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Um jovem

As meninas vieram me procurar. Ele esta preso, lá no CDP do Belém. É quase um menino, infelizmente ultrapassou os 18 anos de idade. Foi preso por roubo. Mandou-me recado pela mãe: precisa de ajuda. Fui à sua casa, não conhecia sua família. Os pais, pessoas da mais extrema humildade. Analfabetos, provêm do sertão nordestino. O pai vive de apanhar papelão nas ruas. A irmã, com 15 anos, esta grávida. O autor da proeza só aparece de vez em quando, é outro menino. Sabia: o rapaz estava devendo a traficantes. Ele não usa drogas. A namoradinha de que ele tanto falava. Ela o fez endividar-se. O difícil é que me neguei a pagar suas dívidas. Era a segunda vez; na primeira ainda paguei. Embalou com outros desesperados, daí a prisão. Agora estava doendo em mim. Poderia ter evitado. Não era muito, dava para pagar. E agora me questionava se procedera correto. Sua irmã disse que ele fala de mim chorando. Afirma que, se tivesse me contado, eu não deixaria que fosse. Mentira. Iria de qualquer jeito, não era a primeira vez. Mas por que em mim essa náusea, esse desassossego?

O garoto não tem nada a ver com aquele meu povo atrás das grades. Imagino sua dor. Sabia que aconteceria isso ou pior. Ele estava desarvorado e emprego é mentira. Não existe. Os jovens aqui do bairro estão todos desempregados. Perambulam em grupos noite adentro. Constantemente são enquadrados por policiais que humilham e oprimem. Vão sendo criminalizados pela revolta, miséria e falta de oportunidades. As meninas, sem exceção, já têm um ou dois filhos. Conheço algumas com três filhos cada. Os parceiros não têm nem como se auto-susterem, como assumir responsabilidades? Os pais das meninas criam seus filhos. Essas crianças têm os avós por pais e as mães por irmãs. Recentemente, um grande amigo, presidente de uma ONG, viera me contar algo inteiramente surpreendente, e me fazer um convite. Num bairro aqui próximo, há uma creche-internato chamada Lar dos Pequeninos. Boa parte das crianças ali precariamente abrigadas é filha de presidiários. Muitos que foram meus companheiros de sofrimento só deixaram dor, miséria e tristeza aqui fora, infelizmente.

O convite era para que eu participasse do apoio que a ONG que meu amigo preside dará àquela creche. Aceitei. Vou propor aos jovens do bairro, que são amigos do rapaz preso, que me ajudem a fazer uma superfaxina, pintar tudo e fazer uma manutenção. Com isso conseguirei, com os amigos que estão ajudando na creche, apoio para dar ao garoto, todas as oportunidades que a lei ofereça. Vamos conversar com o juiz. Não podemos deixar o rapaz se contaminar com a cultura do crime que prevalece nas prisões. Seria perdê-lo. E todos nós que o conhecemos sabemos que é apenas um menino doce e tímido, que pode ainda ser mais bem encaminhado. Não há dúvidas de que é culpado, o ideal seria pena alternativa. Por exemplo, que ele prestasse serviços obrigatórios àquela creche durante quanto tempo for necessário. Quem sabe conseguíssemos integrá-lo ao projeto e ele conquiste um novo destino para seus passos. Sei que vai dar certo porque acredito no que estou fazendo.

*Luiz Alberto Mendes, 54, sentenciado à prisão para, livre, depois de mais de 30 anos, descobrir um mundo condenado.

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