enfiava em todas as coisas que achava que pudesse colaborar para o meu desenvolvimento. Antes de sair de casa, com 14 anos, fiz parte de um núcleo de convergências socialistas. Nossas reuniões eram secretas, a gente bebia cachaça, não tinha dinheiro para comprar um vinho. Me lembro de pular a janela de casa pra minha mãe não sentir o cheiro da cachaça que tava na minha boca. Senão ia dar o maior pau.

Você falou de maconha, as drogas tiveram algum papel de mudança na sua vida?
Usei chá de cogumelo e maconha. Quando vi que tinha que cair fora dessa história eu caí sozinha. Ninguém veio dizer que é uma roubada. Se bem que não acho nada demais em maconha, apesar de saber que eu não posso usar por causa do meu transtorno. Não devo usar e não uso.

Você não parece se sentir velha. O que diria para as pessoas que talvez se achem velhas com 35, 40 anos?
Eu não sou velha e não tenho muito tempo pra pensar sobre isso. Tenho quatro filhos e preciso ter boa condição física porque é um rojão. Se a gente está a fim de educar nos moldes que queremos, precisamos ter gás para estar junto com eles, brincar, correr. Precisa fazer muita musculação, caminhar, fazer muito alongamento, muita flexão. Precisa ter braço pra aguentar. As crianças me trouxeram muito vigor, a minha condição física hoje é muito boa. E isso não tem nada a ver com as rugas que tenho, com o meu cabelo branco. Estou com 52, o Miguel está com 5 anos, e até os 62 eu tenho que estar bombando.

Teme morrer?
Agora não quero morrer. E não quero que o João morra. Estamos nos cuidando para poder viver bastante. Pelo menos até os 80 anos a gente quer estar bem. Você acha que tenho vergonha de sair na revista Caras com meu marido? Não! Querem me fotografar? Fiquem à vontade. Porque vão fotografar o lado bom. Me impressionam muito os colegas que se escondem, que não têm um cotidiano como qualquer pessoa.

Então paparazzo não te incomoda?
Qual é o melhor instrumento de trabalho para uma atriz? É a vida. Preciso estar na vida, fazer as coisas simples do dia a dia, pra contar as histórias preciso vivê-las. Vou ao supermercado, dali vou passar no banco, depois pego as crianças na escola. Se eu não tenho uma vida assim como é que vou ser atriz, como é que vou trabalhar?

Você disse em entrevistas ano passado que amamentava seu filho de 4 anos e causou certo burburinho. Por quê?
A grande maioria das pessoas que criticaram não sabe o que é amamentar uma criança até os 4 anos. Você desenvolve um afeto que é uma delícia. Um menino que é skatista, com capacete e skate no braço e vem mamar. É divertido pra ele, pra mim, é meu filho mais afetuoso e o mais macho, viril, que enfrenta tudo. Tenho foto na rua dele me pedindo peito. Só parei porque quando dormia ele serrava o dente e o bico do meu peito ficava lá dentro. Falava: “Agora fodeu, né? Ele arrancou o bico”. Tinha que enfiar a mão e abrir a boca dele para poder tirar o bico lá de dentro.

Manoel Carlos disse em uma entrevista à Tpm que foca suas tramas no universo feminino porque mulheres têm “menos pudor para confessar casos de insucessos”. Você não parece ter pudores para falar da sua vida.
Nunca uso estratégia para falar de mim, para dar entrevistas. Não me permito uma mentira. Não me permito chegar atrasada no meu trabalho e falar “furou o pneu do meu carro”. Não! “Gente, tava namorando meu marido. Vocês me desculpem. Vi que eu estava atrasada, mas não consegui.” Já fiz isso duas vezes na TV Globo. E olha que eu sou caxias, não chego atrasada. A verdade te dá uma coisa muito importante: liberdade.

Você passou 30 anos com depressão e bipolaridade até recorrer a medicamentos. Tinha preconceito com os antidepressivos?
Nunca. Como é que você vai negar a medicina? Conheci uma pessoa que não vacinou os filhos contra pólio por uma questão de ideal. Não é um absurdo? Eu não tomei medicamentos antes porque não assumia que tinha uma doença.

