Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

VIVER NA PRAIA

O JT de ontem estampou em sua capa uma foto que permite pelo menos duas leituras diferentes. A fúria da água do mar despeja sobre o muro da avenida santista. É verdade que este tipo de fenômeno pode causar transtornos e prejuízos a muita gente, mas vi pelo menos três leitores vibrando diante da imagem. São pessoas cuja relação com o oceano vai um pouco além do lazer puro e simples.

Absolutamente nada contra aqueles que vêem no mar uma espécie de piscina pública gigante que abre no verão e fica imprópria no inverno. O oceano é algo tão maravilhoso e uma metáfora tão competente para a vida que qualquer que seja a relação que se tenha com ele, de alguma forma, será positiva.

Mas o que me interessou vendo a reação de quem olhou para a foto da ressaca com alegria é que, por mais que possamos aperfeiçoar o mundo de relações virtuais, que de fato torna-se cada dia mais irresistível, de surpresa vem a natureza para nos refrescar a memória e relembrar qual é e como são as regras do jogo em que realmente estamos metidos.

Visita rápida

Faz algum tempo escrevi aqui celebrando uma chuva daquelas que escureceram a cidade bem no meio da tarde. Muita gente escreveu de volta, manifestando sentimentos semelhantes ao que procurei passar, de prazer simples diante da constatação da nossa própria insignificância. De que por mais que tentemos permanentemente nos convencer do contrário, não somos agentes de coisa alguma, mas apenas visitas pouco relevantes e muito efêmeras.

Aí vai de novo. No final de uma semana de calor absurdo, numa espécie de endless summer indesejável, a frente fria associada à lua cheia entrou rasgando, ignorando a palhaçada no congresso, a joint venture Microsoft/SBT, a vaca-louca, Luxemburgo, Romário, o ibope de Gugu e Faustão, Gisele Bündchen, e até os Backstreet Boys… Quem teve a chance de ver o mar, ou mesmo de olhar para o céu no sábado à noite, sacou o recado.

Não foi escrito o livro, nem a música, não foi pintado um quadro que chegasse sequer na tangência da manifestação absoluta de ‘aqui /agora’ experimentada neste dia. A graça é prestar atenção ao surfista, que se senta ao lado do pescador e apenas olha. Aguarda sem ansiedade resignado diante da própria imperfeição e impotência, o momento em que poderá tirar proveito de sua condição humana, adaptando-se da melhor forma possível e extraindo o prazer e a sobrevivência que lhe são reservados.

Esta é a hora de estar na praia.

Sair da versão mobile