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VIDA FÁCIL?

Caro Paulo,

meu amigo, a vida não está fácil para ninguém. Até me lembrei de uma história da China antiga em que um sábio lançava uma maldição ao seu inimigo dizendo: ‘Que você reencarne numa época importante!’. É isso aí.Estamos vivendo uma época daquelas que viram capítulo especial em livro de história na escola, as chamadas épocas de transição. Aqui na agência a gente tem uma definição muito boa para transição: é a fase em que as coisas não funcionam mais como funcionavam e ainda não funcionam como vão funcionar. Isto é, uma grande zona!!É o medo das rupturas, da falta de previsão e dos conflitos, misturado com a excitação das novas tecnologias, dos novos ho-
rizontes e oportunidades. Tanto um como outro me fazem perder o sono. E tenho certeza de que não sou o único. Periga de uma convocação para um papo em plena madrugada ter um quórum de 100%. Aliás, é isso que me consola. A desgraça é coletiva! E, quando a desgraça é coletiva, é mais suportável.

Façam a coisa certa
Tenho até que fazer justiça ao George Soros, que já foi vilão nessa coluna por ser um desses personagens comuns no chamado Terceiro Setor – para quem não sabe, Soros é ao mesmo tempo um megaespeculador do mercado financeiro internacional e um dos maiores doadores de verba a fundações do Terceiro Mundo. Muito bem, no Fórum do Banco Mundial em Nova York, em fevereiro deste ano, nosso vilão-candidato-a-herói fez um mea-culpa em público afirmando que a Economia Global não é viável se não criarmos ao mesmo tempo uma Sociedade Global sem excluídos. Como prova de sua honestidade de propósito, ele promete devolver a fortuna que ganhou na especulação do mercado financeiro dentro de seis anos. A conferir.De qualquer forma, seu depoimento – também publicado no livro On Globalization – é sintoma de que uma visão de uma sociedade mais integrada e justa começa a fazer parte da estratégia de um mercado financeiro mais seguro e saudável. Enfim: não é no mínimo inteligente criar o desequilíbrio social através do mercado financeiro para depois consertar com doações a fundações.Em tempo, gosto de todas as iniciativas corretivas que o Terceiro Setor encampa, mas não me iludo. A maio-ria dos problemas que elas se propõem a corrigir são criados pelas próprias organizações. Oras! Que façam direito sem criar os problemas e que fechem suas fundações!

Dinheiro de rédea
Na verdade, para mim pouco importa se essas evoluções são fruto de medo, incentivo fiscal ou amadurecimento, desde que elas estejam na direção certa. Aqui no Brasil, o Congresso já aprovou lei que faz os bancos serem solidários na responsabilidade ambiental de uma empresa para a qual eles emprestaram dinheiro. É o dinheiro ganhando um cabresto e uma responsabilidade a que não estava acostumado.E essa é a grande revolução. Porque, enquanto neguinho estiver atropelando seus valores em nome de sobrevivência, a lei da selva vigorará e o jogo vai melar. Porque cada um define o que é sobrevivência para si. Você sabe e eu sei como é isso, porque a gente mesmo já se justificou fazendo coisas erradas e nem era para não morrer de fome! Pelo menos eu já fiz. Fiz como profissional, como empresário e como cidadão, mas aprendi. Não é só que aprendi, acho que evoluí, amadureci. Será que é por isso que a vida não está fácil para ninguém? Por que estamos tendo que aprender e amadurecer?
Se for isso, está muito bom. Teremos construído uma época importante e boa.
Meu abraço. Saudades,

Ricardo.
Maio 2002

*Ricardo Guimarães, 52, é presidente da Guimarães Profissionais de Comunicação e Marketing e acredita no dinheiro bem ganho. Seu e-mail é: ricardo@guimarães.com.br

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