Nina Lemos, editora desta seção, é masoquista. E por isso decidiu passar uma noite usando uma bota pata de bode, o calçado que ela mais odeia no mundo. Tudo em nome da notícia e da curiosidade. Afinal, por que as pessoas usam essa coisa?
Algumas coisas no mundo são misteriosas. Por que eu não me vejo se os outros me enxergam? Por que eu existo? E a questão mais importante de todas: por que as pessoas usam aquela bota chamada de pata de bode? Já perguntei para a minha prima de 14 anos que usa uma dessas. Acho que ouvi algo do tipo: “Sei lá, tia”. Mas eu não me abato facilmente. E fui experimentar aquilo que considero o auge do mau gosto (se você gosta e tem uma, desculpa. É só o meu gosto. E isso não quer dizer grande coisa).
A primeira sensação ao ficar em pé com a minha bota pata de bode foi ter medo dos meus pés. Sim, eles pareciam patas de elefante. Eu tinha sido acometida por elefantíase. E ainda tinha que andar. Atravessei a rua de mão dada com o Naddeo (o fotógrafo do experimento), com medo de cair na rua e quebrar o pé. Sim, eu uso salto. E, claro, nos anos 90 já usei muita plataforma. Mas aquilo era como estar andando em cima de um banquinho. Imagine dois bancos grudados nos seus pés e você saberá o que é andar com uma bota pata de bode.
Eu pego pesado comigo mesma (Freud tenta explicar faz tempo). Por isso me obriguei (sim, eu edito esta seção e faço essas coisas porque eu quero) a ir ao Ritz, o meu restaurante predileto, onde sempre tem alguém conhecido, com meu calçado pavoroso. Já na entrada encontrei o maquiador Robert Estevão, um amigo querido. A cara do Robert quando me viu!!! Sério. Ele ficou em choque. “Eu não acredito”, ele dizia. E eu admiti de cara, covarde que sou, que aquilo era um test drive. “Eu realmente não acharia que você usaria uma coisa dessas, ia achar que tinha alguma coisa muito errada com você, Nina.” Fiz minha enquete com o garçom gato. “Vem muita gente com esse tipo de sapato aqui?” “Não, graças a Deus”, respondeu.
Parece que a pata de bode sofre repúdio universal. Já no carro, o motorista Leandro contou que sua namorada tinha uma dessas. “Mas eu a proíbo de usar quando sai comigo.” Vixe. Se até bofe tá implicando com sapato o negócio é sério.
E é mesmo. Descobri que a pata de bode é tipo o Bush dos sapatos, a unanimidade do ódio. Eu tenho um amigo, o jornalista e escritor Xico Sá, que é conhecido mundialmente por beijar os pés das moças em atos de devoção. Encontrei Xico na entrada do templo punk brega (o Café Camalehon, na Consolação, onde todas as quintas de março cumprimos o ritual de ver o show do Wander Wildner) e o inacreditável aconteceu. Xico, que nunca recusa beijar um pé (muito menos o de uma amiga), recusou minha bota! “Esse sapato é o fim da devoção”, ele disse. E olhou com desprezo para meus pés, quer dizer, minha pata de elefante. Depois dessa, queridos, eu sentei na calçada. E com alívio troquei minha pata de bode pela minha botinha bege de salto que é minha velha e gasta amiga de baladas e que nunca me fez cair do salto. Sim, desculpa. O show do Wander e os meus amigos (e principalmente eu) não mereciam aquele sapato. Uma coisa é ser brega, outra coisa é ser cafona.
Ah, descobri parte do mistério, sim. As meninas usam esse sapato porque não dói o pé. Você anda em cima de um caixote reto. Mas isso faz com que você ande como uma pata. E, na boa, minha botinha amiga, que é um dedo mais baixa que a pata, não machuca nada. E eu ainda ando por aí com a ilusão de ser elegante no salto e punk brega na alma.
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