No livro Sub/Emerso,
o fotógrafo reúne os registros
 recolhidos das águas enlameadas
 do rio Pinheiros que invadiram
 seu estúdio em 2020

Por: Fernanda Nascimento

Os retratos
 Náufragos de
Bob Wolfenson

Na madrugada do dia 10 de
fevereiro, uma tempestade em
São Paulo fez com que a lama
do rio Pinheiros invadisse
o estúdio onde Bob Wolfenson
guardava parte da história da
fotografia brasileira

Cerca de 80% do acervo
de 50 anos de carreira
do fotógrafo foi atingido.
Assim que consegui
acessar o local, um dia
após o ocorrido, sucumbi
ao trágico legado que
avistei”, conta Bob

“Uma devastação
Inacreditável: cadeiras
Viradas, refrigeradores
Deitados, mesas
Flutuantes, livros
Enlameados, assim como
Coleções de publicações
Raras, tudo fora tocado
Pelas águas fétidas”

Ao ver o cenário caótico,
num misto de conformismo
e resistência, Bob começou
a rasgar e descartar as
fotografias “estragadas”
com as quais se deparava
em seu estúdio

Até que ele percebeu que
elas tinham ganhado outro
significado. “Nesta nova vida,
as imagens passam a existir
baseadas em novos adjetivos:
carcomidas, manchadas, rasgadas
e desfeitas”, diz

E foi desta maneira,
carregadas das marcas
da enchente, que
as fotografias se
transformaram no livro
Sub/Emerso

A publicação faz parte
do projeto Quarentena
Books, cujo lucro é
doado às pessoas
afetadas pela pandemia
de Covid-19

O cantor Caetano Veloso,
a atriz Fernanda Torres,
o arquiteto Oscar Niemeyer
são algumas das figuras
da cultura brasileira que
reemergem nos retratos
naufragados

Um escorrimento,
Impregnado na
Superfície das fotos,
Criara uma 'sobrememória',
Pois elas em si já eram
Lembranças de outras
Épocas”, diz Bob

O acervo de Bob Wolfenson,
um dos fotógrafos mais
conhecidos do Brasil,
é também um registro
histórico e artístico
das últimas décadas

A recuperação deste
patrimônio está sob
responsabilidade do
Instituto Moreira Salles,
especializado na
recuperação de acervos
fotográficos

Ainda que uma equipe de
voluntários tenha corrido
ao estúdio nas primeiras horas
depois da enchente para salvar
o que fosse possível, o trabalho
de restauração é tão longo
quanto complexo

Mas as fotografias
atingidas pela águas
já foram, de certa
forma, reconstruídas

“As sobras e restos
me Interessam. Não,
Sou eu quem vai ficar
no porto Chorando, não.
Como diriam Cazuza,
Capinam e Jards
Macalé”, escreveu Bob

Conteúdo que transforma