Desde a última terça, recebi nada menos que dezoito e-mails sobre o artigo ‘você pode ser gay’. Quase todos demonstravam como é raro tratar a homossexualidade de forma natural e transparente, e reafirmavam como esta é a grande maneira de destruir a confusão e o preconceito. Numa dessas mensagens, uma leitora salientava que dentre os inúmeros matizes de sexualidade humana, também há incontáveis diferenças no modo de vida dos chamados homossexuais. As mulheres por exemplo, talvez enfrentem preconceito ainda maior que os homens quando se sentem atraídas por pessoas do mesmo sexo. Assim, senti-me intimado a publicar um ‘segundo capítulo’ com a carta de uma garota de 15 anos, parte da mesma reportagem de Bia Sant’Ana.
A CARTA
‘Imagine a cena: eu a minha melhor amiga, ela sem blusa e eu só de calcinha, no meu quarto, a gente se acariciando, se beijando. Já era a terceira ou quarta vez que isso acontecia. A gente tinha uns 14 anos, ninguém sabia muito onde aquilo ia dar e a gente nem falava sobre o assunto fora do quarto. Simplesmente rolava. De repente, minha irmã mais nova, de 16, entra lá. Todo mundo ficou se olhando, durante uns 10 segundos, sem dizer nada. Depois ela fechou a porta. Devem ter sido os 10 segundos mais desesperadores da vida dela. Porque com certeza foram da minha. Pedi pra Dani ir embora e fui até o quarto da minha irmã. Ela não quis falar comigo. Ficou me evitando direto. Desencanei, mas um dia pedi pra ela não contar aquilo pra ninguém. Morria de medo que minha mãe soubesse da história. Ou qualquer outra pessoa.
Na escola também ficou um clima péssimo com a Dani. A gente mal se falava. Acho que começamos a sentir uma espécie de culpa misturada com medo, sei lá. Até que um dia ela pediu pra conversar sério comigo. Disse que estava apaixonada por mim mesmo e que estava super triste com aquela situação. Eu fiquei sem reação, mas gostei de ouvir aquilo. Não pensava em outra coisa.
A gente se encontrou um dia na casa dela, quando os pais estavam viajando, e rolou da gente ficar junto de novo. Não transamos nem nada, porque nem sabemos muito o jeito certo de fazer, mas acho que também estou apaixonada por ela. Mas é estranho, na verdade, outro dia fiquei com um ex-namorado e também curti muito, senti tesão mesmo e até vontade de transar com ele. Sei lá, de repente, só estou precisado me resolver. Ainda sou virgem e acho que tenho muito o que experimentar. Com meninos e meninas.
Há umas duas semanas conversei com a minha irmã. Apesar de ela ser mais careta, me entendeu um pouco. Disse que não vai falar para minha mãe até eu ter certeza dos meus sentimentos.
Por enquanto, quero curtir as coisas que estou sentindo. É difícil não poder falar nada pra ninguém, sei que minhas amigas iam achar a maior piração, iam dizer que acham isso nojento. Mas tenho certeza de que a maioria já sentiu tesão por alguém do mesmo sexo. Só não têm coragem de assumir.’ Camila, 15 anos.