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Digo e repito: se você me encontrar algum dia a mais de três quadras de distância de minha casa, é porque estou trabalhando. Viajar de férias é para quem quer fugir de si mesmo, e isso está cada vez mais difícil. Ainda mais com as maravilhas da tecnologia digital, que transportam os problemas do cotidiano para qualquer praia deserta. A internet, o celular, a TV de plasma estarão sempre ao seu lado para te lembrar quem é você e de que problemas você está fugindo. 

A necessidade de sair de casa apenas porque todos estão saindo ao mesmo tempo da cidade em direção a um engarrafamento na estrada, ou de um esbofeteamento na fila do embarque do avião que nunca vai sair, me parece aflitivo demais para que possa ceder à tentação de me juntar às multidões que partem (e voltam) ao mesmo tempo para destinos em que, irremediavelmente, permanecerão todos eles (os ávidos viajeiros em busca de férias) juntos.

Explico isso porque assim, talvez, vai ser mais fácil você poder entender o porquê de um dos meu livros favoritos ser Voyage autour de ma chambre (Viagem em volta de meu quarto). Foi escrito em 1790 por um rapaz francês de 27 anos chamado Xavier de Maistre. Ele tinha sido arrestado, na época, na cidade de Turim, devido a um duelo que tinha travado e por causa disso foi condenado a ficar em seu próprio dormitório pelo espaço de seis semanas. Xavier deve ter sido alguém com muita presença de espírito. Decidiu que, apesar da aparente imobilidade a que estava condenado, iria narrar e descrever os objetos que o rodeavam, tentando encontrar neles os significados e ensinamentos que poderia ter encontrado se estivesse livre para continuar sua viagem. As mesmas sensações, por exemplo, que um viajante hoje em dia pode encontrar no seu caminho em uma viagem para as cataratas de Foz de Iguaçu, ou ao deparar com a estrutura metálica da Torre Eiffel quando olhada de baixo para cima (ou ao contrário, também) pela primeira vez.

O jovem Xavier vai narrando suas experiências sempre vestido com sua roupa de viagem (que consiste em um pijama azul e rosa!). Se consideramos que viajar deveria ser uma forma de reflexão e de aprendizado ao contato com situações e culturas diferentes, o nosso atrevido escritor prova que não é necessário ir longe para poder adquirir esses ensinamentos.

Maistre considera, por exemplo, que “… uma cama presencia nosso nascimento e nossa morte, é o constante palco em que a raça humana apresenta, sucessivamente, dramas fascinantes, farsas ridículas e tragédias assustadoras. É o berço feito de flores, é o trono do amor e é, também, um sepulcro”. 

Oito anos depois, desta vez não por causa de um duelo, Xavier de Maistre escreveu o que poderíamos chamar de uma seqüência do Voyage autour de ma chambre, o livro se chamou… Expédiction nocturne autour de ma chambre (Expedição noturna em volta de meu quarto). Parece brincadeira, mas não é. O cotidiano pode ensinar muito bem o que o viajante não vai conseguir observar.

*J. R. Duran, fotógrafo e escritor que em dez dias passou por Veneza, Munique e o rio Solimões (AM), na verdade é um sujeito supercaseiro. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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