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Uma herança Caras

Entre várias gracinhas de graça duvidosa, a revista Caras tem o hábito de chamar “filho” de “herdeiro”. Ronaldo e seu herdeiro, Ronald. Xuxa e sua herdeira, Sasha. Carla Perez e sua herdeira, Camilly Victoria. É. Herdeiro… Foi isso que me veio à cabeça logo que o Giuliano Cedroni me avisou que o tema desta Trip seria “meio ambiente”.

Mas o que é que o trejeito de Caras pode ter a ver com meio ambiente? Confesso que não sei. Ainda. Confesso também que o trejeito me irrita mais do que deveria. Fico doido. Fora de mim. Ouço vozes. Umas vozes de salão. Elas tentam me acalmar: “Ai, querido, pra que levar a sério? É só um detalhe…”. A essas vozes eu poderia responder com aquele clichê de que o diabo está nos detalhes. Brincadeirinhas revelam. Nesse caso, elas são a ponta do iceberg de uma ideologia sonsa, que vê no sucesso rápido o sentido da vida. Herdeiro? Então a revista inofensiva pega a mais bela das afinidades humanas, a filiação, e a define como um relacionamento financeiro? Peraí. Chama a Heloísa Helena.

Mas antes que a própria Heloísa Helena resolva abrir seu apartamento funcional para a Caras, eu me pergunto de novo: e o meio ambiente, o que tem a ver com isso? O que sei é que, se me pedissem um único adjetivo para definir a ideologia de Caras, eu escolheria “anestésica”. A revista é uma droga, também no sentido farmacológico. Seu princípio ativo para preencher o vazio metafísico das cabeças da classe média urbana é o de injetar nelas um vazio ainda maior. Funciona. O problema é que é um vazio opulento, inchado, inconseqüente, insustentável, tão insustentável quanto a política industrial do planeta.

Não defendo a destruição da Caras para a salvação da Terra. Claro. Por mim, até a Baby Consuelo e seu herdeiro Zabelê deveriam se hospedar no Castelo de Chantilly. Gosto de ópios. Meu problema é com a dose. A que corre pelas veias sociais anda over. Geral. O vazio opióide de Caras é só o espelho distorcido de uma sociedade hiper-midiatizada, só a caricatura do novo organismo global que se beneficia com o acesso à informação, mas que se entorpece com o excesso dela. E que, poluído, parece parar de discernir.

No fim de 2005 um relatório da ONU declarou que o dano ecológico já é tão grave que não é mais possível garantir a vida na Terra por mais de duas gerações. Duas. Dê uma olhada em www.millenniumassessment.org. Não saiu na Caras. E o New York Times deu três paragrafozinhos a respeito. Três. Em que planeta eles vivem? O último relatório da ONU que o Times desprezou dizia que o Iraque não tinha armas de destruição em massa. Não acreditaram. Parecem não acreditar também que as maiores armas de destruição em massa são a inconseqüência industrial e a anestesia midiatizada que a acompanha. Se essas armas não forem desativadas, não haverá refúgio. Até a Ilha de Caras fica no planeta Terra.

Ouço vozes de novo. Desta vez supostamente mais inteligentes. “O problema é que os ecologistas são muito chatos.” Ah, o problema é esse. Quantos Kilimanjaros sem neve, quantos Katrinas, quantas secas inéditas na Amazônia serão necessários para que se entenda que o que menos importa a esta altura do campeonato é o fato de os ecologistas serem chatos?

Além de ser um slogan bem pensante e medroso, no qual um dia eu mesmo acreditei, a chatice ecológica reside num só fato. Bem chato. A vida na Terra corre, sim, o risco suicida de extinção. E no horizonte de nossos descendentes próximos. Entende-se que muita gente se incomode com esse recado. Em última instância, os ambientalistas estão sempre falando da iminência da morte. Da nossa morte.

Há um ruído na comunicação ecológica. Ela incomoda quando é tomada como algo pessoal. Talvez o antídoto para a chatice seja lembrar que se a nossa morte pessoal é inevitável, e que é até compreensível negá-la, a morte do planeta pode ser evitada por milhares de gerações. Os ecologistas estão então falando de vida. Como a Caras, eles querem que os herdeiros tenham um lugar para herdar.

*Carlos Nader, 41, é videoartista. Resolveu escrever sobre ecologia porque se preocupa com seus herdeiros. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com

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