Tungstênio: o Brasil à beira da explosão

Novo filme de Heitor Dhalia é baseado na HQ de Marcello Quintanilha e reflete sobre o Brasil marginal

por Carol Ito em

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Das páginas dos quadrinhos para as telas de cinema, Tungstênio, dirigido por Heitor Dhalia, vem em “boa” hora. O filme, que estreia dia 21 de junho, dialoga com uma série de discussões fundamentais na história recente do Brasil, como machismo, relacionamento abusivo, violência policial e a nostalgia pelo tempo em que militares comandavam o país. 

A trama gira em torno de quatro personagens que vão se esbarrando ao longo da história: Seu Ney, interpretado por José Dumond, é um ex-sargento do exército que sente saudade da ordem militar. Caju (Wesley Guimarães) é um adolescente de periferia iniciando no tráfico. Interpretado por Fabricio Boliveira, Richard é um policial explosivo que age à margem da lei. A modelo Samira Carvalho estreia como atriz na pele de Keira, esposa de Richard, que oscila entre largar tudo ou continuar dependente do marido que a trata mal. Todos vivem situações limite que desafiam o público a eliminar julgamentos maniqueístas. Não tem mocinho nem vilão.

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Violência e caos nas cenas de Tungstênio - Crédito: Divulgação

A história se passa no microcosmo da Cidade Baixa, em Salvador, e faz refletir sobre até que ponto as pessoas conseguem viver (ou sobreviver) com a gigantesca exclusão social brasileira. “A situação é uma produtora de conflitos, é a temperatura da combustão. Uma faísca vira caos”, explica o diretor do filme. A tensão aumenta com o berimbau frenético do histórico percussionista Naná Vasconcelos, que domina a trilha sonora. 

De volta para o futuro

Ao mesmo tempo em que Tungstênio dialoga brutalmente com o cenário atual, aborda problemas antigos. “A figura do Ney, por exemplo, sempre perpassou a ficção brasileira.  Lima Barreto, escritor do século 19, atesta isso com alguns de seus personagens. Essa verve é muito presente no ideário brasileiro”, exemplifica Marcello Quintanilha, criador da premiada HQ.

Outro estereótipo muito vivo é o do policial corrupto, central na trama de Tungstênio. "A confusão mental que tá dentro de um sujeito desses, o ponto de contradição, a violência que ele dá e recebe. Ele só sabe se comunicar com violência. É um filme sobre não ter respiração, não pensar sobre a própria vida", conta Fabricio Boliveira sobre seu personagem.

O filme se passa no microcosmo da Cidade Baixa, em Salvador - Crédito: Divulgação

“A obra captura a falta de tolerância, estamos todos no limite da explosão. Não existe mais diálogo, é daqui pra violência”, teme Dhalia. Por outro lado, ele enxerga avanços que podem combater a intolerância: “As redes também trazem ativismo. A gente tá entendendo mais a questão do privilégio, do racismo e do machismo”, ele acredita.

Tungstênio, que dá nome ao filme e à história em quadrinhos, é um metal flexível aplicado desde a indústria de armas até o filamento de lâmpadas incandescentes. Pode se fragmentar ou se tornar muito resistente, dependendo das condições as quais é exposto. “É uma metáfora da própria condição humana”, explica Dhalia. 

 

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