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Um minuto de silêncio pelas antas queimadas

As visões sobre a questão ambiental dos dois lados da moeda ideológica brasileira
às vezes se igualam em simplismo e ignorância


POR CARLOS NADER*

Num programa de TV recente, perguntaram ao jornalista Diogo
Mainardi o que ele achava do aquecimento global. Ele respondeu com
o jeitinho sweet and sour que Deus lhe deu: “Eu não sei o que é
aquecimento global”.

O nível de profundidade do discurso de Mainardi costuma se
assemelhar mais ao do espelho d’água do Congresso Nacional em Brasília
que ao do megacampo de petróleo Tupi na bacia de Santos. Assim, não
ficou claro se o colunista realmente não sabia que o aquecimento é um
fato científico ou se apenas queria dizer que quase todos os maiores
especialistas do mundo estavam enganados. Suponhamos que a resposta
dele tenha sido uma piada. Um cinismo tão sem graça só tem alguma
relevância pelo fato de que Mainardi é possivelmente o colunista mais lido
e comentado do país. E, se esse é um dado que poderia ser mais bem
usado pelo próprio colunista para comprovar sua tese única, aquela de
que o Brasil é uma merda crônica, ele na prática dá repercussão nacional
a suas boutades sem imaginação nem responsabilidade.

O engraçado é que, na mesma semana, Luiz Inácio Lula da Silva, o
inimigo imaginário do jornalista, deu uma declaração mostrando que os
dois não divergem tanto na questão ambiental. Um pouco antes de anistiar
desmatadores e logo depois da revelação feita pelo Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (INPE) de que a destruição da Amazônia aumentou
muito em 2007, diferentemente do que anunciava toda a propaganda,
nosso presidente declarou que isso é só “uma coceira”… “um tumorzinho
e não um câncer”. Que tal? Diante de uma declaração dessas,
somada à de Mainardi, ambas atentados ao clima, à biodiversidade e à
neurodiversidade, só me resta propor um minuto de silêncio à memória
de todas as antas queimadas em 2007, na devastação da floresta.

Mesmo que tenham um simplismo bastante coincidente, o pensamento
ecológico do colunista da Veja e o do presidente do Brasil parecem
ter razões bem distintas. A fala de Lula é o típico blablablá de chefe
de organismo econômico, empresa ou país, tentando justificar um
descontrole ganancioso. É o inimigo mais antigo da natureza. Nós o conhecemos.
Já Mainardi representa uma praga ambiental recente. É
gente que primeiro negou o aquecimento e agora, diante do dilúvio de
provas, passou a negar que ele tenha causas humanas. É uma postura nova na ecologia, mas que tem raiz numa forma de pensar antiga. Nela,
um sujeito que se julga muito inteligente consagra sua existência terrena
a provar que o próximo é um imbecil. Simples assim. Demonstrar
que cientistas, governos, intelectuais, enfim, que o mundo inteiro está
errado sobre as causas do aquecimento global torna-se mais importante
do que observar que, mesmo na hipótese remota de que essas causas
nada tenham a ver com o homem, o homem no mínimo não deve colaborar
com elas na destruição da Terra.

IMBECILIDADE GENÉRICA
Com tanta coisa menos tóxica para fazer na vida, dedicá-la inteira
à suposta imbecilidade genérica dos outros não é uma das atitudes
mais inteligentes, é? Estranho que essa postura, a um só tempo
arrogante e obtusa, parta de sujeitos que se consideram tão
inteligentes. Mainardi não está sozinho. Gente como Nelson Ascher
ou Reinaldo Azevedo engrossam a prole convencida e chorona de
Paulo Francis na mídia brasileira. E o mandamento central de sua
jihad ressentida quer ser inspirado naquela brincadeira de Nelson
Rodrigues, de que “toda unanimidade é burra”. É uma idéia instigante,
engraçada, mas improvável. Unanimidades não existem.

Se alguma existisse, o próprio Nelson Rodrigues seria contra ela.
E Mainardi ou Ascher, com muito menos brilho, também. Qualquer
unanimidade deixaria de ser unânime. “Unanimidade” só existe
restrita, mesmo que por aspas. Significa maioria. E nem todas são
burras, obviamente. Dos momentos de Nelson Rodrigues, gênio
teatral, prefiro vários outros, como aquele em que ele colocou
“sujeito inteligente” entre as dez coisas que mais odiava. Já dos
colunistas paulistas, esses sujeitos inteligentes, os melhores
momentos são aqueles em que estão em férias.

A boa notícia é que, ao contrário de Mainardi, todo mundo já sabe o
que é aquecimento global. Sabe também que, além do aquecimento, há
outros problemas ambientais seriíssimos a serem resolvidos. É quase
unânime a idéia de que ecologia é um assunto urgente. No pensamento
ambiental, a burrice está hoje no campo da minoria. Mas, para que a
“unanimidade” fique ainda mais inteligente, só falta um detalhe. Agir.

*Carlos Nader, 43, é um homem de mídia que fica de cabelo em pé quando “sujeitos inteligentes” começam a falar sobre o meio ambiente.
Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com

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