João Moreira Salles teve três chances de naufragar histórias complicadas. Seu Titanic continua firme. Pintou a genial mineirice em Nelson Freire, o retrato de que o brasileiro, quando não desiste, dá samba… E música celestial. Em Entreatos, viu e deixou que se visse a estripulia na ante-sala do poder. Que tenha recortado com hábil suavidade a campanha de Lula é um drible ímpar na cambetice média do cinema e do jornalismo que se faz por cá. Antecedeu, de algum jeito, as manchetes, os Elias Malucos, Marcolas e PCCs em Notícias de uma Guerra Particular. O Rio vem confirmando. Este ano promete soltar Santiago, projeto que iniciou em 1992 e finalizou há pouco tempo. Contará a história de seu mordomo. “É o registro do encontro de duas pessoas, eu e meu personagem”, diz Salles nesta entrevista, realizada por e-mail.
Nas linhas abaixo, o documentarista digita algumas palavras sobre o trabalho em Entreatos, recentemente lançado em DVD com uma extensão da obra, Atos. Falará sobre projetos futuros e a recente incursão no jornalismo escrito, como um dos editores da revista piauí. Ele diz que não é repórter. Modéstia. O que faz, ao lado de gente como Eduardo Coutinho, é o que há de melhor na arte de contar histórias. Reportar. Se não é isso o que fazem os melhores do ramo, algo está errado. João e a modéstia, o jornalismo e a soberba.
por Edmundo Clairefont
fotos Divulgação
TRIP Quando a Trip deu capa para Entreatos, havia uma preocupação latente da sua parte em descobrir se o filme seria bom ou mau para o Lula. À época, você disse que ainda não tinha a resposta. Chegou a alguma? O filme é bom para quem gosta do Lula, e ruim (do ponto de vista do Lula) para quem não gosta dele. Ou seja: o filme confirma a impressão que as pessoas têm do Lula antes de assistir ao filme, o que não é ruim nem surpreendente. Não é ruim porque mostra que o documentário é ambíguo, se presta a várias interpretações. Não é surpreendente porque é ingenuidade achar que um filme é capaz de mudar a cabeça de alguém.
Você disse que o Lula que aparece no seu filme “é o Lula construído por mim”. Se fosse feito hoje, o quanto você acha que Entreatos seria diferente? O que mudou em sua visão dos personagens do documentário, a partir de sua convivência durante a filmagem e agora, passados três anos do lançamento? Passados três anos, meu ponto de vista sobre o Lula deixou de ser privilegiado. Minha opinião vale tanto quanto a de qualquer outra pessoa. Por isso mesmo prefiro não dá-la. É muito chata essa mania brasileira de dar opinião sobre tudo. Respondi a perguntas sobre o Lula no contexto da campanha. Naquele momento, tive, sim, legitimidade para falar. Estive perto, vi muito do que se passava. Hoje, não.
Você procurou saber a opinião do Lula? Que contatos teve com o presidente depois do lançamento? Estive com ele duas vezes, muito rapidamente. Nunca falamos sobre o filme. Acho que ele assistiu, mas não sei o que ele achou. Como me tratou com muita gentileza nessas duas ocasiões, suponho que não tenha achado o filme desleal.
Você disse que Entreatos “vai ser um filme muito esquisito, não sei o que as pessoas vão achar”. Alguma coisa do que foi dito sobre o filme te incomodou? Não. Falaram coisas boas e ruins a respeito do filme, e havia argumentos inteligentes e tolos dos dois lados. Agora, o filme é mesmo esquisito. Temos um político de massas, talvez o maior desde Getúlio Vargas, e nós só o vemos entre quatro paredes, sem um só eleitorzinho pra contar a história (na verdade, chega a ter um eleitorzinho, mas um só). É como mostrar o Jacques Cousteau sem o mar.
Entreatos voltou a ser observado durante a crise do governo Lula em 2005. Alguém chegou a dizer que se tornou uma espécie de Onde Está o Wally? – as pessoas de lupa em busca dos personagens da crise. Você chegou a rever o filme com esse olhar? Fui eu que falei da síndrome do Wally. Toda vez que você filma personagens públicos – no caso, mais até do que personagens, protagonistas – teu filme está fadado a ficar vivo. Ele se modifica à luz dos acontecimentos. Cai um ministro. Voltamos ao filme, vemos que Lula o abraça com mais ou menos afeto, e aí concluímos: “Ah, já tava lá: ele tinha uma relação protocolar com Fulano”. Surge um escândalo, e vemos que um dos envolvidos tinha uma grande intimidade com o presidente. “Ah, o cara era chapa dele. É claro que o Lula sabia.” Talvez soubesse, não sei. O fato é que, durante aqueles meses de escândalos sucessivos, as pessoas assistiam ao filme como quem diminui o carro para ver o acidente na beira da estrada.
