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UMA TETRAPLÉGICA NUA

Na última semana da mostra do Redescobrimento, junto aos pertences de Lampião e Maria Bonita e à indescritível obra do Bispo do Rosário, o que mais me chamou a atenção foi um encontro casual com um conhecido que, em conseqüência de um acidente na infância, não tem os movimentos das pernas e move apenas parcialmente os braços.

Segundo ele, sua visita à mostra provocara de duas maneiras sua sensibilidade. Primeiro positivamente, com aquela infinidade de estímulos, já devidamente abordados pela imprensa e que ainda assim merece mais elogios. Em segundo lugar, e de forma bem menos alentadora, serviu para entristecê-lo, já que mesmo com a óbvia intenção de atender aos cidadãos que têm algum tipo de problema de locomoção, a exposição serviu para mostrar o quanto ainda estamos distantes de lidar com competência com essa questão básica da administração pública e privada.

Pode parecer óbvio, mas tudo o que querem, merecem e têm todo o direito de exigir as pessoas especiais é poder levar a vida normalmente, sem depender da ajuda, muito menos da compaixão dos demais para qualquer ato, até os corriqueiros. A grande maioria, inclusive, não está nem aí para a forma como a imprensa ou outros setores se refere a ela.

Deficientes, especiais, o que importa é poder desenvolver o potencial e expandir seus limites em busca da felicidade. Em outras palavras, estão atrás das mesmíssimas coisas que todos os outros, e só pedem que não lhes dificultem uma empreitada que até para quem anda, pula e corre não é das mais fáceis.

A revista que edito há alguns anos tem dedicado suas páginas às pessoas com problemas físicos e mentais. O próprio Bispo do Rosário foi parte de uma grande matéria feita por outro colaborador do JT, o jornalista Ricardo Soares, há cerca de oito anos, sobre a forma como são tratados os nossos supostos doentes mentais. As primeiras entrevistas de Otaviano ‘Taiu’ Bueno, o surfista que está tetraplégico há dez anos, de Ranimiro Lotufo, o ex-modelo que perdeu a perna num acidente com seu pára-glider, as pára-olimpíadas, passando por dezenas de outros artigos, e, mais recentemente, um editorial de moda realizado só com modelos portadores de deficiências físicas.

Esse trabalho não nos conferiu qualquer autoridade especial, mas positivamente nos ensinou que pouca coisa de melhor pode ser feita pelas pessoas nessas condições do que colocá-las de volta ao lugar do qual nunca deveriam ter sido tiradas: o de pessoas normais cujas experiências de vida, por conta do acaso, tornaram-se ainda mais ricas e dignas de serem repartidas.

Esse é exatamente o caso de Mara Gabrilli. Ela voltava de um fim de semana na praia com o namorado, que perdeu o controle da Range Rover que dirigia. O carro capotou e caiu numa ribanceira de 15 metros. Mara fraturou a quarta e a quinta vértebras e perdeu os movimentos dos braços, pernas e tronco.

O acidente aconteceu em 22 de agosto de 94 e, seis anos depois, Mara, que felizmente tem condições materiais para se manter de forma digna e uma estrutura familiar que a apóia irrestritamente, resolveu aceitar o convite do Teleton, um projeto que existe em mais de 20 países e se propõe a levantar recursos para instituições que se dedicam a tratar de pessoas portadoras de deficiências físicas com menos recursos do que ela. A idéia do Teleton e da Trip seria produzir o primeiro ensaio sensual exibindo fotos de uma mulher tetraplégica nua. O fotógrafo Bob Wolfenson, acostumado a fotografar mulheres consideradas perfeitas, não precisou de mais de três minutos de explicação para topar a parada. Mara adorou as fotos e a experiência de poder mostrar que beleza, sensualidade, sexo e tesão não são privilégios de quem pode andar. Mais ainda, mostrou que, ao contrário do que tentam provar algumas modelos, nem todas as mulheres têm celulite. Algumas são realmente especiais.

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