“A bulimia veio por causa da minha falta de afeto, da solidão. Você enfia qualquer coisa na garganta para botar aquilo pra fora. Machuca, sangra”

Mas durante um bom tempo você viveu um estilo de vida bem alternativo. Foi macrobiótica, vegetariana, discípula de Osho...
Já fiz dez dias de jejum absoluto, sem comer nem beber. Fiz uma dieta que passei 50 dias comendo uma tigelinha de arroz integral ao meio-dia e outra às seis da tarde. Não tinha dinheiro, precisava sobreviver e queria me manter equilibrada. Essas experiências me fizeram perceber que é legal ter autocontrole. Você não pode ser radical. Nem tanto alopatia, nem tanto homeopatia. Eu não como carne vermelha, mas hoje no meu prato tem galinha caipira, peixe, ovo caipira. Como arroz integral todo dia.

Onde você morava na época da macrobiótica?
Numa quitinete onde o pouco que ganhava trabalhando na TV Educativa do Rio ia para o aluguel. Dormia num colchãozinho, tinha meia dúzia de peças de roupa no chão, três livros, uma escova e uma pasta de dentes, uma panelinha de pedra e um fogão de duas bocas.

Acha que essas suas experiências com jejum e macrobiótica contribuíram para desenvolver a bulimia, que você teve por 13 anos?
Não. A bulimia é outra história, uma questão emocional que não tinha nada com essas outras coisas que fazia para me equilibrar. E nem para ser magra, até porque eu não era gorda. A bulimia veio por causa da minha falta de afeto, da minha solidão. Entrava num restaurante e ia para o banheiro. Saía toda inchada, vermelha, com o olho lacrimejando. Você enfia qualquer coisa na sua garganta para botar aquilo pra fora. Machuca a garganta, sangra. É uma merda. Quem entra nessa tem que dar um jeito de sair. Eu saí sozinha, sem ajuda e sem dizer pra ninguém. Parei quando fiquei grávida, aos 38 anos, do meu primeiro filho, o Joaquim.

Como era a rotina de uma bulímica?
Ia comprar uma torta e comia ela toda, depois botava inteira pra fora. Não satisfeita, comprava outra e botava ela inteira pra fora de novo. Repetia isso várias vezes ao dia. Evidentemente longe de pessoas, morei durante muito tempo sozinha. Ninguém nunca percebeu nada. A pessoa com a qual eu me relacionava não sabia. A bulimia é dramática. Quem padece disso tem que pedir ajuda, porque vai desenvolver uma doença complicada.

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Há uns cinco anos, quando você ainda era casada com (o jornalista) Sérgio Brandão, estava bem mais magra. Por quê?
Cheguei a 47 quilos. É você estar comendo sem efeito, se deixando consumir. O buraco, a tristeza... é tudo tão grande que vai te consumindo, vai comendo tudo dentro de você. Você sabe que está naquela situação e não consegue sair.

Você está no seu terceiro casamento. Tem medo de cair na mesmice?
Quem te falou que eu casei três vezes? Tá louca, mulher? Eu nunca casei. É a primeira vez que eu caso. Diz o João que meus filhos são do divino espírito santo [risos].

Numa entrevista que deu há um ano, parecia plena em relação ao casamento de 12 anos com o Sérgio Brandão.
Eu achava que estava casada, mas aquilo não foi um casamento. A gente não morava na mesma casa, não éramos plenos. Tenho certeza de que casando eu estou agora, o verbo é no gerúndio. Casando todos os dias. Sou mulher dele, parceira, estou junto do João o tempo todo.

Como você o conheceu?
No aeroporto, ele se aproximou de mim, eu nem convidei e ele sentou do meu lado. Falou que era médico, psicanalista. No dia seguinte, estava esperando para pegar um avião para Belo Horizonte. Ele apareceu de novo, por coincidência. Me deu um poema do Fernando Pessoa e, chegando a Belo Horizonte, me ofereceu carona. Não aceitei. Passou uma semana e ele me telefonou num domingo, oito da manhã. No fim da conversa ele disse: “Você é visível?”. Eu disse: “Sou”. Ele me convidou para a gente se encontrar no Jardim Botânico no domingo seguinte. Dez da manhã estava lá, liiinda. Começou a chover, começou a esfriar, eu falei pra ele: “Estou com frio”. Acabou a história [risos]. Nós nunca mais nos separamos.

Aí você terminou sua relação anterior?
A história anterior acabei em meia hora. Incrível, né?

O João pediu sua mão em casamento?
Falei pra ele seis meses depois que nos conhecemos: “Vamos casar?”. Ele ficou emocionado, achou que eu não queria casar. O casamento foi um ano depois do dia em que a gente se conheceu, 3 de setembro. Foi bárbaro organizar as coisas, ir atrás de cartório, a nossa vergonha no cartório marcando a data, vendo a papelada toda.