Em 2005, no Congresso, durante a crise do governo, o filme foi chamado de “Entre-ratos”. Muita gente que aparece no filme caiu. Você lidou com esse tipo de chiste, de pressão durante a quizumba em Brasília? Te incomodou o uso do filme como munição para atacar o Lula? Teria me incomodado mais se tivessem conseguido usar o filme como arma política oportunista. Imagina, o PFL queria fazer exibições públicas do documentário. Não permiti. Chegaram a me chamar de censor. Logo o PFL, cujos quadros estavam batendo palmas para os militares 20 anos atrás.
Atos retoma o material colhido durante a feitura de Entreatos. É um documentário mais solto, me parece ter menos narrativa. A idéia era essa? Que interferência você teve na montagem? Atos não foi montado com o rigor de um filme. É um complemento. Levei 18 meses montando Entreatos. Atos foi alinhavado em três semanas. Não participei da edição, mas o resultado final é exatamente o que deveria ser: um extra de DVD.
A presença de Duda Mendonça é muito forte. Ele às vezes age como um animador de torcida. Que impressões teve durante esse contato? Eu devo ao Duda Mendonça uma parte importante do acesso que consegui. Ele não me proibiu de filmar nada, e em situações delicadas, como a da preparação do debate, até segurou a nossa barra. Duda é um homem de marketing. É o que ele faz, aliás, diga-se, muito bem. Acho que a grande sacada dele foi ter percebido que o Lula não era o sindicalista casmurro e enfezado que todo mundo conhecia. Lula é o brasileiro de botequim, o cara que não se leva muito a sério, que é divertido, que diz sacanagem e fala mal do técnico da seleção. Duda percebeu que esse Lula menos ideológico e dogmático era não só mais próximo do original como, principalmente, melhor de voto.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o crítico Ismail Xavier disse que “o cinema brasileiro atual coincide com o momento político do Brasil ao consolidar o pragmatismo de pobre e o ressentimento da classe média como temas recorrentes”. Concorda? Só pela frase, é difícil saber se concordo. Infelizmente não li a entrevista. Precisaria conhecer o contexto, saber como ele define “pragmatismo de pobre”.
Entreatos, de certa forma, tem algo a ver com a frase acima. A eleição de Lula passeia por esse tema das esperanças frustradas da classe média e por uma espécie de êxito da classe mais pobre. Você acha que o filme permanecerá como o documento de um curto período de grande esperança? Numa cena com Lula dentro de um automóvel, o depoimento de um motoqueiro demonstra isso. E também a seqüência do carona no avião. Aquele cara diz o que quase todo eleitor achava do Lula. “Finalmente um de nós chegou lá.” Há um perigo nesse tipo de esperança. Primeiro, porque revela uma síndrome de demiurgo, de salvador da pátria. O Brasil não se salva de um golpe. O Brasil só se salva com o tempo, cumprindo etapas de processos que são lentos, o que é uma coisa tediosa e incapaz de despertar paixão. Não dá literatura, não vira cinema. Na melhor das hipóteses, vira uma tese de sociologia ilegível. O outro risco é esse tal de nós que supostamente chegou lá. Supõe que todos os outros não eram representantes do povo brasileiro. Por trás disso existe um populismo atrasado, com suas várias expressões: o antiintelectualismo, a rejeição da complexidade e a atribuição de culpa aos outros. Só no Brasil elite é uma acusação, não um elogio.
O cinema brasileiro recorre freqüentemente ao retrato de uma fatia da classe média e da pobreza. Seu irmão Walter já disse algo como “a classe alta não gosta ou não sabe tirar seu próprio retrato”. Concorda? Por quê? O espaço é pequeno demais para responder a essa pergunta. Existem tantas razões. Existe nossa má consciência, que nos obriga sempre a falar do pobre. Existe o álibi que essa culpa social nos confere, e que nos exime de falar de nós mesmos (invocamos sempre a generosidade de quem se debruça sobre os sofridos deste mundo). Existe o fato de que os dramas da classe média são menos espetaculares do que os dos pobres, o que exige um cinema mais sutil, logo mais difícil. E por aí vai.
