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Campos de Jordão (Tomo 1)

Leonor e a pedra

 

E daí que depois de todo mundo, até do meu irmão, eu perdi minha virgindade de Campos do Jordão. Nunca tinha ido ver de perto a high society virar picolé e nem foi por falta de oportunidade. Talvez por falta de oportunismo. Mas o que importa é que fui passar o fim-de-semana nos Alpes paulistas, como uma alternativa a todo esse papo de aquecimento global sob os 40º que tem feito aqui em São Paulo.

Coloquei meia dúzia de saias em uma mochila e duas blusinhas (eu calculo mal, minha gente), um vestido preto arrasador e resolvi consultar a meteorologia sobre agasalhos:

– Mãe, eu levo ou não uma blusa?
– Ai, está muito calor! Leva uma blusinha só…

E como radar de mãe nunca erra, coloquei um agasalho de veludo na mochila, dei um beijo na testa do filho e fui pegar a estrada com o Dani.

Assim que cheguei em Campos do Jordão, curei minha bronquite, embora eu nunca tenha tido bronquite. O ar de lá realmente faz bem e expectora qualquer buraquinho do seu corpo. Como se de tempos em tempos a prefeitura borrifasse mucusolvan no ar. Mas é tudo natural, o que pode ser ainda melhor, sei lá.

Deixamos as bagagens na pousada onde o banheiro tem azulejos aquecidos. Coisa de Deus. Depois fomos passear. Nosso primeiro passeio foi em um local chamado Confraria da Terra. Uma pousada cheia de quartos, cozinha e banheiro, nada diferente do que eu já vi na vida.

– Por que você me trouxe aqui?
– Para ficarmos em uma próxima vez…

Meu namorado é ansioso, mas não acho que seja tanto. Quando entramos, fomos recebidos por uma mulher que se prontificou a nos mostrar as instalações. E atrás veio seu filho birrento, que lhe esbofeteava enquanto pedia:

– ME DÁ BATATA!!!!
– Lucas, se você não parar de me bater eu te bato.

Lucas. 

– Amor, vamos combinar que assim eu não vou conseguir relaxar.

Então subimos o Pico de Itapeva, aonde o progresso chegou antes de nós. Muito parecido com o camelódromo do Brás: a natureza mais viva por lá é uma blusa feita de lã de carneiro.

Eu já me preparava para comer uma porção de alface (porque o Dani precisava suprir a vontade de ver a natureza), quando meu namorado resolveu declarar todo o seu amor:

– Vamos comer no Gato Gordo? Lá tem uma batata assada mergulhada no catupiry e gratinada no forno…
– Você nunca me disse nada tão bonito!

E eu descobri porque Campos do Jordão está entre os lugares mais procurados do Estado. Se come bem demais nessa cidade. Me empanturrei de batata e ainda comi um filé de truta com alho e gorgonzola.

Depois de estar completamente anestesiada, o Dani veio com a proposta:

– Você quer andar naquela porcaria de teleférico ou você quer fazer um passeio lindo, maravilhoso, fantástico na Pedra do Baú?

Claro que eu deveria ter escolhido o teleférico, mas resolvi dar um crédito para a alegria e empolgação do Dani. Afinal, a Pedra do Baú deveria ser um paralelepípedo com uma porção de flores em volta e uma fábrica de malharia bem ao lado.

Dormi no caminho e acordei batendo a cabeça no teto, enquanto o Daniel maltratava seu carrinho em uma buraqueira na estrada de terra. E era lama de um lado, vaquinha (ou boi – alguém sabe a diferença?) do outro e insetos por todos os lados.

Paramos em um mirante na estrada, de onde dava para ver a tal Pedra do Baú. Dali de onde estávamos ela parecia pouco maior do que um paralelepípedo, mas faltava cerca de 20 km até lá. Ela era maior, muito maior do que eu imaginava.

– Pronto, querido. Agora que nós vimos a pedra, vamos voltar para a civilização?
– Não. Agora é que vem o melhor… Vamos subir na pedra.

“Brincalhão esse meu namorado”, pensei. Meia hora depois chegamos no pé da pedra e uma plaquinha dizia que se fossemos para a esquerda, em uma hora estaríamos na Pedra do Baú e em meia hora desbravaríamos o seu topo, nunca dantes desbravado. Se fossemos a direita, em dez minutos estaríamos no singelo e pequenino bauzinho.

Olha, devo confessar que se participasse da Porta dos Desesperados, eu nunca ganharia um dynavision. Efeito da batata ou influencia comunista, escolhi a porra da esquerda.

Uma hora em mata fechada, subindo, enfiando o pé na lama, fugindo de bichos, de sainha, menstruada e com a única blusinha de frio que tinha levado. Não que estivesse frio, mas eu precisava proteger a minha pele daqueles monstros que voam.

Claro que eu fui reclamando o caminho inteiro. Não sei quantos de vocês sabem que eu tenho pavor de aranha e ali era como a Zona Leste das aranhas. Eu girava meus braços de dois em dois segundos, em um movimento mecânico, e assim me livrei dos pernilongos, ornitorrincos e outros animais imundos.

– Amor, você acabou de espantar um passarinho…
– E daí??? Se está aqui é porque é MAU! Esse passarinho só pode ser ruim! Aqui até a porra da flor pica.

Eu suava sem tirar a blusa de frio e começava a ter alucinações. Vi umas escadas amarelas, de ferro, que nos levavam lá para cima, como se alguém já tivesse passado por ali e nos presenteado com tubos e conexões tigre. Impossível. Aí, lá pelo meio da pedra, eu temi pela vida do Daniel que tem medo de altura e resolvi voltar. Vai que anoitecesse lá pelas 3h da tarde e nos perdêssemos para sempre naquela mata fechada.

Na volta, encontramos uns japoneses que, como não poderia ser diferente, fotografavam tudo ao seu redor. Inclusive minha calcinha preta que provavelmente está no orkut com a legenda: “perereca selvagem na trilha do Baú, Campos do Jordão.”

Fui picada por uma cobra-mosca e comecei a rezar para que tudo aquilo acabasse logo, quando vimos o estacionamento de carros.

– Vamos no Bauzinho agora?
– Nem fodendo!
– Poxa, vamos lá, vai…

Como o Daniel me prometeu uma nova batata, eu sucumbi e subi a trilha, ignorando que a minha perna tremia tanto quanto aquele dia do exame do Detran, só que agora com o agravante de estar sem um instrutor bonzinho. Na minha humilde opinião de quem nada entende sobre a natureza, o Bauzinho tem uma vista muito mais incrível e indolor, embora formigas africanas te piquem enquanto você fotografa as araucárias de lá de cima. Voltamos do Bauzinho e um gringo no estacionamento avisou o Daniel:

– Você se ferrar… Um menino atolar o carro na parte mais fácil de passar na estrada.

E lá fomos nós, com toda a sorte que deus nos deu.

(continua)

A jornalista Leonor Macedo, 24, é mãe do Lucas, corintiana praticante, adora ganhar trufas, mas, no fundo, alimenta um desejo não muito secreto de ser Bruce Lee. Enquanto não consegue, passa os dias escrevendo no blog Indecências e deixando recados profundos em portas de banheiro

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