Interessado em fotografar
pessoas que constroem suas
próprias versões da realidade,
Jamie Lee Curtis Taete cruzou
os Estados Unidos em busca
de atrações turísticas
cristãs, encontros do
#FreeBritney e do QAnon

Por: caio ferretti
fotos: jamie lee curtis tate

Foto-irrealismo

Jesus Cristo provavelmente
ficaria preocupado se
conhecesse o trabalho
mais recente do fotógrafo
Jamie Lee Curtis Taete

É que durante os últimos
anos Jamie se dedicou a
registrar atrações turísticas
cristãs nos Estados Unidos.
E o que ele encontrou?
“Minha impressão é que essa
indústria não está muito bem”

“A maioria das atrações
que visitei já tiveram
dias melhores”, diz.
“Acho que a principal
razão é que as pessoas
neste país estão ficando
menos religiosas”

“E não ajuda o fato
dessas atrações serem
chatas. Querem passar
muita informação religiosa
aos visitantes em vez
de tornar as atrações
divertidas. Seria melhor
uma montanha-russa
do Jardim do Éden”

Nas contas de Jamie, ele
tirou “algumas milhares
de fotos” em mais de uma
dezena de lugares nos
últimos anos. Mas foi só
em 2020 que decidiu reunir
o material e transformar
tudo em um projeto temático

Durante o turismo
celestial de Jamie,
nem tudo foi um paraíso.
“Fiquei incomodado ao
ver como certas histórias
são contadas às crianças.
Coisas cientificamente
imprecisas ou transfóbicas
e homofóbicas”

“No Ark Encounter,
um parque temático da
Arca de Noé em Kentucky,
tinhaM vários produtos
de arco-íris na loja
de presentes. Era parte
de uma campanha para
recuperar o arco-íris
da comunidade LGBTQ”

Se a experiência na Arca de
Noé de Kentucky foi um pesadelo
nada divino para Jamie, outro
momento fez ele pensar que
estava em um sonho

“Foi durante a encenação
da Paixão de Cristo em
Eureka Springs, Arkansas.
Era um teatro enorme,
com mais de 100 atores,
animais vivos e show
pirotécnico”, conta

“O ator que interpreta
Jesus fez um tour comigo
pelo cenário que imitava
as ruas de Jerusalém.
Ele realmente se parecia
muito com Jesus. PENSEI
que eu estava em um sonho”

Mas o que motivou Jamie
a fotografar esse universo
de atrações turísticas
cristãs? “Eu sempre me
interessei por pessoas
que constroem suas
próprias versões
da realidade”, diz

Essa mesma curiosidade
levou Jamie a acompanhar
os encontros do movimento
#FreeBritney. “Cheguei
a pensar que os fãs
poderiam até estar
prejudicando a Britney,
especialmente os mais
conspiracionistas”

“Alguns acreditavam que
ela enviava mensagens
secretas através do
Instagram. Mas parece
que no fim eles a
ajudaram a se levantar”

Ainda interessado em
realidades questionáveis,
Jamie acompanhou de perto
e fotografou o movimento
estadunidense QAnon,
que propaga uma série
de teorias conspiratórias

“Foi uma experiência
estranha e triste. No
começo, eu debatia com
os simpatizantes, mas
depois percebi que era
completamente inútil”

“Você não pode mudar
a mente de quem habita
uma realidade diferente.
Eu tentava conversar
sobre cinema, mas eles
não assistem filmes
porque acham que o Tom
Hanks assassina bebês
ou coisas do tipo”

“Me preocupa o rumo de
tudo isso. Os eventos
que fotografo estão
cada vez mais OBscuros
e violentos. Nos últimos
meses, fui agredido,
cuspido e atingido
com spray de pimenta”

Jamie diz querer buscar essas
versões da realidade em outros
países – e já está de olho em
novas atrações cristãs pelo
mundo para seu projeto

“A Argentina tem um
parque temático que
parece incrível, com
uma estátua de Jesus
que emerge de uma
colina a cada hora”

E o Brasil, está
nos planos? “Com todo
prazer aceito todas
as dicas que você tiver
de atrações turísticas
cristãs no Brasil”

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