Que histórias deveriam ou poderiam ser contadas sobre os donos do Brasil? Tem vontade de fazer algo do tipo? No momento estou dedicado a fazer uma revista. Não penso em filmar. Mas gostaria de ver esse filme, e tantos outros. Gostaria que o cardápio de temas se alargasse. E teria imensa curiosidade em assistir a um filme sobre os Jardins ou a Viera Souto dirigido por alguém saído desses grupos que surgiram nas favelas e periferias. Coutinho diz que interessante mesmo seria um filme sobre cineastas velhos dirigido por um índio. É isso que eu gostaria de ver. Filmes ao contrário.
Você é uma pessoa discreta, nunca falou muito sobre sua vida privada. Este ano deve ser lançado Santiago, um projeto pessoal que tem mais de dez anos. Conte sobre ele. Por que arquivou esse trabalho durante todo esse tempo? É uma história longa. Santiago trabalhou na minha casa durante os anos da minha infância e adolescência. Em 92, decidi filmá-lo. Pouco depois, ele morreu. Na época, tentei montar o filme e não consegui. Passaram-se 15 anos, e eu voltei ao material. Já era mais velho, já tinha consciência de que o tempo passa e as coisas acabam – e isso era o grande tema do Santiago. Estava preparado para montar o filme. Chamei um grande amigo, Eduardo Escorel, e junto com uma jovem montadora, Lívia Serpa, retomamos o documentário. Ao longo do processo, me dei conta de que o filme só funcionaria se eu também me incluísse nele. Foi o que aconteceu. É um documentário na primeira pessoa e serve como um apanhado de tudo que pensei sobre o cinema de não-ficção ao longo desses quase 20 anos de profissão.
Voltamos, mais uma vez, ao tema do recorte de classe. Vamos ver, no filme, um pouco da história da sua família por meio dos olhos de um empregado. O que despertou seu interesse nesse personagem? Li em algum lugar que a obra estudará “os limites entra a arte e a vida real”. Se isso se aplica, pode explicar como aparece no filme? Não sei de onde surgiu essa palavra “arte”. De mim, certamente não foi. O filme não é o ponto de vista do Santiago, é o meu: afinal, fui eu que dirigi o filme, fui eu que escolhi quando e o que filmar. Mas é claro que existe o personagem. Sem ele não há filme. Santiago é, portanto, o registro do encontro de duas pessoas, meu personagem e eu. Isso parece um truísmo, mas no caso específico de Santiago não é. Existe uma ambigüidade nesse encontro: Santiago é ao mesmo tempo meu personagem e o homem que passou anos a serviço de meus pais; eu sou o diretor, mas também o filho do patrão. A conseqüência do nosso duplo papel é que o filme acaba por misturar questões do cinema com questões da realidade.
Você é um dos responsáveis pela revista piauí. Que balanço faz desses primeiros meses de publicação? O que esse trabalho inicial passou sobre a recepção do público a um jornalismo de maior fôlego? A revista vai bem. Está vendendo bem mais do que supúnhamos. A surpresa foi grande. Não fizemos nenhuma pesquisa de opinião, portanto é difícil saber exatamente quem está nos lendo. Sei que o público universitário gosta, acha divertido, surpreendente. Mas é cedo demais para fazer um balanço. Vamos ver daqui a um ano. A revista é imperfeita: como ela não tem fórmula, vai sendo inventada a cada número. Nós mesmos não sabemos bem que revista estamos fazendo. Sabemos o que não queremos: chatice, excesso de seriedade, punho em riste. Se conseguirmos fazer uma revista que seja ao mesmo tempo informativa e divertida, teremos acertado.
Descontando o fato de que as pessoas tendem a achar que sua geração enfrenta os maiores problemas ou crises, concorda com a assertiva de que vivemos a pior fase do nosso jornalismo? Por quê? Não sou um grande especialista na matéria, mas desconfio dessas afirmações meio apocalípticas que dizem que estamos vivendo o pior momento disso ou daquilo. Como leitor, encontro bom e mau jornalismo nas bancas, assim como encontro bons e maus filmes no cinema.
Quem são os jornalistas que mais admira, que fazem parte de sua formação como editor e repórter? Quem tem o texto que mais te encanta? Não sou repórter. Sou um documentarista de licença. Isso dito, como sempre pertenci ao campo da não-ficção, a idéia de escrever sobre o mundo não é assim tão diferente do que eu fazia antes. Muda apenas o meio. Devo parte importante da minha formação de documentarista a vários repórteres cujo trabalho sempre me interessou. A lista é grande, e vai de Joel Silveira a Joseph Mitchell. A lista é grande.
