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Tropeçando se aprende

Gosto do espanto, do susto. Há pouco tempo atrás, quando estive em Paraty, hospedado na Hospedaria do Sandy (claro que a trabalho; não tenho cacife para tanto), me diverti muito com algo que descobri. Podem entender como sadismo ou até preconceito (pobre também tem preconceitos, afinal, somos todos humanos), eu acho que era pura molecagem.

Debruçado no parapeito dos janelões que dão diretamente para a rua, percebi que muitos estrangeiros (loiros, altos e de olhos coloridos)tropicavam nas enormes e abauladas pedras do calçamento centenaríssimo. Ficando tão tomados pela emoção diante tamanha relíquia preservada (a cidade toda é uma obra de arte do tempo), que esqueciam as pedras. Tropicavam e iam ao chão, machucavam-se às vezes, inteiramente deslumbrados. Sabia porque me comprazia com aquilo, se bem que era mesmo divertido, parecia pegadinha do Faustão. Os europeus ficam abobados com aquele clima, com aquela pegada de século XVI que impregna tudo ali. Sentia, irracionalmente enciumado, que eles, com suas máquina digitais, seus olhos devastadores e impudicos, estavam se apropriando daquela maravilha toda que me pertencia.

Depois, no quarto, misturando conforto com prazer, estudei minhas emoções e me arrependi. Percebi que aquela gente se deslocava do outro lado do mundo para admirar, tirar o chapéu e capturar imagens, e tão somente imagens. Vão mostrar aos outros e contar suas emoções em vivenciá-las. Aquilo é patrimônio da humanidade; nada daquilo nos pertence, não cabe orgulho e muito menos posse. Observando-os melhor, senti suas humanidades. Ficavam extasiados, maravilhados. Gente sensível assim merece todo meu carinho e respeito. Venci meus estúpidos preconceitos e me uni à contemplação e ao susto deles. Tropiquei várias vezes, também enfeitiçado pelo encantamento, e ri de doer a barriga ao me ver esborrachar no chão feito abóbora, como eles.

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