Vergonha?
Eu com 52, ele com 57 anos... Nos divertimos muito no cartório. A pessoa que nos atendeu acabou sendo nossa cúmplice, nós voltamos duas vezes depois, era documentação que não ficava pronta, nossos filhos não podiam ser testemunhas, pedimos testemunha para as empregadas da minha casa. E mudei de nome, agora sou Cássia Kiss Magro.

“Sou a mulher mais feliz do mundo! É emocionante porque o que a gente faz é amor. Trepar você trepa com qualquer um. A gente não trepa”

Como era o sexo na juventude e agora?
Pô, você ainda não entendeu? Eu sou a mulher mais feliz do mundo! É emocionante porque o que a gente faz é amor. Trepar você trepa com qualquer um. A gente não trepa. Li uma pesquisa sobre quantos minutos durava uma transa entre pessoas que já eram casadas, que moram juntas. A estimativa era de, no máximo, 15 minutos. Fiquei chocada. O cara fica de pau duro, vira para o lado, come a mulher e tchau. A grande maioria não fala nem boa noite. É uma tragédia! Sou uma mulher de 52 anos, quero fazer as coisas ficarem melhores!

Existe muita expectativa de felicidade sobre essa sua relação com o João. Você ficaria bem sozinha? Bem sozinha?
Não, não, não. Posso viver sem uma série de coisas, mas sem o João não vivo e não tenho interesse em viver. Por isso que a gente está muito atento em cuidar um do outro. Estamos tão felizes que se bobear a gente atravessa a rua e é atropelado. O João é minha vida.

Então toda a sua felicidade está presa a uma pessoa, o João?
Não é toda a minha felicidade que está presa a ele. Eu tenho meus filhos. Mas só eu sei o que a presença do João tem proporcionado dentro da nossa casa. Como é que as crianças estão se comportando, o que elas estão sentindo. E a pessoa responsável por isso é o João.

Você faz terapia há 15 anos. Em algum momento já se sentiu dependente do seu psicanalista?
Não, não é dependência. Já vou bem menos, antes era toda semana. Vou ao psicanalista pra dizer como é que estou. E ao psiquiatra vou pra dizer “olha, o medicamento está assim, esqueci de tomar dois dias aconteceu isso”. É a parte química, como é que está funcionando, se a gente aumenta aqui, diminui ali, se troca aqui. Estou tão feliz que daqui a pouco estou vivendo sem eles.

Você fez duas minisséries seguidas, numa interpretava a mulher de um governador, ao lado de Antonio Fagundes, na outra uma senhora de 80 anos. Como fazer papéis tão distintos sem ficar marcada?
Em uma fazia uma mulher bonita que é a Mad Maria. A Duncan, que é a figurinista, me vestia feito uma rainha. Os meus vestidos eram de seda pura. Em seguida fiz o JK, onde apareço como uma mulher de 80 anos. É legal ver que ninguém me rotulou. Não sou a vilã, não sou a mocinha, não sou o bandido, não sou a velhinha. Uma vez o [diretor] Mario Lúcio Vaz disse exatamente isso: “A Cássia faz qualquer papel”. Achei do caralho!

Quais foram os momentos mais felizes ou mais tristes na Globo?
Momento infeliz é quando rola uma fofoca desagradável, o chamado leva e traz. Quando alguém ouve alguma coisa e passa para o outro de um jeito que não foi, quando vira fofoca maldosa. E rola mesmo, não tem como.

Você já foi alvo de fofoca?
O Pedro Paulo Rangel é um ator que eu adoro. Se me perguntavam “um ator de que você gosta?”, eu dizia: “Pedro Paulo Rangel”. Durante muito tempo foi assim. A gente fazia par romântico na novela Sabor da Paixão e da noite para o dia ele deixou de falar comigo. Até hoje não fala. E eu nunca soube por quê. Podia ter chegado pra ele e dito: “Preciso saber o que foi que aconteceu. Uma pessoa não deixa de falar com a outra de uma hora para outra”. Mas, como não via razão para aquilo, a única coisa que passa na minha cabeça é alguma fofoca. É uma pulga atrás da orelha que anda comigo até hoje.

E vocês continuaram contracenando como par romântico mesmo sem se falar?
Continuamos. Você não sabe o que é uma pessoa deixar de falar com você de hoje para amanhã. Trabalhando com você, fazendo par romântico. Como se não bastasse tinha a questão do transtorno. Isso me enlouquece. Quem sabe um dia não encontro com o Pedro Paulo, velhinha, e ele me conte. A gente se encontra um dia, as pessoas mudam.

Pergunta que não quer calar: quem matou Odete Roithman?
Cássia Kiss [risos].

Créditos

Maquiagem Israel Escobar (BLZ)

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