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Urubuservando

A Paula, minha assistente, teve a surpresa um dia desses. Quando acordou e abriu as cortinas de seu quarto, descobriu que tinha um
urubu pousado tranqüilamente na varanda de seu apartamento. Como
essas aves são protegidas pelo Ibama, a Paula teve de esperar, mesmo
arrepiada com a presença do animal a poucos metros, que o pássaro
decidisse mudar de ambiente. Ela (a Paula, não a ave) chegou apavorada no estúdio. Achou que era algum tipo de urucubaca que alguém tinha lhe enviado, de uma maneira, digamos, um tanto quanto tridimensional (para ficar na terminologia do mundo paralelo).

DE AVES E DE HELICÓPTEROS
Há tempos percebi que cada vez mais urubus sobrevoam São Paulo.
Fiz uma pesquisa rápida e descobri o que sabia sem saber que já sabia.
O urubu é uma ave saprófaga (no Houaiss, “que se alimenta de matéria
orgânica em decomposição”, principalmente de animais mortos). Esse
urubu que habita São Paulo é o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus).
Tem a cabeça depenada, com uma textura rugosa. Tem excelente visão e olfato apurado (mas não tanto quanto o seu primo, o urubu-cabeça-vermelha, que localiza uma carcaça três vezes mais rápido: a parte da cabeça que se ocupa do sentido olfativo é três vezes maior que a do resto da espécie). Os urubus paulistanos localizam o alimento pela visão, por isso planam em altitudes consideráveis, para infelicidade dos pilotos de helicóptero (a segunda frota em número no mundo), e assim podem localizar com mais facilidade o alimento (os urubus, não os pilotos). Como sempre, a natureza compensa a incapacidade de algum sentido com um dom extraordinário: para pouco olfato, muita visão. A dieta do nosso urubu pode incluir alimentos vegetais em decomposição.
Pedi ajuda aos universitários. Mais precisamente à doutora Elizabeth
Hofling, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências
da USP. Ela me confirmou que “em algumas regiões de São Paulo
de fato há concentração de urubus. Nesse caso, provavelmente por
terem alimento disponível nas proximidades”, mas “não se pode
esquecer que os urubus têm um importante papel sanitário: retiram
material orgânico em decomposição do solo, o que é positivo”.
Se fosse sofista, diria que a cidade está apodrecendo. Se fosse anarquista, diria que o sistema sanitário precisa contar com a sabedoria da natureza para manter a cidade limpa. Apenas comento que sempre que um urubu apareceu na minha frente foi porque existia alguma coisa podre por perto (e não era o reino da Dinamarca). Urubu sobre uma cidade me parece um tanto quanto primitivo e inesperado, apesar de ter suas razões práticas. Na cidade de São Paulo, em pleno século 21, o progresso anda como o Curupira: para a frente mas com os pé virados para trás.

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