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Viciado em bomba

Entre tiros, tanques e backstages, Joe Sacco vem se consagrando como o maior “repórter-quadrinista” do mundo. Neste mês, chegam às prateleiras algumas de suas primeiras e mais brilhantes histórias. A Trip enquadrou o sujeito nesta entrevista

Por Diego Assis   ilustrações Joe Sacco / Reprodução

Tem gente que é viciada em drogas; outros, não conseguem passar um dia sem sexo. Joe Sacco é viciado em guerra. É, guerra: Primeira, Segunda, Guerra do Golfo, dos Balcãs, do Iraque. O lance do cara é ver o tanque pegar fogo. E desenhar depois.

Nascido em 1960 em Malta, uma ilhota no mar Mediterrâneo ao sul da Sicília, Sacco cresceu ouvindo histórias de como sua mãe teve de rebolar para sobreviver às bombas de Mussolini e dos nazistas. Autodidata, mudou-se para os Estados Unidos e, enquanto ralava em uma biblioteca para levantar uns trocos, aproveitou para sujar os dedos em páginas e páginas sobre os principais conflitos do século 20.

A obsessão virou profissão e, em 1993, depois de uma série de visitas à Faixa de Gaza, resolveu publicar Palestina, sua primeira grande HQ. Lançada por aqui em dois volumes, conta – e mostra – episódios do eterno conflito entre israelenses e palestinos, mas do ponto de vista dos civis. Sete anos depois, reapareceu com uma nova reportagem em quadrinhos, Área de Seguraça: Gorazde, em que esquadrinhava os pesares de sérvios e bósnios na antiga Iugoslávia.

Premiadas e elogiadas por publicações “respeitáveis”, como o New York Times, o inglês Guardian, a revista Trip… as duas obras se tornaram leitura obrigatória nos últimos anos e provaram ao mundo, junto com Maus, de Art Spiegelman, que as histórias em quadrinhos e Joe Sacco são coisa séria. E são?

Derrotista, antologia com algumas das HQs esquecidas do autor, chega às livrarias brasileiras neste mês para mostrar que a coisa não é nem sempre foi bem assim.

Parte das histórias em Derrotista é da década de 80, quando você tinha um estilo diferente e era pouco conhecido nos quadrinhos. O que acha delas hoje? Sabe, eu realmente gosto daqueles trabalhos. As pessoas estão mais acostumadas com o que eu faço agora, que é bem político, sobre conflitos e coisas assim, mas Derrotista tem coisas engraçadas. Nem todas, claro. Tem a história da minha mãe e outras que falam de guerras, mas no geral são coisas divertidas, de que tenho grande saudade. Às vezes olho para trás e penso que gostaria de estar fazendo histórias assim…

E por que não faz? Na verdade, estou tentando. Tenho um livro longo para fazer sobre Gaza [Footnotes in Gaza, ainda sem data de lançamento], mas, ao mesmo tempo, estou trabalhando em histórias curtas que podem ser coletadas em um livro no futuro. Mas, quando digo “engraçado”, não é que esteja interessado em fazer as pessoas rirem. Sempre vai haver humor negro, sátira, por trás. Tenho alguns planos. Sabe, é difícil, porque tenho de terminar o trabalho que comecei.

Toma muito tempo fazer uma história? Muito tempo! [com a voz cansada]. Eu trabalho durante horas todo dia. Do trabalho político que eu faço, levo possivelmente dois dias e meio, três dias, para terminar uma só página. E isso nem conta a escrita. [Nota do repórter: Gorazde tem 240 páginas, Palestina tem quase 300, faça o cálculo].

No ano passado, o jornal Guardian pediu a você que fosse ao Iraque para fazer algumas histórias. Como foi isso? Passei algumas semanas com os marines. Fiz só duas histórias até agora, mas um dos projetos que tenho é fazer mais HQs sobre aquela experiência. Não vai render um livro longo, porque não fiquei lá muito tempo, mas tenho coisas interessantes para contar.

Que tipo? Quão diferente é o Iraque dos outros cenários de guerra que você já retratou? Bem diferente. Porque a maior parte do meu trabalho é concentrada em civis, no sofrimento dos civis. E nesse caso eu estava com os soldados. Já tinha passado uma noite e um dia com uma unidade israelense, mas nunca tinha ficado todo esse tempo com soldados. E é bem diferente. Tentei ser o mais cabeça aberta possível. Tenho preconceitos políticos e idéias, mas também sinto que só posso reportar o que eu vejo. Não posso tentar adequar o que vejo à minha visão sobre a guerra. Mas acho que os retratei de maneira justa.

Você viu algum “acidente” dessas tropas? Não exatamente. Acontecia a meu redor. Mas vi muitos casos onde os soldados estavam muito nervosos, prontos para… a diferença entre atirar e não atirar é muito tênue. É uma decisão muito rápida.

Foi a situação mais assustadora que já passou? Acho que foi porque, de certa maneira, quando você está com o Exército, se sente muito mais protegido do que quando está com os civis. Porque a maioria das armas está apontando para fora. Na maior parte do tempo, sentíamos que nada ia acontecer. Até que o sujeito que se tornou meu maior amigo acabou perdendo o braço. Em Gaza, tudo pode acontecer a qualquer hora, há tantos tiros que você está sempre ligado. Mas, no tempo todo que eu passei no Iraque, vi os americanos dispararem só três balas. Nessa situação, você não sente que está em uma zona de guerra ativa. Mas é claro que está. Esse cara perdeu o braço!

Vê lá: Derrotista, de Joe Sacco. Editora Conrad, 224 págs, R$ 38

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