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Visão puxada

Caro Paulo,

Estou chegando da China. Encantado, triste e apreensivo. Encantado com uma China do passado, sábia e requintada. Triste com a China do presente que rompeu com seu passado de sabedoria e elegância. E apreensivo com o mundo futuro que vai integrar essa China enorme, poderosa e vulgar.

A China está se tornando uma nação cópia de qualquer nação do Ocidente. Uma nação cópia que faz cópias de tudo, falsas e baratas. A China atual é mais do mesmo que conhecemos. Só que muito, muito, muito mais do mesmo: são um bilhão e quatrocentos milhões de chineses ávidos por consumir como os 300 milhões de americanos.

Conheci uma cidade chamada Chonqing, com 31 milhões de habitantes orgulhosos de seus Empire State Buildings, Chryslers Buildings e Times Squares. Um horror (atenção, Redação: o número de habitantes está certo. Chonqing é uma das maiores cidades do mundo – a maior? -, embora pouca gente saiba disso).

Não vou entrar na roubada de fazer um balanço da intervenção de Chairman Mao na cultura chinesa, mesmo porque não tenho competência para isso. Mas posso dizer que ele preparou a China direitinho para ela cair, sem nenhuma visão crítica, nos braços desse capitalismo materialista e individualista que está pedindo urgente uma revisão de suas premissas e objetivos para ser sustentável.

Se alguém esperava que a mais antiga cultura do planeta fosse dar alguma contribuição para o aperfeiçoamento do nosso capitalismo, trazendo uma perspectiva mais sábia e integrada com os vizinhos, com a natureza, com a comunidade, com o futuro, esqueça. A China só vai aumentar nossas virtudes e defeitos. Nada de oposto complementar, como se podia esperar de uma grande nação oriental. É mais do mesmo, só que muito mais e pior.

Ganhando na tradução
Mas, como você sabe, eu sou um otimista compulsivo e, por isso, apesar de a China visível e oficial se mostrar ocidentalizada e vulgar, consegui ver uma outra China que, mesmo por conveniência, começa a resgatar alguns aspectos de sua identidade que foram violentamente reprimidos nas últimas décadas. Um deles é a sua espiritualidade.

Vi acontecer em Pequim por esses dias o primeiro fórum mundial do budismo com a participação de 1000 monges. E mais, li, no editorial do oficial Daily China, um elogio ao budismo e à sua contribuição para um mundo harmônico. Jogo político ou não, a verdade é que
o fórum aconteceu e já se fala de uma visita do Dalai Lama nos próximos meses.

Essa é uma das boas notícias que alimentam minha esperança. Por conta dessa sabedoria reprimida, mas que ainda vive em alguns lugares longe de Beijing e Xangai, fui cuidar do meu corpo com a tradicional medicina tibetana num hospital de Lhasa, Tibet. Fui ver dr. Nina, um médico com mais de 80 anos que faz diagnóstico apenas segurando seu pulso, olhando sua língua e apalpando sua orelha. E que receita produtos naturais com experiência milenar.

Eu não falo uma palavra da língua dele nem ele da minha. Mas sua conversa com meu corpo foi de um silêncio eloqüente. Eram dois sábios conversando: meu corpo e o dr. Nina. O diagnóstico a respeito da minha saúde foi relatado nos níveis físico, emocional e social. Foi completo, perfeito e não me surpreendeu. Eu sei que eles não dissociam corpo, alma, mente e espírito e que essa é a razão da sabedoria e do valor de seus tratamentos. Dissociar é vício ocidental.

Dissociar matéria do espírito, razão da emoção, ética da estética, teoria da prática, filosofia da ação é vício ocidental que empobrece nossa ciência, fragmenta nossa saúde, fragiliza nossos negócios, destrói o meio ambiente e cria um estilo de vida de permanente insatisfação. Ajudar a corrigir esse vício poderia ser uma contribuição de uma China grandiosa, sábia e oriental.

Ainda existe essa chance. E eu estou torcendo por ela porque, se o futuro não caminhar por aí, podemos esperar o pior, de nós mesmos e da China. Porque este planeta não tem condições de acolher os bilhões do Oriente vivendo o mesmo estilo de vida que os bilhões do Ocidente.

Para essa conta dar certo alguém precisa mudar e não são eles. Que venha a China, mas a China que nos complemente e nos melhore, não a China que some ou subtraia. Esta China me faz ter medo do nosso futuro. Torcendo para que o Dalai Lama volte logo para a China, deixo o abraço saudoso do amigo.

Ricardo.

IMAGEM: In Bed, obra de Ron Mueck, Cortesia Fondation Cartier, Paris. A Exposição a que pertence a obra está agora em Tókio. Vai Lá

*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus, um negócio da China. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br

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