Uma galinha epilética se masturba no fundo escuro de um
precipício. A galinha está quase gozando quando o vibrador começa
a falhar. Cria-se um impasse com a galinha e conseqüentemente
começo a me torturar pensando sem parar na palavra frango.
Poderia muito bem ficar obcecado pelo tigre do zoológico de São
Francisco ou pelo Barack Obama. Mas, simplesmente porque
o parágrafo começou com a galinha, logo veio, inexoravelmente,
o frango. Não posso fazer nada.
Frango totalmente aleatório, frango assado de churrascaria na
via Dutra na infância. Frango de padoca, televisão de cachorros e
peões. Frango de canja da minha avó, das ceias da Páscoa judaica.
Frangão do Agnaldo – não o Timóteo nem o Rayol –, mas o goleiro
que jogou no Santos no fim da década de 60, que tomou um frango
debaixo das canetas. Frango que é nerd, homem só pela metade –
versão galinácea mas igualmente arquetípica de centauro. A propósito,
quem foi o Homem de Mello que deu seu nome à rua de
Pinheiros, São Paulo? Era por acaso casado com a mulher do
Mendonça? Frangalho em pandarecos, exausto, cabisbaixo, humilhado
por alhos e bugalhos. Frango de quem confunde peito de
frango à milanesa com peito de frango ali na mesa.
Lembro que esqueci de lembrar que lembrei do que sempre
esqueço: preferível conseguir perdoar, sem guardar rancor, de todo
desafeto, no mínimo pra não cair no clichê e rimar com desamor e
dor. Mas também pra não ficar todos os dias nesta mesma ladainha
que tenta não nos deixar viver nem morrer em paz. Ladainha, vejam
só, relativa ao automóvel Lada, fabricado na ex-União Soviética.
Quem foi o imbecil que teve a péssima idéia de importar Ladas para
o Brasil no início da década de 90? Puta que los parió, pra que ficar
lembrando disso? Não agüento mais!
GOZA, GALINHA
Nem sei mais se isso tudo é espontâneo ou premeditado – como
não sei se era meu pai quem me esfaqueava e tentava me afogar na
represa da usina hidrelétrica Três Gargantas na China em um sonho
ontem à noite. Três Gargantas é a maior usina do mundo, bem maior
que as nossas Itaipu e Tucuruí, seja em volume de água ou quilowatts.
Sem resposta, só me resta tatear como um cego pelo mesmo abismo
escuro onde a galinha epilética agora supera os problemas com o
vibrador. Ela atinge o orgasmo, e eu posso seguir adiante. Sou envolvido
por uma enorme e inexplicável sensação de alívio e paz interior.
*O saudosista Henrique Goldman, 46, paulistano vivendo em Londres, é cineasta e acredita na associação livre – bem livre – de imagens. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
