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VERDE SIM; CHATO NÃO

Caro Paulo,

Achei que ia te encontrar no lançamento do ‘Jóias da Floresta’, no Museu da Casa Brasileira. Era o tipo do evento que, na medida em que ia rolando, eu ia me lembrando dos queridos que não estavam lá e que eu queria que estivessem de tão bom e importante que foi. Para quem não sabe, a Floresta é a amazônica e as Jóias são todas as coisas produzidas pela floresta com a ajuda do talento, do trabalho, da sabedoria e da vontade política do homem. Nesse caso, é justo que se diga, do homem e da mulher, em particular de duas que conheci naquela noite, Etel Carmona, empresária e designer, visionária, criativa e corajosa, que foi a maior responsável por todo o auê armado, e a senadora Marina Silva, ex-seringueira, hoje professora, linda, charmosa, inteligente, simples, com uma alma contagiante e inesquecível.
Saí de lá emocionado e cheio de esperança.
O evento foi organizado pela Etel e pelo engenheiro florestal, professor e ativista Virgílio Viana, e apoiado por um grupo de outros tantos bem informados/conscientes e responsáveis, com o objetivo de lançar um manifesto pela proteção da floresta amazônica (www.etelinteriores.com.br/novidades). A idéia é muito simples: a floresta como fábrica de coisas preciosas vale mais em pé do que derrubada. Assim, aliam-se os interesses locais dos que vivem da floresta com os interesses globais de todos nós que precisamos da floresta para sustentar o equilíbrio ecológico do planeta. De quebra, ganhamos nós, brasileiros, que passamos a gerenciar um patrimônio preciosíssimo como um ativo e não como um passivo a pesar nos nossos custos, preservamos o conhecimento etnobotânico dos povos da floresta, criamos riqueza e atratividade para a região que, graças a Deus, tem líderes como o governador do Acre, Jorge Viana, que também estava lá; e, finalmente, podemos sonhar com mais entusiasmo para enfrentar o pesadelo que os jornais gostam de nos mostrar todos os dias.

Usar e preservar
O entusiasmo que tomou conta de mim, Paulo, não veio do manifesto em si, que é ótimo – parabéns Virgílio! -, mas do apoio que recebeu naquela noite. Se eu disser que o apoio teve discurso de seringueiro, político, banqueiro, empresário, ongueiro e artista, você vai pensar que foi uma grande presepada. Mas não foi. Eu conhecia pessoalmente pelo menos metade das figuras que subiram na tribuna, em particular o ‘banqueiro’ (presidente do Real ABN AMRO que é o Fábio Barbosa) e o ‘empresário’ (Guilherme Leal, presidente da Natura). Os dois, que podiam ser os personagens mais hipócritas num evento como esse, eu sabia que estavam lá de alma, coração e convicção. Por isso, eles não mandaram ninguém e fizeram questão de estar lá, do começo ao fim. Eles são pessoas físicas que dão consciência e responsabilidade para as pessoas jurídicas que dirigem. Outro que me emocionou, porque também juntou seus valores pessoais comsua profissão, foi o arquiteto e designer Carlinhos Mota -fiquei orgulhoso de ser da mesma geração que ele.
Deixei para o fim a lucidez, a desenvoltura e a boa esperteza de Duda Mendes, sobrinho do Chico Mendes e presidente da Associação dos Seringueiros. Paulo, você perdeu de ver e ouvir o seringueiro falando lá do alto da tribuna do Museu da Casa Brasileira para a seleta e excitada platéia dos Jardins, que só se acalmou de verdade quando a voz da floresta deu seu competente recado.
Nessa noite eu vi o mundo evoluindo; vi os interesses convergindo com respeito, ambição e talento; vi políticos que merecem a minha confiança e me fazem ver a dignidade possível dessa profissão; vi o Brasil se encontrando e integrando suas realidades à luz de uma globalidade civilizada no seu melhor sentido. Eu vi um futuro muito bom para o meu neto Joaquim. Voltei a pé para casa conversando calmamente com a Lili, na certeza absoluta de que não seria assaltado. E não fui.

Fica com o abraço, cheio de esperança, do amigo.

Ricardo.
Julho 2002

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